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26/10/2009 - 07h00

"Coco Antes de Chanel" é retrato atropelado e sem interioridade da estilista francesa

ANTONIO FARINACI
Editor interino de UOL Estilo
"Coco Antes de Chanel", que chega aos cinemas brasileiros na próxima sexta (30) (seis meses depois de estrear na França), é um recorte da vida da mais célebre estilista do século 20, cujo nome se tornou sinônimo de elegância e sofisticação. Desde o dia em que é deixada junto com a irmã em um orfanato, sua juventude difícil como cantora de taberna, seu acesso à alta roda parisiense e a abertura de seu ateliê de costura. Parece atropelado? E é mesmo. Mas esse não é o maior problema do filme.
  • Audrey Tautou em cena do filme "Coco Antes de Chanel", de Anne Fontaine

Segundo a diretora Anne Fontaine, "Coco Antes de Chanel" pretende mostrar os anos de "preparação" de futura estilista. E é daí que vem seu ponto mais fraco, pois a Chanel encarnada por Audrey Tautou é desprovida de interioridade. Não há qualquer indício dos pensamentos e sentimentos íntimos da personagem. Sua vida é vista a partir dos homens com que se envolve, das vantagens que obtém por meio de um ou outro conhecido, e "explicada" por uma sociologia um tanto rasa.

No filme, é antes uma impossibilidade de Chanel de compreender o universo da ornamentação das roupas que a leva a refutá-los; se as modelagens que cria são austeras, é porque são inspiradas em uniformes de orfanato, e se tem um gosto pelo preto, é por causa de um luto irremediável. Tautou consegue até criar uma personagem simpática, mas da qual não se pode inferir o sofisticado visionarismo que daria anos mais tarde em ícones da moda como o famoso vestidinho preto, o tailleur de tweed debruado, a bolsa de matelassê com alça de corrente e toda a "panóplia" de Chanel.

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Chanel entendeu como poucos a importância dos códigos da moda. Numa época em que as cores, os materiais e os adereços das roupas cumpriam a função de marcar o status de quem as usava, ela utilizou esses códigos para se impor numa sociedade com pouca permeabilidade e em que as mulheres eram vistas como bibelôs. No filme, essa dimensão é achatada - suas transgressões estão mais para caprichos, e fundar seu ateliê de moda é uma maneira para escapar de um dilema romântico e se tornar "independente". Não há paixão pelo que faz.

Pelo recorte temporal --evidenciado pelo título--, o filme não tem os episódios polêmicos da vida da estilista, como seu suposto envolvimento com o governo nazista, durante a Segunda Guerra. Ficou de fora também o processo de construção da marca e da maison Chanel. Assim, desprovido do atrativo fácil do escândalo e do difícil do documental, "Coco Antes de Chanel" acaba por ser um filme anódino, sem interioridade, por ficcional que fosse.

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