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22/11/2009 - 16h16

Comédias aumentam a temperatura no Festival de Brasília

NEUSA BARBOSA
Especial para o UOL, de Brasília*
Teve um tom de comédia a quarta noite competitiva do 42º. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, neste sábado. O Cine Brasília, que recebeu sua sessão mais lotada da semana, aplaudiu com entusiasmo o curta brasiliense "Verdadeiro ou Falso", de Jimi Figueiredo, e o longa "O Homem Mau Dorme Bem", de Geraldo Moraes (DF). Mas uma verdadeira ovação seguiu a exibição do segundo curta do programa, "Recife Frio", de Kleber Mendonça Filho (PE), que imagina uma drástica inversão climática na capital de Pernambuco, que do dia para a noite torna-se uma cidade gelada, com temperaturas abaixo dos 10º...
  • Divulgação

    O filme "O Homem Mau Dorme Bem", de Geraldo Moraes. Em um posto de gasolina de beira de estrada, três personagens se encontram e descobrem o que há em comum em suas histórias



Veterano cineasta com atuação em Brasília, o gaúcho Geraldo Moraes, 70 anos, não fazia um filme para cinema há dez anos - seu último longa foi a aventura infanto-juvenil "No Coração dos Deuses" (99), com Antônio Fagundes. "O Homem Mau Dorme Bem", seu quarto longa, filmado em Mato Grosso, coloca-se como uma comédia dramática com toques românticos - e, a partir de um certo ponto, de faroeste caboclo. Os personagens principais são Rita (Simone Iliescu, atriz teatral estreando aqui no cinema), seu amor, o palhaço Januário (Luiz Carlos Vasconcelos ("Mutum", "Carandiru"), o avô da moça (Antônio Petrin) e o forasteiro Wesley (Bruno Torres, de "No Coração dos Deuses").

Um posto de gasolina no interior profundo do Brasil é o cenário onde se cruzam as vidas destas pessoas e algumas outras. Há uma história de vingança, também, permeando o destino de Januário, o que dá ao filme momentos de cinema policial, com um feroz tiroteio. O toque documental fica por conta do fato de que o "O Homem Mau Dorme Bem" foi realmente feito num posto de gasolina em funcionamento, nas proximidades da cidade de Poconé (MT). Detalhe que rendeu não poucos problemas à produtora Malu Moraes.

Na coletiva de imprensa do filme, no início da tarde deste domingo (22), Malu contou que moradores das imediações suspeitaram de que não se tratava de uma filmagem real. "Eles diziam: 'imagina se tem filme aí, com essa camerazinha de filmar aniversário'". Segundo ela, havia habitantes da região que desconfiaram de que a equipe poderia ser, na verdade, um grupo criminoso, estudando condições para um assalto. Uma conversa da produtora resolveu este problema, um entre muitos da logística de filmar numa região longe dos grandes centros urbanos.

Cheio de elipses e com flashbacks menos demarcados do que habitualmente se vê em produções voltadas ao grande público, "O Homem Mau Dorme Bem" concretiza uma intenção declarada do diretor de voltar a uma certa dramaturgia, a seu ver, perdida pelo cinema brasileiro recente. "Com este filme, procuro recuperar um tipo de diálogo que seja expressivo. O cinema brasileiro vem perdendo isso por influência da verborragia do cinema americano e da novela de TV, que é extremamente explicativa e repetitiva, como se estivesse chamando o público de burro".

Para Moraes, a própria reação positiva do público do festival de Brasília na primeira exibição pública do filme é a prova de que "as plateias são capazes de entender outras formas de comunicação".

Neve em Recife

Filmado ao longo de dois anos, o curta "Recife Frio" também teve suas dificuldades logísticas. Para tornar críveis as imagens da quente capital pernambucana - onde a temperatura ao longo do ano oscila em média entre os 22 e os 35 graus - com aparência de inverno, ela só foi filmada em dias de chuva. Que, por lá, são raros e geralmente imprevisíveis, segundo a produtora Emile Lesclaux. Outras situações, como Recife sob neve, foram resolvidas com efeitos especiais, que couberam no orçamento enxuto de R$ 69 mil.

Contado num tom cômico, o curta incorpora elementos de ficção científica e crítica social - como quando mostra uma família de classe média alta, em que o filho adolescente força a empregada a trocar de quarto com ele, porque o apertado quartinho dela é o lugar mais quente da casa neste novo clima.

No debate do filme, o diretor Kleber Mendonça comentou a recente procura do cinema brasileiro de buscar maiores bilheterias recorrendo às comédias: "Detesto esse tipo de comédia em que se sublinha, como se se colocasse um 'post it' naquilo de que o público deve rir. Em geral, essas comédias são muito ruins, porque a ideia de sutileza simplesmente não existe". Neste item, a sutileza, sem contar a esperteza, certamente faz de "Recife Frio" um exemplo de um modelo cômico diferente.

*Neusa Barbosa escreve para o site Cineweb

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