Segundo concorrente paulista da competição do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, "É Proibido Fumar", de Anna Muylaert, recebeu a maior aprovação até agora, unindo público e crítica e tornando-se o favorito para boa parte das premiações. Entre elas, espera-se o troféu de atriz para Gloria Pires, que se consolidou como a musa deste festival, que ela abriu na última terça (17) à frente do elenco de "Lula, o Filho do Brasil", de Fábio Barreto (que está fora da competição).
Nesta segunda (23) à noite, o festival encerra suas sessões competitivas com o documentário mineiro "A Falta que me Faz", de Marília Rocha. As premiações serão divulgadas na noite desta terça.
Estrelado por Gloria e pelo roqueiro Paulo Miklos ("Estômago", "O Invasor"), o filme de Anna Muylaert ("Durval Discos") - que estreia comercialmente no próximo dia 4 de dezembro - é uma comédia com toques românticos e sombrios na mesma medida. Conta a história de Baby (Gloria Pires), professora de violão, solitária, moradora de um apartamento que herdou da mãe. Entrando na maturidade, ela tem no cigarro seu vício e companhia mais constante, até o dia em que se muda para o apartamento ao lado o músico Max (Miklos).
Para entrar na pele de Baby, Gloria abriu mão da vaidade, visto que a aparência de sua personagem é bastante antiquada, às vezes mesmo brega. Detalhe que não a preocupa: "Não tenho qualquer problema com a desglamourização. Baby é assim porque está fechada no mundo que criou, sem qualquer feedback externo".
Pudor com a nudezUm aspecto notado em "É Proibido Fumar" é a ausência de beijos ousados e também de sexo com nudez - a única cena de intimidade entre os protagonistas mostra apenas suas pernas e pés e uma rápida imagem das nádegas de Miklos. O que, segundo a diretora Anna Muylaert, foi uma opção dela: "Acho muito constrangedoras as cenas de sexo. Senti que seria melhor deixar assim, sem mostrar muito, e deixando os risos, que evocam as alegrias que o sexo traz".
Gloria Pires, por sua vez, concordou que estas cenas são "constrangedoras", mas que havia uma prevista no roteiro e que ela a faria como Anna pedisse. "Anna tem muito bom gosto e achou que ficou muito bom assim". Miklos acrescentou que a sequência, como ficou, "serve mais à história e à atmosfera de ternura, de casal".
Falando do humor que tem caracterizado seus mais recentes papeis no cinema - além de "É Proibido Fumar", especialmente "Se Eu Fosse Você 2", o maior sucesso de bilheteria da Retomada, ultrapassando seis milhões de espectadores -, Gloria comparou com a TV: " No cinema, há mais elasticidade nesse ponto. Há tanto o humor sutil deste filme, como o humor mais escancarado de 'Se Eu Fosse você' ".
A atriz comentou também ter ficado "surpresa" pela reação do público à exibição do filme "Lula - O Filho do Brasil", em que ela interpreta um papel dramático, de dona Lindu, mãe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "As pessoas riam de coisas que eu nem imaginava", afirmou.
Indagada sobre as diferenças de orçamento e produção entre os dois filmes que protagoniza em Brasília, a superprodução "Lula..." e o filme independente de Anna Muylaert, a atriz disse: "Eu nunca penso no tamanho da produção ou no público que irá ter. Para mim, as duas personagens se encontram nos relacionamentos humanos, acabam falando da mesma coisa ao se relacionarem com os outros".
Comentando uma fala do personagem de Miklos - que diz que "os anos 70 eram o futuro, passaram-se 40 anos e o mundo voltou para trás", a diretora Anna Muylaert confirmou que sua intenção aqui é também discutir o reacionarismo e a correção política. "A gente está num mundo politicamente correto, mas o filme não é, apesar de o título sugerir isso para alguns. A história fala de impunidade, culpa e relacionamentos. Mas as pessoas tem opção de escolher, mesmo com um cadáver debaixo do tapete".
Massacre de índioTambém de culpa e impunidade falou um dos curtas da noite de ontem, o brasiliense "A Noite por Testemunha", de Bruno Torres (ator do concorrente na seção de longas "O Homem Mau Dorme Bem", de Geraldo Moraes, seu pai). O filme recorda o assassinato do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, a quem cinco rapazes de classe média alta atearam fogo, em 1997.
Torres, de 29 anos, contou que o filme nasceu de uma inquietação: "Senti vontade de falar de uma geração que é minha, de falar das sombras de uma parte dela". Ao mesmo tempo, o diretor conta ter se preocupado em não localizar demais a história: "Tentei fazer um filme universal sobre culpa e inconseqüência".
Nada poderia ser mais diferente deste tema do que o delicado curta baiano "Carreto", de Marília Hughes e Claudio Marques, que focaliza, em sequências quase sem diálogos, a amizade que brota entre duas crianças - um garoto que faz carretos com um carrinho de mão e uma menina deficiente física. Filmado em Acupe (BA), distrito de Santo Amaro da Purificação, com elenco não-profissional, o filme foi intensamente aplaudido pela platéia do Cine Brasília.
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(Neusa Barbosa escreve para o site Cineweb)