Alexandre Stockler não se importa de ser a "ovelha negra do cinema brasileiro", como ele mesmo se define. O diretor do polêmico "Cama de Gato" (2002) viaja na próxima semana para a Inglaterra, onde irá montar seu novo longa, "Linha de Fuga", com o qual promete "fazer uma pequena revolução no cinema digital". "Não é apenas um filme, eu fiz vários filmes, todos com o mesmo roteiro. Quero mostrar como são possíveis as diversas variações sobre a mesma história", antecipou ao
UOL Cinema.
Stockler promete fazer um lançamento diferente para os padrões brasileiros - senão mundiais. "Vou preparar diversos longas. Não sei ainda como serão lançados. Talvez em festivais passem todos, mas em cinema ainda não está definido. O digital precisa entrar numa nova era. Precisamos explorar todas as possibilidades dessa mídia e não apenas exibir como se exibem os filmes em película", explica.
Tudo nesse novo filme de Stockler parece meio inusitado. São cerca de 40 atores que jamais contracenaram uns com os outros. "As pessoas nem sabiam com quem estariam falando. Filmamos cada um dos personagens sozinhos, 'contracenando' com os outros por meio da internet". As filmagens foram em lugares sugeridos pelos atores, como suas próprias casas, escritórios ou lan houses. "São lugares de onde eles acessariam a internet mesmo. E tivemos que nos adaptar a isso".
Para poder transformar em sets essas locações, o cineasta teve de trabalhar com uma equipe bastante enxuta. "Eram cerca de sete pessoas, que faziam várias funções técnicas. Também levávamos pouco equipamento. Tentamos ao máximo usar a iluminação natural do próprio ambiente, o que até confere um ar documental ao filme".
Stockler esconde o elenco ao máximo, mas já se sabe que Gustavo Machado ("Olho de Boi"), Maria Manoela ("Crime Delicado"), Tuna Dwek ("Cidadão Boilesen") e o escritor Marcelo Rubens Paiva interpretam alguns desses personagens solitários em busca de realizar suas fantasias no mundo virtual. "Para se preparar para os papéis, eles tiveram de usar muita internet. Criamos uma comunidade no Skype e a qualquer hora do dia eles podiam entrar e interagir com outras pessoas. Alguns ficaram até viciados nisso, não queriam abandonar essa preparação mesmo depois de ter rodado a sua participação no filme", conta o diretor, divertindo-se.
Essa brincadeira tinha o intuito de deixar o elenco mais leve para falar de sexo, desejo e fantasia na era da internet. O roteiro, explica o diretor, era composto de 13 segmentos, e cada ator escolhia quais queria fazer - todos tinham obrigatoriamente que fazer o último - e seguiam tudo à risca. "Mas, no fundo, o filme não é apenas sobre sexo virtual. É sobre a comunicação no nosso tempo, por isso fala também da solidão, das falsas intimidades. Somos capazes de nos relacionar com mais liberdade com um completo desconhecido do que com as pessoas mais próximas", acredita.
Foi essa liberdade que o diretor tentou explorar ao máximo em "Linha de Fuga", que Stockler define como uma "comédia erótica". "O filme tem momentos engraçados, mas também é trágico, melancólico. Não critico o jeito de viver de ninguém. Cada um faz o que quiser, é a opção de cada pessoa".
Desde sua experiência com "Cama de Gato", no qual há uma cena bastante polêmica de estupro, Stockler sabe que mexer com a sexualidade e valores morais é arriscado. Seu filme de estreia causou polêmica por onde passou. "O engraçado era que as pessoas se incomodavam muito com o que havia de explícito no filme, mas pouca gente se preocupou em discutir o estupro em si. Algumas pessoas chegaram a me dizer que o ato nem era um estupro. É assustador pensar que algumas pessoas têm essa visão do mundo".
Toda essa polêmica, no entanto, não afasta Stockler de tentar ser, mais uma vez, ousado. Tanto que ele garante que algumas cenas explícitas poderão aparecer no novo filme. "Os atores faziam aquilo que as pessoas fazem quando estão num batepapo sexual na internet.", conta.
A ideia para "Linha de Fuga" veio no final da década de 1990, quando Stockler fez uma peça com o mesmo título. "Estávamos nos primórdios da internet. Batepapo e acessos eram muito precários ainda. Agora, dez anos depois, o mundo é outro. Interessa para mim ver como as pessoas se relacionam, como essa facilidade do mundo virtual ajuda ou atrapalha nos relacionamentos". Além dos filmes, para o próximo ano, Stockler promete uma nova montagem da obra teatral, agora atualizada.