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28/01/2010 - 07h00

Documentário sobre Mike Tyson explora diversas facetas do lutador

MAURÍCIO DEHÒ
Da Redação
  • Cena do filme ''Tyson'', dirigido por James Toback, sobre o lutador Mike Tyson

    Cena do filme ''Tyson'', dirigido por James Toback, sobre o lutador Mike Tyson

Mike Tyson subiu ao ringue com uma feição calma, provocadora e confiante. Naquele dia 22 de novembro de 1986, na badalada Las Vegas, ele provou a alcunha de revelação e arrasou o também norte-americano Trevor Berbick, 12 anos mais velho, para se tornar o campeão mundial dos pesos pesados mais novo da história. Sem dó, nocauteou no segundo assalto. Este é o lutador que escreveu o nome no boxe: um demolidor impiedoso. Fora do ringue, no entanto, Tyson sempre foi uma figura marcada pela polêmica, seja quando garoto, quando superou as chacotas para ser preso nada menos que 38 vezes até contemplar 13 anos, seja como uma celebridade, cumprindo pena por abuso sexual. No documentário intitulado simplesmente Tyson, que estreia nesta sexta-feira (29) nos cinemas brasileiros, é justamente esta figura multifacetada que se pode observar. E com a adição de um novo “alterego”, arrependido e choroso.

Apesar de já ter um filme sobre sua vida, também chamado Tyson, de 1995, nunca o lutador teve sua vida estudada e exposta com tamanha profundidade. Desta vez, figura em um documentário em que é figura central e quase única. O diretor norte-americano James Toback (de Nunca Fui Amada, Preto e Branco, entre outros) aposta em uma película exclusivamente sobre o pugilista. Um documentário em sua essência, Tyson se baseia no ex-campeão sentado, contando sua vida, além imagens antigas, muitas delas inéditas, e outras tantas de seus combates.

O que poderia ser um problema, pela falta de outras versões e opiniões sobre Tyson, não se concretiza. Apesar de longos trechos do lutador contando sua história, Toback soube usar recursos visuais que tiram a monotonia, como o de dividir a tela e mostrar detalhes e feições do ex-peso pesado – hoje mais pesado do que nunca. A própria profundidade psicológica do protagonista, cheia de complexidades, é que vale o filme, explicando como ele foi de um pequeno criminoso a campeão mundial, multimilionário, e de volta ao fundo do poço, gastando mais de US$ 300 milhões – e quem não se lembra da mordida na orelha de Evander Holyfield?

Infância

Após passar por reabilitação para deixar de usar drogas, Mike Tyson conta detalhes e histórias específicas desde sua infância. Do garoto gordinho, alvo de piadas, ao ladrão, que descobriu que poderia ser melhor que os outros ao usar pela primeira vez os punhos em uma briga. Com as companhias erradas, chegou ao crime e, por sorte, foi quando esteve detido que encontrou o boxe.

  • Divulgação

    No filme, Mike Tyson faz uma retrospectiva de sua vida e de sua carreira em frente às câmeras

O responsável, como diz um emocionado Tyson, foi o técnico Cus D'Amato. Sem conhecer o jovem aspirante a pugilista, D'Amato o acolheu como filho em sua casa e, com seus elogios, uma novidade para o ex-ladrãozinho, fez dele um lutador no sentido mais amplo da palavra. Foi assim, achando-se um Deus no ringue, como diz no documentário, que Tyson chegou invicto à frente de Berbick em 1986 e lhe tomou o cinturão mundial. O detalhe é que naquela luta ele já não tinha a companhia de Cus D'Amato, que já idoso morreu de pneumonia um ano antes de o pupilo arrebatar o cinturão e virar ídolo nos Estados Unidos.


Problemas e fama

A perda do mentor fez toda a diferença na queda de Tyson. À mercê dos empresários e do frio mundo dos negócios, o lutador perdeu quem cuidasse não de seu dinheiro – outra novidade em sua vida, e em quantias espantosas -, mas de manter no eixo aquela nova figura que ele adquiriu dentro do boxe.


Com um cinturão, dinheiro e fama, outro problema de criação atingiu Tyson: o sexo. O ex-lutador conta a sua relação com o tema ilustrando que em sua infância sempre viveu em uma vizinhança promíscua, assim como era sua mãe. O pai ele nunca teve certeza de quem era. Em seu pensamento, então, ter o máximo de mulheres quanto pudesse era um sinal de poder e sucesso. Pouco depois de ser campeão, se casou com a atriz Robin Givens, mas o divórcio veio um ano depois, principalmente por suas puladas de cerca.


Mais grave aconteceu em 1991. Ele foi preso e condenado na acusação de estuprar a miss Desiree Washington. Ficou preso e afastado dos ringues por três anos. Toda a confiança construída por D'Amato se esvaiu. E, apesar de voltar aos ringues e retomar o cinturão mundial, o peso pesado nunca mais se entregou aos treinos. Passou a colecionar derrotas e, apesar do recorde de 2 milhões de pay-per-views vendidos para sua revanche contra Holyfield, em 1997, decepcionou ao ser desclassificado por morder a orelha do rival.

TRAILER DO FILME "TYSON"

Em queda livre, Mike Tyson só parou de lutar em 2005, aos 39 anos. Perdeu para o desconhecido irlandês Kevin McBride. Ainda no ringue, deu entrevista dizendo que nem queria lutar. Estava lá para ganhar sua bolsa e, com o dinheiro, poder acertar seus problemas financeiros – agravados pelo fato de ter sete filhos.

Já fora do boxe e também da mídia, Tyson retornou de fato ao centro das atenções mais uma vez mudado, justamente neste documentário. O monstro de cara tatuada que virou nocauteando rivais e causando confusão dentro e fora do ringue dá lugar a uma criatura que parece indefesa frente à câmera de Toback. O que se vê é um Tyson que, talvez não intencionalmente, dá todas as dicas para que se entenda o porquê de sua vida ter sido uma montanha russa, em que ainda luta para aprender a dominar outros "monstros", os que vivem dentro de si.

Ao fim de 90 minutos, James Toback tem o mérito de explorar várias facetas de seu personagem apenas como consequência de suas conversas com ele. Mas sobra a certeza de que o ex-pugilista de 43 anos ainda pode sofrer com outros altos e baixos, a exemplo dos últimos meses, em que foi da morte de sua filha em um acidente doméstico, a um novo casamento e, recentemente, à acusação de agredir mais um fotógrafo.

Em tempo, Tyson foi lançado originalmente em 2008 fora do Brasil. Desde então, seu protagonista parece estar flertando firmemente com o cinema. Depois de uma ponta repleta de bom humor em ''Se Beber Não Case'', chegou a afirmar que pode seguir carreira como ator. Seria uma nova faceta aparecendo? Não se sabe. O certo é que do contraditório Mike Tyson pode-se esperar sempre novas surpresas, para o bem ou para o mal.

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