Num festival que teve mais baixos do que altos, o júri de Veneza até que se saiu bem. A premiação, como já havia acontecido em Cannes, saiu do último dia de competição. "The Wrestler" recupera a um só tempo a carreira de duas pessoas: do cineasta Darren Aronofsky, cujo talento tinha sido colocado em dúvida com "A Fonte da Vida", e principalmente a do ator Mickey Rourke, esquecido há 15 anos, parcialmente por sua própria culpa, como o próprio admite.
A história do lutador de luta livre Randy "The Ram" Robinson, que tenta emergir da lama do esquecimento, é muito parecida com a de Rourke. O foco no anti-herói pode até parecer um tema batido, mas Aronofsky mergulha sem medo na dor do personagem, evitando os caminhos fáceis. Tem sido raro ver algo assim no cinema americano recente. O prêmio principal em Veneza deve aumentar as especulações de indicações ao Oscar, tanto para o filme quanto para Rourke, que exprime pelos olhos toda a tragédia de seus personagem. "Não sei o que essa palavra significa. É um filme pequeno. As pessoas reagem porque há um coração aberto e sangrento pulsando nele, mostrando quão simples um filme pode ser, quando você tem alguém honesto na frente da lente", disse o diretor na coletiva de imprensa apos a premiação, apontando para o coração de seu protagonista.
O Leão de Prata de melhor direção para o russo Alexei German Jr., de "Bumazhny Soldat" (Soldado de papel), também não provoca polêmicas. Era um dos mais ousados filmes a passar no festival e um trabalho de direção difícil, envolvendo uma câmera que passeava entre vários atores e várias situações acontecendo ao mesmo tempo. O Osella de melhor fotografia parece, portanto, igualmente justo, ainda mais por passar a imagem desoladora do Cazaquistão e de um país mergulhado numa guerra surda pela conquista do universo.
A Coppa Volpi de melhor atriz para Dominique Blanc, por "L'Autre", é praticamente incontestável. Interpretada por alguém de menos talento, a jornada de uma mulher difícil, complexa, contraditória e irritante muitas vezes seria insuportável. No caso do prêmio de melhor ator, provavelmente muita gente preferiria Mickey Rourke. Mas não dá para negar a sutileza do papel de Silvio Orlandi em "Il Papà di Giovanna", a única coisa que se salva no filme do italiano Pupi Avati. O presidente do júri Wim Wenders causou polêmica ao pedir, ao final da premiação, que o festival reveja a regra de que os premiados como melhores atores não possam vir dos mesmos filmes que ganham os prêmios principais (Leões de Ouro e de Prata e Prêmio Especial do Júri). Pareceu que o júri tinha dado para Silvio Orlandi porque não podia oferecer os troféus de melhor ator e o Leão de Ouro para "The Wrestler". Mas ele negou isso na coletiva: "Não quero que ninguém pense que não queríamos dar um prêmio para o Silvio. Tivemos de fazer uma escolha, acho que fizemos a escolha certa. De jeito nenhum quero que isso diminua o prêmio para o maravilhoso Silvio Orlandi. Só gostaríamos que o festival reconsiderasse essa regra tão rígida", disse. Sobre a experiência no júri, ele afirmou: "Tenho certeza de que vou ter mais noites sem sono como a última. Nunca mais farei parte de um júri, não porque não foi uma experiência boa, mas é porque é muito pesado", afirmou. "Muita gente sai daqui triste, e eu também, porque não consegui dar todos os prêmios que gostaria, apesar de ser presidente do júri."
Mais difícil de engolir é o Orsella de roteiro para o confuso "Teza", de Haile Gerima, que ganhou também o Prêmio Especial do Júri. O longa é cheio de frases feitas, de situações soltas. Mas a trama que conta a história violenta da Etiópia nas últimas três décadas agradou ao júri. Também pareceu um prêmio de consolação o Leão especial para Werner Schroeter, que exibiu no festival o controverso, mas certamente autoral, "Nuit de Chien".
"BirdWatchers", co-produção Brasil-Itália dirigida por Marco Bechis sobre o drama atual dos índios no Brasil, parecia ter uma chance, mas saiu de mãos abanando. Uma pena, porque certamente é um filme de qualidades, principalmente por finalmente colocar índios como protagonistas de sua própria história. O bom drama familiar "Rachel Getting Married", de Jonathan Demme, também poderia ter ganho algo. Eles foram exceções de uma seleção marcada pela mediocridade - e algumas escolhas inexplicáveis.