 | 26/05/2006 - 12h02 Festival de Cannes deve premiar performance de Gérard Depardieu em "Quand J'Etais Chanteur"   Eliseo García Nieto Cannes (França), 26 mai (EFE).- O ator francês Gérard Depardieu, cuja interpretação de um cantor arrancou aplausos entusiasmados na exibição para a imprensa, deixou claro hoje que, a não ser que haja surpresa, o prêmio de melhor ator na competição do 59º Festival de Cannes já está definido.
Excepcional como sempre e cantando como nunca, Depardieu é o eixo e razão de existir de "Quand J'Etais Chanteur", filme do francês Xavier Giannoli, que espera conseguir com este longa uma Palma de Ouro para acompanhar a que conquistou com o curta "L'interview", em 1998.
O filme, co-protagonizado por Cécile de France, é uma tragicomédia romântica muito bem ambientada em salas de baile para público maduro ao ritmo de standards musicais, vários deles do repertório de Julio Iglesias, e que Depardieu se encarrega de interpretar.
"São canções que geram sentimentos a partir dos quais você encontra sua própria verdade", explicou o astro francês, que participou da entrevista coletiva hoje junto com De France e Giannoli.
Da mesma forma que o filme, a enorme - em todos os aspectos - humanidade de Depardieu foi o centro da entrevista, como deixou claro a própria De France, que se confessou "impressionada por seu companheiro".
O cantor encarnado por Depardieu "tem humanidade, autêntica dignidade, e isso é o que dá universalidade à história", disse Giannoli, que para criar o personagem se inspirou em um cantor que encontrou quando filmava um documentário.
A competição hoje em Cannes também apresentou o português Pedro Costa com um filme monótono.
"Juventude em marcha", como indica o título, trata de um idoso que está sentado na maior parte das duas horas e 34 minutos do filme, durante as quais os poucos personagens olham para o infinito com gesto pétreo.
É possível que houvesse trama - a nota de imprensa incluía uma sinopse -, mas é difícil assegurá-lo.
Os numerosos e longos planos mudos faziam mais audíveis os roncos que surgiam de algum ponto da sala entre o punhado de espectadores que ficou até o final do filme, depois de uma fuga generalizada a partir da meia hora inicial.
Infelizmente, a duração do filme lhe dá uma capacidade sonífera que impede apreciar corretamente seus valores.
Costa (Lisboa, 1959) é um autor respeitado graças a obras como "Ossos" (1997), "No quarto da Vanda" (2000) e "Casa de lava", que já esteve em Cannes, na seção Um Certo Olhar, em 1994.
Sua obra é um projeto meticuloso e coerente que desenvolve fita a fita, como nesta, onde seu protagonista, um ator não profissional chamado Ventura, é um habitante de um bairro lisboeta, Fontainhas, ao já tinha aparecido em "Ossos".
Seu artesanal sistema de trabalho também influi no resultado dos planos, impecáveis em fatura e estilo, com tendência a situar os personagens em um quarto ou um terço inferior do quadro, e em todo caso sempre com muito ar em volta.
Destaca, além disso, a nudez na composição, sem decorações alguma, o que tende a isolar o personagem, geralmente estático, e transformar assim o plano em um retrato fotográfico.
Uma fotografia precisamente, a cargo de Costa e Leonardo Simões, admirável apesar de usar apenas luz natural, manuseada com refletores ou espelhos, com um equipamento mínimo: uma câmera digital, um DAT para som e tripés.
Essa economia de meios permitiu uma filmagem de nada menos que quinze meses, com um resultado de 320 horas gravadas.
O problema é que, ao montar tão ingente metragem de um filme, é de duvidar se destacaram-se os planos mais bonitos ou os imprescindíveis para contar uma história.
Além disso, a própria composição dos enquadramentos e a impavidez dos atores faz com que o que devia ser cinema - ou seja, imagem em movimento - pareça uma fotonovela.
Por isso, se o filme durasse uma hora ou uma hora e meia, possivelmente fosse um prazer vê-lo, mas com mais de duas horas e meia se transforma em uma autêntica prova de fogo para a paciência. | |