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06/11/2010 - 07h00

"Mistérios de Lisboa" e "Carlos" são longos e imperdíveis

ALYSSON OLIVEIRA
Do Cineweb
  • Cena de Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz

    Cena de "Mistérios de Lisboa", de Raúl Ruiz

Não se deixe assustar pela duração. Os filmes “Mistérios de Lisboa” e “Carlos” têm respectivamente 4h26 e 5h30. E valem cada um de seus preciosos minutos. Não é a penas a duração que dá o aspecto monumental aos dois filmes – ambos idealizados como minisséries pra canais de televisão europeus, mas que também acabaram chegando aos cinemas, embora seja pouco provável que sejam lançados no Brasil. Os dois direrores, Raúl Ruiz e Olivier Assayas, respectivamente, deram ares épicos a histórias que teriam por natureza cunho intimista.

Enquanto "Carlos" é exibido no domingo (7), às 16h10, no Cine Livraria Cultura 1, “Mistérios de Lisboa” tem sua última sessão no sábado (6), às 16h10, no Cinesesc (veja a programação da repescagem). Este último é baseado num romance homônimo de Camilo Castelo Branco, com roteiro assinado por Carlos Saboga. Ruiz, um chileno radicado na França, é um dos cineastas mais prolíficos da atualidade e em sua filmografia, há adaptações ousadas como de Proust, “O Tempo Redescoberto”.

  • Divulgação

    Programa maratona da Mostra de SP 2010, ''Carlos'' é longo mas imperdível

“Mistérios de Lisboa” centra-se na figura de Pedro da Silva (interpretado por João Arrais, quando criança). Órfão criado por um padre, ele desconhece completamente a identidade de seus pais até que sua mãe (Maria João Bastos) entra em sua vida. A história do garoto é como uma delicada teia repleta de meandro, notas de rodapés e flashbacks, que conduzem a narrativa do filme,

Quando no começo da segunda parte um religioso diz “Eu tenho uma história para te contar e ela é longa”, ele não está sozinho. Todos os personagens têm longas histórias para contar e isso que agrega camadas e mais camadas de narrativa ao filme. Ruiz e Saboga, no entanto, são engenhosos o bastante para não perder um fio que a conduza, na figura do Padre Dinis (Adriano Luz).

Romances proibidos, traições, mortes, promessas, guerra e lágrimas não faltam na trama cujo quê de folhetinesco é superado pela direção e o visual, com cenários e figurinos bonitos sem nunca serem pomposos. A primeira cena é um teatro ao ar livre, e, durante vários momentos de “Mistérios de Lisboa”, Pedro brinca com um teatrinho de papelão encenando passagens que são contadas. Pode estar aí uma pista para desvendar o filme. Talvez, parece dizer Ruiz, a vida não passa de uma encenação – somos protagonistas de nossa existência, mas coadjuvante na dos outros.

Trama internacional

Há mais pontos em comum com “Carlos” e “Mistérios de Lisboa” do que possa parecer num primeiro momento. Fora a duração e a concepção, as duas obras lidam com a questão da identidade pessoal. Tanto Pedro, quanto Carlos, o Chacal (interpretado pelo venezuelano Édgar Ramirez), parecem não saber ao certo quem são, e o filme investiga o que há por trás deles e como chegaram onde estão, embora, nem sempre tenham ciência do caminho que percorreram.

Illich Ramíres Sanches ganhou seu apelido nos anos de 1970, quando se tornou um dos terroristas mais procurados do mundo. Nascido em 1949, filho de um advogado venezuelano marxista, fez treinamento na União Soviética, e mais tarde se juntou à Frente Popular para a Libertação da Palestina que marca o começo de sua carreira.

Usando uma boina e com costeletas, se parece com o gêmeo de Che Guevara, e, aliás, é possível estabelecer similaridades entre o épico de Assayas e o díptico de Steven Sodervergh sobre o revolucionário argentino – apresentado na Mostra há dois anos. Nenhum dos dois diretores está interessado em explicar ou desvendar enigmas que seus personagens possam ser. A certa altura, quando Carlos começa a ganhar fama e notoriedade, ele entra em cena mais parecendo uma estrela de rock do que um terrorista procurado no mundo todo.

Conhecido por seus filmes intimistas, como “Horas de Verão” e “Clean”, Assayas combina a grandiosidade dos épicos com a profundidade dos retratos pessoais, ao olhar a fundo em Carlos, sem buscar explicações ou razões, mas retratando a ascensão e queda. Obviamente, de forma sutil, o diretor estabelece paralelos entre o passado e o presente. Não apenas como “Che”, mas também como o alemão “O grupo Baader Meinhof”, “Carlos” retrata o idealismo – que pode se transformar em violência. Esses filmes falam diretamente com o mundo pós-11 de setembro, no qual o encontro entre idealismo e violência gera resultados perigosos.

Num primeiro momento, “Carlos” e “Mistérios de Lisboa” parecem excessivamente longos. Mas os dois são tão bem dirigidos, atuados e com tramas tão interessantes que não se sente o tempo passar. Há muito filmes de 90 minutos que soam mais longos do que essa dupla. O segredo está na forma como tanto Assayas, como Ruiz, articulam suas imagens e personagens – e isso é o melhor que o cinema, e a Mostra, pode oferecer.
 

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