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Jedaísmo: Conheça fãs que levam a sério a "filosofia" de "Star Wars"

O jovem Kelvin Oliveira, que procura seguir os preceitos filosóficos dos mestres Jedi - Arquivo Pessoal
O jovem Kelvin Oliveira, que procura seguir os preceitos filosóficos dos mestres Jedi Imagem: Arquivo Pessoal

André Bernardo

Do Rio

16/12/2015 17h07

O gaúcho Kelvin Oliveira da Silva tinha apenas seis anos quando o pai o levou para assistir a "O Ataque dos Clones" (2002), o quinto episódio da franquia  "Star Wars". Até hoje, ele não se esquece da cena em que Yoda trava um combate de sabre de luz contra Conde Dooku. Hoje, aos 20, Kelvin procura seguir os preceitos filosóficos ensinados pelo Mestre Jedi. Um de seus favoritos é: "O medo é o caminho para o lado negro", proferido em "A Vingança dos Sith" (2005).

"A vida é um constante teste que exige o enfrentamento de nossos medos. Na medida do possível, procuro sempre enfrentar os meus", admite Kelvin, que garantiu com dois meses de antecedência seu ingresso para assistir a "O Despertar da Força", que estreia nesta quinta-feira.

Estudante do 2º ano de história da PUC do Rio Grande do Sul, Kelvin Oliveira da Silva se considera um jedaísta. O termo ganhou força em 2001, pouco antes da estreia de "O Ataque dos Clones", quando um censo realizado no Reino Unido revelou a existência de 390 mil adeptos do jedaísmo (ou jediísmo).

Em linhas gerais, os jedaístas (ou jediístas) dizem acreditar na Força como uma espécie de divindade. Ou, como diria Obi-Wan Kenobi em "Uma Nova Esperança" (1977), "um campo de energia criado por todos os seres vivos, que nos envolve e conecta, e mantém a Galáxia unida". "A história faz sucesso porque mescla elementos das mais diferentes mitologias e religiões. Temos desde o mito grego de Édipo ao conceito taoísta do Yin-Yang", afirma Kelvin.

Galáxia melhor

O fascínio pela saga criada pelo cineasta norte-americano George Lucas é tão grande que, em alguns países, ganhou status de movimento religioso. Segundo estimativas não oficiais, o número de adeptos do jedaísmo chega a 9.000 no Canadá, 15 mil na República Tcheca e 65 mil na Austrália. No Reino Unido, o número de Jedi caiu para 176 mil em 2011, mas, ao longo de 2015, segundo dados da Igreja Jedi (Jedi Church, no original), subiu para 250 mil.

"'Star Wars' oferece a cada espectador o que ele quer ver. Para uns, é entretenimento da melhor qualidade. A história é cativante e os personagens, inesquecíveis. Para outros, é uma amálgama de correntes filosóficas e doutrinas religiosas. Tanto cristãos quanto budistas podem se identificar com os princípios Jedi", opina Hermes Barreto Neto, 44, de Brasília.

O maquiador e figurinista conhecido como Hermes 3º explica que, mais do que uma franquia cinematográfica, "Star Wars" virou uma filosofia de vida pautada por valores como manter a ordem e fazer o bem ao próximo. "Gosto muito quando Mestre Yoda vira-se para Luke Skywalker e diz: 'Faça. Ou não faça. Tentativa não há'. Às vezes, pensamos muito e agimos pouco", afirma.

Doutrina Jedi

No Brasil, mais do que caráter religioso, o jedaísmo adquiriu viés filosófico. É o que explica o carioca Rodrigo Alves Coelho, 31. Em 2002, ele ajudou a fundar o Pilar, grupo de estudos que se reunia todas as semanas no Bosque da Barra, zona oeste do Rio. Paralelamente ao grupo, criou um blog, o Filosofia Jedi, no qual debatia os mais variados assuntos à luz da doutrina dos guardiões do lado luminoso da Força.

"Ao longo de dois anos, estudei tudo o que dizia respeito a 'Star Wars': de ordens monásticas da Europa medieval, que teriam inspirado Lucas a criar a Ordem Jedi, à milenar técnica de combate Kenjutsu, que teria dado origem às lutas com sabre de luz", exemplifica Rodrigo, que assistiu a "Uma Nova Esperança", ainda garoto, em companhia do pai.

O grupo Pilar teve 20 integrantes fixos, a maioria deles com curso superior e idades entre 17 e 36 anos. Mas, em algumas ocasiões, chegou a reunir mais de 150 pessoas. Alguns membros, mais fanáticos, logo sugeriram a Rodrigo que transformasse o grupo em seita religiosa. Na ocasião, chegaram a propor a fundação de um Templo Jedi. Foi quando Rodrigo, em 2004, decidiu se afastar.

"Percebi que o negócio estava indo longe demais quando recebi convites para ministrar 'cultos Jedi'", recorda. "Sempre fui e sempre serei um jedaísta. Mas, veja bem, não entendo George Lucas como um profeta, nem 'Star Wars' como algo messiânico. Vejo o jedaísmo como um caminho a ser trilhado", explica Rodrigo, que tem em Obi-Wan Kenobi sua principal referência.

Cultura de massa

O jedaísmo também virou tema de estudos acadêmicos. É o caso de "Um Novo Movimento Religioso Contemporâneo: Uma Análise da Prática no Brasil", monografia do estudante Mauro Thiago da Silva Giovanetti, do curso de ciências sociais da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Nela, Giovanetti traça um paralelo entre o grupo Pilar, de Rodrigo Alves Coelho, e o Jedi Church, de Daniel Jones, um britânico aficionado por "Star Wars" que se autointitula Mestre Morda Hehol.

"A última vez que ouvi falar do Daniel foi em 2009. Soube que ele estava processando um supermercado do País de Gales que, por medida de segurança, não o deixou entrar usando capuz. Para Daniel, tudo não passou de discriminação religiosa", afirma Mauro.

A atitude de Daniel Jones não causa espanto a Ademir Luiz da Silva. Doutor em história pela Universidade Federal de Goiás, ele explica que o fenômeno do jedaísmo é recorrente na cultura de massa. E cita o exemplo de J. R. R. Tolkien, autor de "O Senhor dos Anéis". "Quem poderia imaginar que, nos anos 1960, um respeitável acadêmico de cabelos brancos se tornaria alvo da devoção de hippies, que desejavam viver como hobbits?", indaga.

Meio século depois, a história se repete. Dessa vez, são internautas que sonham viver como Jedi. "Enquanto fenômeno cultural, o jedaísmo é inofensivo. Não tem caráter de contestação social ou religiosa. Para muitos, pode até não ser uma brincadeira, mas, certamente, não contesta o 'status quo', uma vez que se alimenta dele", analisa o historiador.

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