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"Dois Papas": o que é realidade e ficção no novo filme da Netflix

Da BBC News Mundo

27/12/2019 12h15

Longa dirigido por Fernando Meirelles gira em torno de conversa fictícia entre o cardeal de Buenos Aires e o bispo de Roma pouco antes da renúncia do segundo, em fevereiro de 2013.

Alerta de spoilers: este texto pode revelar detalhes da trama do filme.

Ao longo dos séculos, o sigilo tem marcado o funcionamento de uma das instituições mais antigas do mundo: a Igreja Católica.

Agora, um novo filme da Netflix busca desvendar, por meio da ficção, um dos maiores mistérios da história do Vaticano nos últimos 600 anos: a renúncia do papa Bento 16 e a inesperada ascensão de um cardeal argentino, Jorge Mario Bergoglio, ao trono de São Pedro.

Dois Papas, que passou rapidamente pelos cinemas e agora está disponível na plataforma da Netflix, foi indicado a quatro Globos de Ouro, entre eles, os para melhor ator e melhor filme de drama.

O longam dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, de Cidade de Deus e Ensaio Sobre a Cegueira, a partir do roteiro do neozelandês Anthony McCarten, de A Hora Mais Escura e A Teoria de Tudo, gira em torno de uma conversa fictícia entre o cardeal de Buenos Aires e o bispo de Roma pouco antes da renúncia do segundo, em fevereiro de 2013.

O foco é no confronto de dois personagens — interpretados por Anthony Hopkins (Bento 16) e Jonathan Pryce — com diferentes visões de mundo.

E à medida que a trama avança, eles não apenas terão empatia como também mudarão a visão um do outro e mostrarão uma nova concepção do mundo.

Papas Francisco e Bento 16, em imagem real; Bento 16 renunciou ao papado em 2013 - AFP
Papas Francisco e Bento 16, em imagem real; Bento 16 renunciou ao papado em 2013
Imagem: AFP

Dois Papas apresenta duas visões contrapostas de dogma, vida e fé que se cruzam de forma quase arquetípica no anseio comum por um futuro melhor para a Igreja Católica em crise.

Mas o que é de fato ficção e realidade nessa obra "inspirada em fatos reais"?

A BBC Mundo (serviço da BBC em espanhol) se propôs a decifrar algumas partes do filme.

Conclave e eleição de Bento 16

Um fato real dá início à trama: é abril de 2005 e o papa João Paulo 2º morreu.

Cardeais de todo o mundo viajam para Roma a fim de eleger um novo pontífice em uma das cerimônias mais secretas do catolicismo: o conclave.

Nele, com dois terços dos votos, os cardeais (também chamados de purpurados) com menos de 80 anos devem eleger forma sigilosa quem será o "sucessor de São Pedro".

O que se passa dentro da Capela Sistina, de onde saem as famosas fumaças (preta indica que não houve acordo, e branca, que se elegeu um novo papa), é um mistério.

Filme retrata momento do conclave, quando cardeais escolhem o novo sucessor de São Pedro - Peter Mountain
Filme retrata momento do conclave, quando cardeais escolhem o novo sucessor de São Pedro
Imagem: Peter Mountain

Em 2005, como narra o filme, o alemão Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Causa da Fé e mão direita de João Paulo 2º, era tido como o sucessor natural do papa.

No entanto, não é claro se houve, como o filme sugere, o intenso lobby de Ratzinger para ser eleito ou mesmo se ele tinha tamanhas ambições de poder.

De fato, diversos vaticanistas afirmaram que, de fato, o antigo prelado alemão — um filósofo erudito — buscava mais se aposentar para escrever do que para governar a Igreja no momento complicadíssimo em que a instituição estava.

Mas não se sabe que outros candidatos estiveram na disputa papal: os cardeais fazem um voto de segredo sobre o Evangelho antes de começarem as discussões. Por isso as informações sobre o conclave são extremamente limitadas e provavelmente a grande maioria do que o filme mostra sobre esse capítulo da história é ficcional.

Mas alguns detalhes vieram à luz nos últimos anos. Documentos vazados ao veículo italiano La Strada indicam que durante o conclave de 2005 o nome do argentino ficou em segundo lugar na votação na qual, como se esperava, Ratzinger foi eleito depois de quatro fumaças pretas.

Não há nenhum indício conhecido de que Bergoglio lamentou a escolha do alemão, como conta o filme, ou que o compromisso dos cardeais com um papa "conservador" motivou sua renúncia posterior, como o longa sugere.

A renúncia de Bergoglio e o encontro com o papa no Castelo Gandolfo

Na parte argentina de Dois Papas, se vê o então cardeal Bergoglio esperando uma carta de Roma que aprove sua renúncia, a fim de poder se afastar para uma pequena paróquia local.

De fato, ele conta a uma de suas assistentes que enviou por correio a carta ao Vaticano e que espera por uma resposta.

Na realidade, segundo o Direito Canônico, todo bispo deve apresentar sua renúncia obrigatória quando faz 75 anos (Bergoglio tinha 76 quando foi eleito papa) e o pontífice pode aceitá-la ou não.

Como conta o filme, Bergoglio submeteu sua renúncia a Roma quando atingiu a idade limite, mas os bispos não utilizam os serviços postais para essa comunicação.

Cardeais fazem voto de segredo durante o conclave, no filme - Peter Mountain
Cardeais fazem voto de segredo durante o conclave, no filme
Imagem: Peter Mountain

Em geral, os trâmites se dão por meio das nunciaturas apostólicas, embaixadas do Vaticano em outros países.

Tampouco há registro de que Bergoglio foi à Roma a fim de se encontrar com Bento 16 ou que se encontraram e conversaram antes da eleição do argentino como papa na residência de verão do Castelo Gandolfo. Ao menos não como o filme retrata.

Há registro de que ambos se encontraram nesse local, mas muito tempo depois do que o filme mostra, quando os dois já eram pontífices.

"Vatileaks", renúncia de Bento 16 e eleição de Bergoglio

O filme, que descreve em boa medida o caos da Igreja Católica, recria um dos maiores escândalos do catolicismo em décadas: o chamado "Vatileaks".

Uma série de documentos secretos foram vazados para a imprensa em 2012 e traziam a público informações sobre corrupção, chantagem e escândalos sexuis dentro da Igreja Católica e em especial dentro do Banco do Vaticano.

Como conta o filme, foi o próprio mordomo de Bento 16, Paolo Gabriele, que vazou boa parte dos documentos. Esse episódio, segundo alguns vaticanistas, pode ser uma das causas que levaram o papa a repensar seu papel à frente da Santa Sé.

Mordomo do papa Bento 16 foi preso por vazar documentos sigilosos - Getty Images
Mordomo do papa Bento 16 foi preso por vazar documentos sigilosos
Imagem: Getty Images

Oficialmente, Bento 16 alegou "falta de forças" para poder fazer frente aos desafios da Igreja Católica, segundo disse em latim em seu histórico anúncio de renúncia em fevereiro de 2013.

O filme sugere outros elementos: culpa e uma suposta crise de fé por trás da resposta fraca aos escândalos de abusos sexuais de menores de idade por membros da instituição, especialmente o mexicano Marcial Maciel.

No entanto, não há informações públicas que indiquem que Ratzinger se arrependeu de como gerenciou a crise dos abusos sexuais ou que tenha se reunido na Capela Sistina com o cardeal argentino para compartilhar seu plano de renunciar.

Muito menos que tenha havido conversas entre ambos sobre crise da fé, problemas para escutar a voz de Deus ou a farra regada a pizza e refrigerante na Capela das Lágrimas (ainda que se saiba que o papa emérito é fanático por suco artificial de laranja).

Fernando Meirelles, por outro lado, afirmou que os diálogos do filme, ainda que se tratem de ficção, estão baseados na realidade.

"Todos os diálogos, tudo isso bebe de discursos, entrevistas e escritos (dos dois papas). O que dizem no filme é algo que já disseram em algum momento de suas vidas", disse o diretor ao jornal USA Today.

O passado de Francisco

Ainda que se chame Dois Papas, o filme é centrado em Bergoglio, sua vida e os momentos que marcaram sua ascensão ao comando da Santa Sé.

No entanto, nessa reconstituição, realidade e ficção se misturam novamente sem que fique muito claro o que é fato e o que não é no que se conta em tom quase hagiográfico sobre o atual bispo de Roma.

Como descreve o filme, durante a juventude e antes de se tornar seminarista na ordem dos jesuítas, Bergoglio trabalhou como técnico nos laboratórios da Hickethier Bachman, de Buenos Aires, onde tinha uma boa relação com sua chefe.

Mas não há registro de que ele tenha dado um anel ou se comprometido com qualquer mulher.

Na realidade, segundo conta o próprio papa argentina, ele tinha 12 anos quando escreveu uma carta de amor a uma jovem, Amalia Damonte, na qual dizia que se não casasse com ela, se tornaria sacerdote.

Mais complexo é o tema da suposta relação de Bergoglio com a ditadura militar da Argentina (1976-83).

No longa, Meirelles apresenta uma proximidade entre o então chefe dos jesuítas e o regime do general Jorge Rafael Videla num "esforço para proteger seus padres".

As ações de Bergoglio à época continuam sendo uma das páginas mais controversas de seu passado.

Ele é questionado, entre outras coisas, por supostamente ter removido a proteção eclesiástica de dois membros de sua congregação jesuíta que seriam presos mais tarde e ficariam em cativeiro por cinco meses na escola da Marinha, até serem libertados.

As acusações contra Bergoglio em torno do seu relacionamento com o governo militar vieram à tona em 2010, quando o jornal argentino Página 12 publicou uma reportagem em que ele é acusado de ter colaborado com autoridades da época.

Em seu livro autobiográfico O Jesuíta, de 2010, Bergoglio rebateu as acusações: "Fiz o que pude com a idade que tinha e com os poucos relacionamentos que tive para defender as pessoas sequestradas".

O papa "bom" e o papa "mau"

Uma das críticas mais recorrentes ao filme, inclusive da própria Igreja Católica, é a dicotomia entre os dois personagens principais:

  • um papa "bom": Francisco, apresentado como um "revolucionário", humilde, advogado das causas justas, amigo dos pobres e dos opimidos, conhecedor de ervas aromáticas e dos sofrimentos dos mortais.
  • um papa "mau", ou menos popular: Bento, retratado como esquemático, conservador, alijado do mundo, vaidoso, amante do luxo, intelectual, responsável pelo colapso que vive a Igreja.

Para o diácono católico Steven Greydanus, se trata de uma visão distante dos verdadeiros papas.

"O molde esquemático do papa Bento 16 como um reacionário rígido e o futuro papa Francisco como um revolucionário tem menos a ver com a realidade de ambos do que com a necessidade de conflito (...), e uma preferência ideológica por uma narrativa na qual a liberação progressiva triunfa sobre o tradicionalismo oculto", escreve Greydanus.

A agência católica ACI Prensa afirma que o filme "não representa Francisco e Bento 16".

Fernando Meirelles, que não nega sua simpatia por Francisco, acredita que seu retrato do papa emérito é inclusive mais suave que a realidade.

"Para ser sincero, acredito que o papa Bento é melhor em nosso filme do que na vida real, é mais carismático. Anthony Hopkins não pode evitar, ele é encantador", afirmou o diretor ao USA Today.

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