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James Franco apresenta em Cannes adaptação pretensiosa de obra de Faulkner

Alicia García de Francisco

De Cannes (França)

20/05/2013 16h20

Adaptar para o cinema o livro "Enquanto Agonizo", de William Faulkner, requer um conhecimento profundo da obra, uma sólida experiência na sétima arte e muita coragem. Esse último requisito é o único de James Franco, que concorre em Cannes com uma pretensiosa e simplificada versão da novela.

Incluída na mostra "Um Certo Olhar", a segunda mais importante de Cannes e que premia o cinema inovador e ousado, o filme foi recebido hoje com alguns aplausos em sua primeira projeção no festival, nesta segunda (20).

Na adaptação, Franco eliminou praticamente todos os personagens secundários da história, que aparecem muito brevemente, elegeu Darl (interpretado por ele) como único narrador e transformou a complexa estrutura do romance - baseado quase inteiramente em monólogos - em uma narração linear.

As decisões, no entanto, podem ser defendidas na busca pelo uso do texto da obra colossal e detalhista de Faulkner. O problema do filme está principalmente na escolha de atores, começando por ele, que tem atuação fria, e, sobretudo, no abuso da tela dividida.

Para tentar recriar a narração com diferentes pontos de vista usada por Faulkner, o ator e diretor optou pelo recurso da tela dividida, que usa em excesso.

A mesma cena vista por dois personagens diferentes, protagonistas falando diretamente para a câmera com a outra parte da tela em preto e duas cenas consecutivas que se sobrepõem são alguns dos recursos usados por Franco para encher as duas metades da tela, que a princípio funcionam, mas acabam cansando o espectador.

Os atores também não parecem ter mergulhado com a intensidade necessária em personagens socialmente desfavorecidos e com traços marcantes de personalidade.

Tim Blake Nelson, como o chefe de família, Anse, é o que mais se aproxima do personagem idealizado por Faulkner, um homem egoísta e mau que coloca seu interesse acima do bem-estar de seus filhos.

Após a morte de sua esposa, Anse e os cinco filhos percorrem um longo caminho tanto físico como moral para poder enterrá-la no Mississipi rural dos anos 1930.

Os filhos - Darl (Franco), Cash (Jim Parrack), Jewel (Logan Marshall-Green), Dewey Dell (Ahna O'Reilly) e Vardaman (Brady Permenter) - têm seus próprios medos, contradições e guardam segredos inconfessáveis.

Mas os atores que os interpretam não conseguem entrar na alma de personagens cheios de camadas e que no romance se mostram muito mais complexos. Apenas Ahna, como a única mulher da família, consegue transmitir a fragilidade de Dewey.

O filme foi rodado em apenas 25 dias em cenários do Mississipi semelhantes aos descritos por Faulkner e com um orçamento baixo que obrigou a equipe a buscar a ajuda de atores locais e alojamento gratuito com famílias da região.

O projeto começou há sete anos, quando Franco pensava em rodar um curta baseado em um conto de Faulkner "Folhas Vermelhas", ideia que abandonou e decidiu se concentrar em "Enquanto Agonizo".

Multifacetado e ambicioso, Franco é ator, diretor, escritor, pintor e apresentador, e aos 35 anos multiplicou seu talento com um trabalho intenso que o levou a ter no currículo mais de 80 títulos como ator e 20 como diretor - entre curtas, documentários e longas.

Californiano de uma família de escritores e professores universitários, Franco é conhecido por se lançar de um projeto a outro sem respirar, simultaneamente a seus estudos acadêmicos.

E em uma carreira tão ampla e variada, o artista recebeu tanto elogios como críticas. As últimas e mais duras, por seu papel como apresentador na noite do Oscar em 2011, junto a Anne Hathaway.

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