Filmes e séries

Filmes da "velha Hollywood" escapavam do controle da censura

Divulgação
Marlene Dietrich durante as filmagens de "O Anjo Azul", na Alemanha, em 1929 Imagem: Divulgação

Magdalena Tsanis

22/08/2014 10h25

Adultérios felizes, prostitutas sem complexos, delinquentes como heróis e festas regadas à cocaína. Houve um tempo, entre 1930 e 1934, em que os filmes da "velha Hollywood" escapavam do controle da censura, um período fascinante marcado por títulos como "O Anjo Azul" (1930) e "Serpente de Luxo" (1933). Se o primeiro revelou ao mundo as coxas da então desconhecida Marlene Dietrich, no segundo, Barbara Stanwyck dá uma lição sobre como usar o sexo para ascender na escala social. Esses são os exemplos mais conhecidos, mas existem muitos outros.

Esse período de libertinagem cinematográfica, reconhecido como "Pre-Code" e que se concentra nos filmes elaborados nos estúdios RKO Pictures, se desenvolveu entre as primeiras produções hollywoodianas de cinema sonoro e a implantação do chamado código Hays em 1934. 

Chamado assim pelo sobrenome de seu impulsor, William Hays, o primeiro presidente da Associação de Produtores e Distribuidores de Cinema da América, esse código era uma espécie de autocensura adotada perante as pressões da igreja e dos setores mais puritanos. "Não permitia mostrar na tela os desvios sexuais, a vulgaridade, a ridicularização das religiões, o alcoolismo ou a toxicomania", explica Guillermo Balmori, especialista em cinema.

A questão é que a princípio, em plena depressão posterior à crise de 29, havia certa permissividade. Desta forma, no começo de "Árbitro do Amor" (1931), de Lower Sherman, é possível ver uma criada em um salão recolhendo com naturalidade os rastros de uma festa, incluindo drogas.

Em "Our Betters" (1933), um dos primeiros filmes de George Cukor, a atriz Constance Benett aparece no papel de uma nova rica norte-americana que se muda para Londres por amor, mas que, após se casar, descobre as vantagens de ter amantes. O longa também inclui um dos pouquíssimos personagens gays do cinema clássico.

Sexualidade sem alardes

As primeiras produções da RCO Pictures traziam atrizes como Ann Harding, Ginger Rogers, Irene Dunne, Katherine Hepburn e a própria Constance Bennett, todas "mulheres fortes, nada pusilânimes, independentes e que viviam sua sexualidade sem alardes, mas de um modo decididamente livre", afirma o especialista. Essa imagem "incomodava e era ainda mais perturbadora" que os delinquentes e prostitutas da Warner, acrescentou Balmori. Até a conservadora Metro Goldwyn Mayer chegou a mostrar Joan Crawford tirando sua calcinha enquanto dançava em "Garotas Modernas" (1928).

Supostamente, o nudismo era vetado pelo código Hays. "Modelo de Amor" (1931), de Paul L. Stein, é um dos poucos filmes da época que mostra um, mesmo distante e difuso, mas novamente com Bennett como jovem rebelde que decide trabalhar como modelo para um pintor americano (Joel McCrea). No entanto, há muitas atrizes, assim como atores, que pagaram um alto preço pelo suposto atrevimento e ficaram afastadas da indústria após a intensificação da censura.

Esse é o caso de Helen Twelvetrees, uma das protagonistas de "Promotor Público" (1932), na qual interpretava uma prostituta que seduzia seu advogado defensor. Ou de Dorothy Makaill, a meretriz que no sórdido melodrama da Warner "Safe in Hell" (1931) assassina um de seus ex-amantes e foge em direção à América do Sul.

A permissividade chegou ao seu fim quando as ameaças de boicote do setor católico começaram a ganhar força, assim como a retirada de fundos de alguns investidores. Se até esse momento a aceitação do código era uma mera declaração verbal, depois, um organismo específico foi criado como mediador do que deveria ser exibido nos cinemas, a PCA (Administração do Código de Produção).

O resto é mais conhecido. Na época dourada de Hollywood, o código ganhou força e impôs um puritanismo que ainda hoje pesa na indústria americana, fato que aguçou o talento de muitos cineastas, como Alfred Hitchcock em "Interlúdio" (1946).

Neste longa, o diretor exibe uma longa sequência de beijos entre Cary Grant e Ingrid Bergman. A censura impunha um limite de três segundos de contato labial e pode se dizer que Hitchcock respeitou isso: a cada três segundos, uma pausa, e, na sequência, um sensual diálogo que fez com a cena tivesse mais de dois minutos e meio.

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