Cinema

Renovando linguagem, argentino "Abundância" é destaque no Festival de NY

Divulgação
Cena do longa argentino "Abundância", do diretor Lisandro Alonso imagem: Divulgação

Mateo Sancho Cardiel

De Nova York

O caráter irredutivelmente autoral do cineasta argentino Lisandro Alonso e a personalidade sempre híbrida de Viggo Mortensen confluem em "Abundância", longa que renova a linguagem cinematográfica exibido nesta segunda-feira (6) no Festival de Cinema de Nova York.

A cidade não é o entorno natural do diretor de "Liverpool" (2008) e "Os mortos" (2004), pois ele costuma ser mais bem recebido nos grandes festivais europeus, especialmente em Cannes (onde recebeu o prêmio FIPRESCI na seção "Um Certain Regard" com este filme), San Sebastián e Locarno.

Mas "Abundância", protagonizado por Mortensen e inspirado pela poética de Fabián Casas, tinha que estar ali por ser um dos mais destacados do ano, critério utilizado pelo festival nova-iorquino para montar sua programação.

"O que me agrada neste filme é que não se parece com nada que tenhamos visto antes. E é muito difícil ser original sem ser rebuscado ou pretensioso. Mas ele não faz um cinema retrospectivo, não faz referências a outro cinema", resumiu Mortensen, um intérprete meio dinamarquês, meio americano, que viveu na Argentina parte de sua vida.

O personagem que interpreta herda dele esse traço híbrido e esse choque cultural desconcertante, já que é a história de uma família dinamarquesa que viaja para a Patagônia.

Assim, para ele "Abundância" não só oferece uma narrativa e um sentido estético totalmente insólitos (Alonso, em comparação com seus filmes anteriores, é bastante prolixo em diálogos desta vez), mas consegue transmitir "algo tão difícil como essa sensibilidade meio dinamarquesa, meio argentina", tentou definir o ator, indicado ao Oscar por "Senhores do Crime" (2007) e célebre por ser Aragorn na saga "Senhor dos Aneis" (2001-2003).

"A necessidade de pensar que tudo tem uma lógica e que essa lógica pode resolver os problemas", típicas do temperamento dinamarquês se chocam, segundo o ator, com a natureza mais desordenada, mas também mais tolerante com o imprevisível e com os desígnios caprichosos da vida.

Por trás desse choque está um diretor disposto a reorganizar a ordem das prioridades do sétima arte, ao "rodar exatamente como é, como fala", disse o ator, e que oferece um cinema "que deixa muitas perguntas, te obriga a pensar no filme nos dias seguintes", explicou Mortensen, que estreou no cinema argentino com "Todos temos um plano" (2012).

Mortensen conheceu Lisandro Alonso há anos, quando o ator fez o lançamento de "Alatriste" (2006) na Espanha, e o diretor reconheceu que a história de "Abundância" foi "uma desculpa para rodar nessas paisagens que me maravilham".

Para ele o filme é, para além de sua história, uma poética viagem pela natureza, ou talvez paralelamente um mútuo enriquecimento com a viagem espiritual dos personagens.

O filme nunca buscou uma precisão histórica, apesar de poder ser considerado de época por ser ambientado no século XIX. "Os índios que aparecem no filme parecem extraídos de uma história em quadrinhos", brincou o ator.

"As pessoas me perguntam sobre o que é o filme e não posso responder com apenas duas frases, não posso precisar de que trata. Certamente posso dizer que contém sentimentos e valores, mas não definir sua história", resumiu Alonso, que demorou cinco anos para escolher seu novo projeto após o sucesso de "Liverpool" nos circuitos independentes.

O diretor, apesar de reconhecer que seu cinema sempre escapa das diretrizes do público de massas, admitiu que gosta que seja assim: "Eu, como espectador, cada vez avalio mais os filmes que fazem sentir incômodo. Não digo aqueles que te enfadam, mas os que incomodam no bom sentido", explicou.

Alonso faz parte de triunvirato de diretores argentinos que terão seus novos trabalhos exibidos no festival nova-iorquino, junto com Martín Retjman e Matías Piñero. O Festival de Cinema de Nova York vai até 12 de outubro.

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