Cinema

Enfrentando a censura, cinema chinês almeja bater bilheterias de Hollywood

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Apesar dos grandes nomes, como o do cineasta chinês Jia Zhang-Ke (na foto, cena de seu documentário "Dong", de 2006), o mercado chinês investe em coproduções para inflar suas bilheterias. imagem: Divulgação

Paloma Almoguera

De Pequim

Líder mundial de bilheteria pela primeira vez em fevereiro, a indústria do cinema na China dá cada vez mais forma ao sonho de alçar o país à posição de nova meca da sétima arte, ambição que muitos ainda veem como inalcançável enquanto a censura e a pirataria não acabarem.

Apesar de algumas previsões terem apontado que a China tiraria a liderança dos Estados Unidos em 2020, a segunda maior economia mundial conseguiu atingir esse posto cinco anos antes.

Pelo menos algumas circunstâncias pesaram a favor da China no mês passado: as férias do Ano Novo Lunar, quando o lazer é mais acessível a centenas de milhões de chineses que estão em feriado escolar, e o fato de que, nos EUA, fevereiro foi um mês de rendimento ruim nas bilheterias.

"É algo momentâneo. Voltaremos a ver meses nos quais a China passará os EUA, mas não ocorrerá de forma permanente até dentro de 2 ou 3 anos", disse à Agência Efe Robert Cain, presidente da Pacific Bridge Pictures, uma empresa de consultoria do setor de entretenimento nos dois mercados.

Mas outra surpresa foi que o recorde de bilheteria de fevereiro (US$ 650 milhões) se deve principalmente ao consumo de produções domésticas, com o filme "O homem de Macau II" com maior bilheteira, seguido por "Dragon Blade" e pela ambiciosa coprodução chino-francesa "Wolf Totem", de Jean-Jacques Annaud.

É precisamente a fórmula das coproduções que está dando um importante impulso para os filmes chineses. Primeiro, porque permite a entrada de capital externo, aumentando a cota de filmes estrangeiros imposta pelas autoridades (de cerca de 30 ao ano), e segundo porque aumenta a arrecadação do cinema doméstico com roteiros às vezes mais atrativos para a audiência.

Do outro lado do Pacífico também já se sabe ao que aderir para entrar no mercado da potência asiática: "O Cavaleiro das Trevas Ressurge", último filme da série Batman dirigido por Christopher Nolan trocou os vilões chineses do longa anterior por norte-coreanos, e outras produções americanas contam com uma versão especial para a China.

Mas esse "cortar e colar" é ainda residual, explicou Cain, que disse à Agência Efe que, "embora Hollywood esteja interessada na China", os filmes que adaptam seu roteiro para Pequim "são exceções".

Motivos não faltam aos produtores americanos para querer levar seus filmes ao país mais populoso do planeta, com um aumento de bilheteria de cerca de 30% por ano - público e liquidez de sobra para injetar na indústria.

Ainda mais quando um dos homens mais ricos do país, o presidente do conglomerado Wanda, Wang Jianlin, investe no setor e pretende criar o maior estúdio do mundo no leste da China, para cuja apresentação em 2013 convidou estrelas como Nicole Kidman e Leonardo DiCaprio.

Experiências humanas e censura

Apesar da bonança, há algo que Pequim deseja e ainda não tem. "A China reconhece o 'soft power' (poder brando) dos EUA, mas tem que aprender com ele. Não se trata de dinheiro, a razão pela qual os produtos americanos são bem-sucedidos, é porque contam experiências humanas, e isso a China não entende", afirmou à Efe Catrina Siu, produtora e representante de atores chineses.

Embora o governo chinês leve tempo tentando exportar sua cultura ampliando, por exemplo, o Instituto Confúcio para o exterior, o objetivo parece se chocar com o aumento da censura na internet e no mundo das artes.

Os diretores de cinema "cada vez mais enfrentam dificuldades para que os censores aprovem seus roteiros", reconheceu Cain, destacando o "verdadeiro desejo entre o público chinês de ver mais filmes".

Prova disso é que se os cofres das bilheterias estão cheios, os da pirataria transbordam. Estima-se que essa indústria movimente cerca de US$ 6 bilhões anuais, mais do que a arrecadação das salas de cinema.

Assim, a possibilidade de a China concorrer realmente com Hollywood são ainda remotas, segundo Siu e Cain, mas ambos reconhecem a maturidade que o cinema do país está alcançando.

Com mais de um século de existência, a indústria cinematográfica local talvez não esteja pronta para exportar "hits" ao estilo americano, mas sim para ter um papel relevante mundialmente. Inclusive, já se fala em um "Chinawood" além dos arredores de Pequim, onde fica o gigantesco estúdio da companhia Hengdian conhecido por esse nome. 

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