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A melhor maneira de lidar conosco é participar e fazer graça com o prêmio, diz fundador do Framboesa de Ouro

John Wilson na cerimônia de entrega do 29º Framboesa de Ouro - Reprodução/Razzies/Par Lance
John Wilson na cerimônia de entrega do 29º Framboesa de Ouro Imagem: Reprodução/Razzies/Par Lance

THAÍS FONSECA

Da Redação

19/01/2011 13h20

O bom humor de Sandra Bullock e Halle Berry, ambas donas de um Oscar, mudou a forma como o Framboesa de Ouro é recebido pelos "homenageados". Vencedoras das categorias pior atriz do ano em 2010 e em 2005, respectivamente, as atrizes compareceram à cerimônia e fizeram discursos entusiasmados no palco. A estratégia parece ter sido positiva para os principais envolvidos: além de divertir o público e atrair mais atenção para o Framboesa (Razzie Awards, em inglês), as premiadas ganharam um bônus de simpatia."A melhor forma de lidar com a gente é participar, tirando sarro do prêmio, de si mesmo e do filme", opina John Wilson, fundador da debochada premiação norte-americana.

As participações estelares criaram, inclusive, uma expectativa para a cerimônia: quem será o próximo pior ator ou atriz a discursar no evento? Para este ano, Wilson diz que ainda não tem a resposta, mas arrisca palpites dos fortes candidatos, entre eles "O Último Mestre do Ar", possível pior filme, e "Burlesque", inclusive em categorias de atores. "O único que se salvou foi Stanley Tucci", diz sobre o musical protagonizado por Christina Aguilera. As indicações serão divulgadas em 24 de janeiro, um dia antes da lista do Oscar, e os vencedores anunciados em 25 de fevereiro.

Simpático, Wilson concedeu a entrevista por telefone com exclusividade ao UOL Cinema, apesar da gripe forte que, a certa altura, fez com que sua voz começasse a falhar (e, por consequência, reduzisse o tempo da ligação). Durante a conversa, lembrou do início da premiação, criada em 1981, numa época em que assistia cerca de 200 filmes por ano - em grande parte por cursar televisão e cinema na Universidade da Califórnia (EUA) e trabalhar em um cinema de Los Angeles. No site oficial do Framboesa de Ouro, ele é descrito como "cinéfilo e cínico", autor de um guia oficial da premiação e do livro "Everything I Know I Learned at the Movies" ("tudo que eu sei aprendi nos cinemas", em tradução livre). Mas a função mais conhecida é, sem dúvida, a de fundador e porta-voz da premiação, criada como contraponto à seriedade do Oscar e como um bem-humorado reconhecimento de blockbusters que deixam a desejar em qualidade. "A maior parte das produções de Hollywood é lixo, para ser honesto", defende Wilson, rindo. A seguir, leia os principais temas da entrevista.

UOL Cinema - O que o levou a criar a premiação há mais de três décadas?
John Wilson -
Ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, eu administrava um cinema, o que fez com que eu visse muitos filmes de graça. Houve um ano em que consegui ver 250 filmes. Quando você vê tantos filmes, percebe que a maioria é mais qualificada para o nosso prêmio do que para outros. A maior parte das produções de Hollywood é lixo para ser honesto (risos). E mesmo algumas coisas que fazem sucesso não têm tanto valor, se você pensar bem. Na época em que eu apareci com a ideia [do Raspberry Awards], não havia nada parecido. Para ser mais específico, em 1980, vi dois filmes, que hoje são considerados um clássico do Framboesa de Ouro: “Can´t Stop the Music” e o musical “Xanadu”, com Olívia Newton John. Neste último, paguei menos de um dólar para assistir, e queria meu dinheiro de volta (risos)! E eu voltei para casa dirigindo e pensando: “Vi dois filmes e, nos dois casos, queria meu dinheiro de volta”. E na minha cabeça ainda podia lembrar  uma dúzia de filmes ruins. Na época, eu também costumava fazer uma festa para assistir ao Oscar, onde todo mundo trazia um prato, engordava e se divertia. E houve uma vez em que a cerimônia do Oscar foi adiada por causa de Ronald Reagan, que havia sido baleado. Foi neste ano que começamos. E também tivemos que mudar a nossa festa, que teve umas duas ou três dúzias de pessoas e era bem pequena.

  • Reprodução

    Halle Berry aceita o Framboesa de Ouro de pior atriz por "Mulher Gato" em 2005

  • Divulgação

    Sandra Bullock aceita o Framboesa de Ouro de pior atriz por "Maluca Paixão" em 2010


UOL Cinema - O Framboesa de Ouro desperta a curiosidade do público em várias partes do mundo. A que você atribui esta popularidade?
John Wilson -
A premiação tem um conceito bem simples. O fato de ser dos EUA ajuda pois, infelizmente, vários países assistem os nossos filmes em seus cinemas. E nós tentamos nos ater aos filmes de alto orçamento e visibilidade, com estrelas de cinema. No ano passado, o vencedor de pior filme foi “Transformers 2”, que é famoso no mundo inteiro. E [o prêmio] tem todos os elementos que, reunidos, atraem curiosidade. Tem estrelas e é enfático no humor: a premiação é para ser boba, não para ser cruel e brava. De todas as opções que Halle Berry teve após receber um Oscar, de tudo que chegou na mesa do agente dela, por que diabos ela escolheu “Mulher Gato”? Que outro motivo, a não ser o dinheiro (risos)? Mas ela abraçou o Framboesa de Ouro. Ela é uma das poucas pessoas que, nestes 30 anos de festa, apareceu, tirou sarro de si mesma, do filme, se divertiu e seguiu em frente.

UOL Cinema - Houve muitos casos em que os atores não levaram na brincadeira?
John Wilson -
Em pelo menos 20 anos da premiação, nós sabemos que Sylvester Stallone não vê graça nenhuma nisso. Ele venceu várias vezes. Recebeu 29 indicações e 10 vitórias.

UOL Cinema - E ele nunca apareceu...
John Wilson -
Não. Na verdade, há alguns anos, ele foi indicado por pior carreira. Ele acabou não ganhando... Este ano, ele está de volta com “Os Mercenários”, um dos possíveis indicados, e há um debate entre nossos membros se o filme teve a intenção de ser estúpido ou não. Eu acho que é estúpido sem querer. Mas muita gente achou brilhante, e eu diria que, conhecendo Stallone, ele não conseguiria não se levar a sério. Talvez “Os Mercenários” leve uma indicação, mas acho que não...


UOL Cinema - Vocês têm alguma personalidade em mente para convidar este ano?
John Wilson -
Ainda não dá para saber sem as indicações, então, não conseguiria responder. Mas eu acho que, pelo bom retorno que tiveram, Halle Berry e Sandra Bullock estabeleceram um padrão interessante de como lidar com a gente. Muitos acham que a melhor forma é fingir que não existimos. Mas o melhor mesmo é se mostrar, participar, tirar sarro de nós, de si mesmo e do filme.

Metrópolis - A cerimônia de
entrega do Framboesa 2009


UOL Cinema - Quais você acha que serão os competidores mais fortes neste ano?
John Wilson -
O principal, por ser um desastre de bilheteria e não ter senso de humor, é “O Último Mestre do Ar”, de M. Night Shyamalan.

UOL Cinema - E o musical “Burlesque”?
John Wilson -
Nós ainda não sabemos, os indicados não saíram ainda. Mas “Burlesque” provavelmente terá indicações de atores. Pelo material de divulgação achamos que “Burlesque” seria algo como “Showgirls”. Talvez o roteiro, o diretor e os principais atores sejam indicados. O único que se salvou no filme foi Stanley Tucci.

UOL Cinema - As indicações do Framboesa de Ouro saem um dia antes das do Oscar. O que você acha da premiação da Academia?
John Wilson -
Eles não são mais tão influentes quanto imaginam, mas a premiação tem peso. E eles fizeram um bom trabalho para manter seu prestígio. Eu gosto de assistir o evento por que é ao vivo e tem momentos engraçados, como alguém que parece meio bobo com um determinado tipo de roupa....gosto de ver o Oscar de uma perspectiva meio perversa. Algo que tem a ver com o Framboesa de Ouro. Ele é o Oscar virado de cabeça para baixo.

UOL Cinema - Você já pensou em criar uma categoria para filmes estrangeiros?
John Wilson -
Sim, mas o problema com esta ideia é que eles não são muito vistos nos EUA. Nós não importamos muitos filmes. Talvez de 50 a 200 títulos, ou nem isso, ganham distribuição aqui. E para escolher o prêmio, os cerca de 700 membros que temos teriam que assistir a esses filmes. Então o conceito de pior filme estrangeiro tem um conceito engraçado, mas complicaria fazer com que os membros assistissem os filmes.