Cinema

Em Tiradentes, jovens cineastas mostram que ainda se saem melhor com curtas do que com longas

Divulgação
Cena do documentário ''Sertão Progresso'', de Cristian Cancino imagem: Divulgação

SÉRGIO ALPENDRE

Colaboração para o UOL, de Tiradentes (MG)

Duas sessões desta quarta-feira (26/01) na 14ª Mostra de Tiradentes serviram para mostrar que os jovens realizadores ainda se saem melhor com curtas do que com longas (com a ressalva de que ainda há longas de jovens pela frente). Pensemos as sessões.

"Sertão Progresso", documentário integrante da Mostra Aurora e dirigido por Cristian Cancino, é mais um filme seguidor da fórmula "jornalismo com multiplicidade de opiniões". Mais uma vez essa multiplicidade significa vários matizes de contra e a favor, e são jogadas intercaladamente por toda a duração.

Trata-se de uma discussão sobre o projeto de transposição do Rio São Francisco para áreas pouco irrigadas do nordeste. A transposição já está em curso há algum tempo, e o filme invoca os contrários a ela e os que a defendem, passando por greve de fome, choradeira de atriz famosa, falas reacionárias dos suspeitos usuais, e culminando com cenas da vida nas beiradas do rio.

Com alguns depoimentos interessantes, dos quais se destaca o do jornalista e escritor Tavares Coelho, que argumenta a favor da necessidade de fazer com que o morador dessas regiões semi-áridas se adapte mais facilmente a elas, tornando sua vida mais fácil, e o faz usando a metáfora dos esquimós no Ártico, que se adaptam a um frio indescritível, o filme vai construindo essa polifonia meio sem criatividade, mas com imagens impressionantes do São Francisco.

Não é um bom filme, mas de certa forma a experiência de vê-lo é interessante. O maior destaque negativo está numa cena que nem é importante, mas mostra como Cansino recua diante das possibilidades mais fortes: um cabrito (ou algo parecido) é levado para o abate, mas o corte acontece no exato momento em que a porreta atingiria sua cabeça para o primeiro e cruel golpe. Corta para imagens de água, volta para imagens de um facão se preparando para esquartejá-lo, corta de novo. Se era para recuar diante de uma imagem mais forte, para que deixar a cena na montagem final?

Última sessão de curtas impressiona

A sessão derradeira da Mostra Foco, principal sessão de curtas em Tiradentes, revelou-se um primor de seleção (todos os filmes são bons, o que é bem raro), conjunto (todos lidam com a surpresa diante do que vemos e com o imprevisível) e qualidade (todos são bem filmados, com a exceção de um, que compensa sendo muito engraçado).

"A Peruca de Aquiles", de Paulo Tiefenthaler, lida com o problema do tráfico mostrando um playboy da zona sul carioca subindo ao morro para comprar cocaína. Ao chegar lá, é confundido com o policial, e só consegue sair quando prova que é ator de teatro.

"Fogo.doc", de Leandro Andrade, é um filme piada que sabe rir de si mesmo. Registro de um incêndio no Mercado Municipal de Florianópolis por um morador das redondezas, é um achado humorístico de parco valor cinematográfico, mas que, como curta, revela-se benvindo por sua graça, bom humor e disposição para cair no ridículo.


"O Hóspede", de Anacã Agra e Ramon Porta Mota, fazem uma ficção-científica carpenteriana no sertão da Paraíba. Nos agradecimentos, as referências todas que pipocam em cenas do filme: John Carpenter, Don Siegel, José Mojica Marins, Ray Bradbury e outros nomes caros aos fãs de ficção e horror. Uma pérola em preto e branco.

"Náufragos", de Gabriela Amaral Almeida e Matheus Rocha, unem humor com bizarrice e umas pitadas de suspense com muito talento, e de certa forma injetam novos ares ao cinema estranho. O programa de TV a que a simpática senhora assiste parece ter inspiração na sequência final de "Síndromes e um Século", de Apichatpong Weerasethakul, mas se encaixa melhor na trama, graças ao inusitado de tudo que acontece.

"Contagem", de Gabriel Martins e Maurílio Martins (que não são irmãos), impressiona pelo rigor de suas cenas em formato scope (ocupando toda a tela retangular do cinema) e pela montagem. Falar mais sobre o filme pode estragar a experiência do espectador. Quem viu se surpreendeu com a utilização criativa de um discurso já manjado: a multiplicidade dos pontos de vista.

"Praça Walt Disney" é mais um belo exemplo da safra pernambucana. Os diretores Renata Pinheiro (de "Superbarroco") e Sérgio Oliveira (de "Faço de Mim o Que Quero"), conseguem se superar mostrando Recife de uma maneira original e, mais uma vez, estranha, fechando uma das sessões mais loucas que já existiram em Tiradentes.

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