Cinema

Festival PopPorn quer "limpar a barra da pornografia"

ANTONIO FARINACI

Colaboração para o UOL

O festival PopPorn quer “limpar a barra da pornografia”, nas palavras da jornalista Suzy Capó, diretora do evento. O festival, que acontece até o dia 2 de junho, em São Paulo, pretende tirar a pecha de coisa “suja” e “proibida” do pornô, e mostrar uma produção —especialmente de cinema— que desafia categorias.

“São 40 produções de diversas época, filmes de arte que flertam com o pornô, pornografia que dialoga com o cinema de arte e mesmo pornô tradicional, mas vistos dentro de um contexto crítico”, ela explica, e destaca a vertente de pornografia “alternativa” como um foco do festival: “filmes que você não aluga na locadora”.

“Todo mundo gosta de ver, falar sobre e fazer sexo”, diz a diretora do PopPorn, “e a repressão sexual produz muitas coisas ruins, é importante ter um festival que se proponha a discutir essas questões”. Veja abaixo os melhores trechos da entrevista.

UOL Cinema - Na sua opinião, a relação das pessoas com a pornografia mudou com a internet?
Suzy Capó: Mudou completamente a maneira como se consome pornografia. Hoje, ela faz mais parte do cotidiano, quer as pessoas percebam e admitam isso ou não. Está na internet, na publicidade. E o que é pornografia, afinal? O dicionário diz que são produtos que estimulam o desejo sexual. Mas ver sexo não necessariamente estimula seu desejo sexual. E há outras coisas que não são imagens de sexo, mas que despertam o desejo sexual. É interessante que o festival coloque essa questão.
A sociedade hoje está mais careta. Nos anos 70, havia um diálogo maior entre o cinema de arte e os filmes pornô. “O Último Tango em Paris”, por exemplo, é um filme de arte que flerta com a pornografia. O filme “O Diabo na Carne de Miss Jones” é um filme pornô dos anos 70 que flerta com o cinema de arte. Na época, esse filme, estreou nos Estados Unidos, num circuito de salas que não eram tradicionalmente ligadas ao cinema pornográfico. Hoje, eu não consegui colocá-lo no circuito de arte, em São Paulo.
Uma produtora me ofereceu o primeiro filme pornô 3D brasileiro, que não entrou na programação porque as salas que tinham estrutura pra exibir não aceitaram passar. E é interessante, porque foram justamente os exibidores, nos anos 80, que pressionaram os produtores de pornochanchada a incluírem cenas de sexo explícito nos filmes.
Acho também que, hoje, as pessoas têm uma relação mais solitária com a pornografia, consomem sozinhas, na internet. Antes, elas iam ao cinema pra ver esses filmes, que é uma coisa mais comunitária. 

UOL Cinema - Com toda essa oferta de pornografia que existe hoje, o que um festival como o PopPorn oferece como diferencial para atrair o público?
SC: Apresentamos filmes selecionados, num evento que tem também uma exposição de fotos, uma instalação e palestras sobre o assunto. São 40 filmes de diversas épocas, escolhidos para levantar questões sobre a pornografia. “O Último Tango” (“Last Tango in Paris”, Bernardo Bertolucci), de 1972, é o filme mais antigo. Ele é um filme de arte que flerta com a pornografia. Mas tem uma problemática, que levanta questões importantes sobre a pornografia e a mulher —que é um questão importante para o festival. Porque a atriz (Maria Schneider) não sabia que ia rolar a cena da manteiga (em Schneider e o ator Marlon Brando encenam uma sodomização), e ela se sentiu moralmente violentada. Isso, num filme que é de arte… A gente gostaria de discutir questões como essa, ligadas à pornografia, pra “limpar a barra” da pornografia.

UOL Cinema - Mas, em geral, a pornografia tem razões concretas para ter a “barra suja”, não? É um meio que pode ser violento e degradante para quem participa dele…
SC: Sim, mas o festival se propõe a ter uma visão crítica sobre o que está sendo exibido. E a maior parte do que a gente mostra é pornografia “alternativa”, produzida num contexto diferente daquele do pornô comercial. Tem até pornografia feminista, em que as mulheres que participam fazem aquilo porque querem, com um sentido político.
Eu tive crise, por exemplo, com a inclusão do “Histórias que Nossas Babás não Contavam” (Oswaldo de Oliveira, 1979), que é um filme politicamente incorretíssimo. A protagonista (Adele Fátima) é uma negra, ex-“mulata do Sargentelli”, tipo escrava do homem branco, e o caçador, interpretado pelo Costinha, é “especialista” em caçar veado. Ou seja… Mas o filme está dentro da programação, e não porque eu ache legal ser politicamente incorreto —o que eu não acho—, mas porque o festival tem um olhar crítico.

UOL Cinema - O que você destacaria dessa programação vasta de 40 títulos?
SC: Tem um documentário “O Advogado do Viado” (“The Advocate for Fagdom”, Angelique Bosio, 2011), sobre o Bruce LaBruce, que é um diretor canadense importante, que usa a pornografia para falar sobre outras coisas, com um discurso político relevante, e o filme participou este ano do Festival de Berlim. “Xotas, Xotas e Mais Xotas” (“Much More Pussy”, Emilie Jouvet, 2010) é um filme francês, uma espécie de road-movie documentário, sobre a turnê de um grupo de performers que fazem shows de sexo. Tem dois filmes do coletivo polonês Inside Flesh (liderado pelo casal Piotr Wegrzynski e Sylvia Lajbig): o curta “Possessão” (“Possession”, 2009) e o longa “Fluidez Carnal” (“Carnal Fluidity”, 2008), que ganhou o Porn Film Festival em Berlim. O festival terá também uma homenagem a Claudia Wonder. Serão exibidos o documentário “Meu Amigo Claudia” (Dácio Pinheiro, 2009) e o filme “Sexo dos Anormais” (Alfredo Sternheim, 1984), uma pornochanchada protagonizada por ela. “Malícia no País das Maravilhas” (“Malice in Lalaland”, Lew Xypher, 2010) é um pornô convencional, mas com uma direção de arte maravilhosa. É uma paródia de Lewis Carroll que traz a estrela pornô Sasha Grey no papel de Alice. E aconselho todo mundo a ver “O Diabo na Carne de Miss Jones” (“The Devil in Miss Jones”, Gerard Damiano, 1973), que é um clássico, que vai ser exibido em cópia 35 mm, no Cine Don José, que é um cinema pornozão do Centro.

UOL Cinema - O festival também pretende produzir filmes?
SC: O festiva terá um workshop de produção de audio e vídeo coordenado pelo pessoal do X-Plastic, um coletivo de pornô alternativo de São Paulo. Quem quiser participar (são apenas 20 vagas) deve se inscrever no nosso site (http://www.popporn.com.br/).

UOL Cinema - Para o festival acontecer, você promoveu um almoço e uma festa para angariar fundos. Foi difícil arrumar patrocinadores?
SC: Eu tive a ideia de fazer o festival em dezembro do ano passado. Em fevereiro deste ano, decidi de fato fazer. Era muito pouco tempo pra pocurar patrocínio. Daí, o coletivo Avaf fez o cartaz do festival, que foi como uma “pedra fundamental”. Vendi o original e duas reproduções do pôster para colecionadores de arte e pude começar a produção do festival. Fizemos também um almoço e uma festa.
O tema do festival dificulta a obtenção de patrocinadores, sem dúvida. Não consegui nem empresas de bebida, porque disseram que não podiam associar a marca à temática do festival. Mas o mesmo diretor de marketing que recusou o apoio, quis ir na festa de abertura do festival…

UOL Cinema - O que você espera desta primeira edição do festival?
SC: Todo mundo gosta de ver, falar sobre e fazer sexo. Então, espero que tenhamos um público bem variado, pessoas que iriam a um clube de suingue, mas também pessoas que frequentam galerias de arte. A repressão sexual produz muitas coisas ruins, e é importante ter um festival que se proponha a discutir essas questões.

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