Cinema

Gustavo Spolidoro critica documentários "cabeças falantes" por terem "soluções simplistas para contar histórias"

Luciane Sellgman/Reprodução
Cineasta gaúcho Gustavo Spolidoro imagem: Luciane Sellgman/Reprodução

NEUSA BARBOSA

Do Cineweb

Aos 39 anos, Gustavo Spolidoro é uma figura mais do que conhecida do cinema gaúcho. Curta-metragista premiado, autor de “Velinhas” (98) e “Início do Fim” (2005), assinou seu primeiro longa de ficção, “Ainda Orangotangos”, em 2007.

Agora, seu primeiro longa documental, “Morro do Céu”, está sendo lançado nas oito capitais que integram o Projeto Vitrine, que está levando às telas filmes-miúra como este, que dificilmente encontrariam lugar num circuito pequeno e disputado como o brasileiro.

As cidades alcançadas pelo projeto neste momento são São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Curitiba, Goiânia, Vitória e Recife. Em todas elas, exceto em Recife e São Paulo, “Morro do Céu” será exibido com o premiado curta “Recife Frio”, de Kleber Mendonça Filho.

Acompanhando o adolescente Bruno Storti, com 16 anos na época da filmagem, “Morro do Céu” foi filmado numa região da serra gaúcha que Spolidoro conhece muito bem desde a infância, pois sua avó é de lá, da cidade vizinha de Cotiporã.

Nesta entrevista, o diretor detalha o nascimento dessa produção, que traça um retrato sensível da adolescência rural brasileira e tem pontos de contato com outros filmes nacionais recentes de ficção sobre a mesma faixa etária, como “Antes que o Mundo Acabe”, de Ana Luiza Azevedo, e “As Melhores Coisas do Mundo”, de Laís Bodanzky.

UOL Cinema - Morro do Céu é uma região que você conhece bem, por suas raízes familiares. Por conta disso, que semelhanças você tem com o Bruno Storti?
Gustavo Spolidoro -
Vejo nele as inseguranças que eu tinha quando adolescente, com relação às mulheres. Cotiporã foi um lugar de descobertas para mim, das mais diversas, quando eu tinha meus 16, 18 anos. Uma delas, muito importante e que talvez seja fundamental na forma como eu penso e faço cinema, seja a valorização da liberdade. Mas não há dúvida de que eu projetei no Bruno a minha personalidade quando jovem.

UOL Cinema - Você tinha 3 núcleos de adolescentes sendo pesquisados para o filme, certo? Como você chegou a eles? O que finalmente te levou a decidir pelo Bruno?
Gustavo Spolidoro -
Eu tinha um núcleo de 5 meninas de 14 anos e um de dois jovens de 18 anos que tinham uma banda. Já estava filmando com eles quando conheci o Bruno e seus amigos na escola. Naquele dia fui até o Morro do Céu com eles e nunca mais saí de lá!

UOL Cinema - Visivelmente você compartilha da vida familiar do seu personagem. Você chegou a morar com os Storti?
Gustavo Spolidoro - Só não morei com eles porque tinha alugado uma casa na cidade por 4 meses. Nessa casa eu tinha uma sala cheia de cartolinas nas paredes com idéias para cenas, perfil de personagens, datas de eventos, etc. Sobre a vida com eles, sim, desde o primeiro dia me aproximei e me tornei íntimo da família. Isso é da minha personalidade normal e, nesse caso, da audiovisual também, pois julgava ser importante para o filme. Costumo ir diversas vezes ao ano para Cotiporã e me hospedo na casa deles. Levo minha mãe e minha filha também. E eles, quando vêm a Porto Alegre, nos visitam e até ficam na nossa casa.

UOL Cinema - Você procura fazer sua presença passar batido, como se a câmera fosse você. Você detesta os documentários "cabeças falantes"?
Gustavo Spolidoro - São raros os documentários de "cabeças falantes" que me interessam. Mas não porque não goste do que a pessoa tem para dizer, mas sim porque acho uma solução simplista para contar histórias que, muitas vezes, não precisam ser verbalizadas.
Quando o Coutinho faz um “Edifício Master”, por exemplo, ele claramente quer as histórias de cada um. Isso está objetivado no projeto dele. Um outro diretor poderia fazer o oposto e escutar histórias espontâneas e/ou filmar espaços do edifício para tentar falar desta forma sobre o lugar. Mas a maioria dos documentários não me parece ter uma escolha autoral. Eles simplesmente fazem entrevistas e usam imagens de arquivo. Esse tipo de documentário me aborrece muito.
Creio que o documentário precisa dialogar com o seu objeto. Ou então, ter uma característica muito forte do seu autor. Felizmente a produção documental brasileira recente tem invertido essa lógica e apostado na infinitude narrativa, criando filmes como “Pacific”, “Avenida Brasília Formosa”, “O Andarilho” e “Pan-Cinema Permanente”.

UOL Cinema - Seu filme foi realizado entre 2008 e 2009, é isso? Quanto tempo de filmagem? E o orçamento total?
Gustavo Spolidoro -
Comecei em dezembro de 2008 e encerrei em março de 2009. Do Doctv (programa de produção de documentários) tive líquidos cerca de R$ 90.000,00. Devo ter investido mais uns R$ 20.000,00 para chegar à versão longa, exibição, arte etc. Fora os mais de 300 dvds que já gravei e distribuí para amigos e interessados quando os encontro.

TRAILER DO FILME "MORRO DO CÉU"

UOL Cinema - Você vem acompanhando o Bruno desde o filme e ele vem acompanhando as exibições, os festivais. Agora soube que ele pensa em fazer teatro. Você acha que mudou a vida dele?
Gustavo Spolidoro -
Com certeza mudei. Mas quero deixar claro que não acho que o cineasta tenha função social com seus personagens e atores. Se algo muda, ótimo, melhor, mas não é premissa. A função do cineasta, se pode atingir o social, é através do filme e seus significados.
Com o Bruno, o que sempre discuti foi, como amigo, a necessidade de ele terminar o segundo grau e fazer faculdade. Ele tinha rodado 3 vezes e estava na oitava série quando o filmei. Pensava em largar a escola e trabalhar numa mecânica (ele e seu primo Joel são autodidatas e constroem carros off road e motores). De lá para cá, ele não rodou mais, está no terceiro ano e inscrito no Enem. Isso foi conversa de amigo, insistência, exemplos. Já o teatro, esse sim veio por influência direta do filme. Mas ainda insisto para que ele faça Engenharia Mecânica.

UOL Cinema - Por que se decidiu botar legendas no filme? Foi uma decisão sua?
Gustavo Spolidoro - No começo eu não queria legendas, tinha teoria para não usá-las. Porém, ouvindo a opinião das pessoas, entendi que necessitava delas para uma melhor compreensão do filme. Mesmo assim, muitas pessoas acham que não deveria ter. Às vezes exibi em festivais sem legendas, às vezes com. Sem legendas, o filme fica mais visual, mais belo, mais lento. Com legendas, fica mais divertido.

UOL Cinema - Qual a importância desse projeto Vitrine para a exibição de filmes como o seu?
Gustavo Spolidoro -
A Sessão Vitrine surgiu de idéias e anseios dos próprios realizadores, que oportunamente conheceram a Silvia Cruz, que já vinha de experiências com a Pandora e outras distribuidoras. Ela detectou um nicho importante, premiado, bem criticado e representativo do cinema brasileiro atual e soube catalisar esses filmes para o lançamento comercial. Vai dar certo!

UOL Cinema - Recentemente, chegaram aos cinemas pelo menos dois filmes bastante significativos sobre a adolescência, o da sua conterrânea Ana Luiza Azevedo (“Antes que o Mundo Acabe”) e o da Laís Bodanzky (“As Melhores Coisas do Mundo”). Você acha que “Morro do Céu” estabelece uma ligação com algum deles de algum modo?

  • Divulgação

    Cena do filme "Os Famosos e os Duendes da Morte", de Esmir Filho

Gustavo Spolidoro - E tem ainda um que gosto muito e que foi filmado em Cotiporã também, que é “Os Famosos e os Duendes da Morte”, do Esmir Filho. Acho que meu filme estabelece relação com todos pois, normalmente (por quê isso, me pergunto agora?!), filmes de adolescentes costumam retratar ritos de passagem, descobertas, dilemas, flertes...

UOL Cinema - "Morro do Céu" já foi visto em algum festival do exterior? Qual a repercussão? Se não, há planos disso?
Gustavo Spolidoro -
O filme foi pouco exibido em festivais, mais pela minha inoperância em inscrevê-lo, visto que acabei fazendo tudo sozinho. Aonde escrevi, diria que ele entrou em 80%. Foi premiado na Mostra do Filme Livre, no Forumdoc.BH e no FATU.
Lamento não ter tido mais dedicação para inscrevê-los em festivais, seja aqui, seja no exterior. Fora, ele só passou no Festival Internacional do Uruguai, a convite deles. Mas estrangeiros que viram, adoram. É o caso do Fabien Gaffez, curador da Semana da Crítica de Cannes. Infelizmente o filme não entrou lá. Apenas seis longas são exibidos na Semana.

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