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Para viver padre em "País do Desejo", Fábio Assunção disse ter levado mais em conta a "questão humana"

Fred Jordão/Divulgação
Em "O País do Desejo", Fábio Assunção faz o papel de um padre Imagem: Fred Jordão/Divulgação

NEUSA BARBOSA

Do Cineweb, de Gramado

09/08/2011 15h32Atualizada em 09/08/2011 17h32

Quarto concorrente brasileiro do Festival de Gramado, “País do Desejo”, de Paulo Caldas, era o filme mais esperado da competição devido ao passado do diretor pernambucano, codiretor do celebrado “Baile Perfumado” (1997) – com Lírio Ferreira – e premiado aqui mesmo, há 4 anos, com “Deserto Feliz”, com os troféus de direção, crítica e júri popular.

Mas a expectativa transformou-se em estranhamento após a primeira projeção do filme no Brasil, depois de ter sido exibido no Festival de Taormina, na Itália. O melodrama envolvendo uma pianista clássica (Maria Padilha), um padre (Fábio Assunção) e o irmão deste, um médico (Gabriel Braga Nunes), num enredo que mescla um transplante de rim e conflitos com a fé católica, dividiu bem as opiniões de público e crítica.

No debate do filme nesta manhã de terça, Caldas mostrou-se calmo em relação às contestações ao seu trabalho: “Já esperava essa divisão de opiniões, tinha consciência disto”. No entanto, ele admitiu que “não contava com tanta comoção” em relação a alguns aspectos, como quando alguns críticos colocaram que seria um filme muito contrário aos seus trabalhos anteriores, como situar-se dentro do universo do melodrama e ter uma primeira parte mais bem resolvida do que a segunda.

“Como uma tapioca”

Mesmo tranquilo, Caldas resolveu contra-atacar: “Na hora em que você resolve tratar da elite brasileira, de que o cinema brasileiro não trata, é isso. Estamos também fugindo um pouco dos próprios clichês que se atribuíram ao chamado ‘cinema pernambucano’. É como se não pudéssemos tratar de temas como o amor, a música clássica, gente rica. Mas é uma opção. Como diz o Marcelo Gomes (diretor pernambucano de ‘Cinema, aspirinas e urubus’), a gente se sente um pouco como se fosse uma tapioca”.

O diretor complementa que “odiaria repetir os filmes que fiz. Meus quatro filmes são absolutamente diferentes. Neste sentido, o diretor que mais me instiga é Stanley Kubrick, que nunca fez um filme igual a outro”.

Ainda que siga uma narrativa predominantemente realista, “País do Desejo” causou algum desconforto por alguns personagens e situações inusitados – caso de uma enfermeira nissei (Juliana Kametani) que usa uniforme curtíssimo e lê quadrinhos eróticos e, numa cena, come hóstias como aperitivo, temperando-as com ketchup.

O diretor comentou que a personagem foi a última a entrar no roteiro – cuja autoria ele divide com Pedro Severien e Amin Steppler – e que, assim como está, visou colocar “um tempero quase de surrealismo”. “É um dos momentos em que o filme sai do chão, com nítido sentido de provocação, de levar mesmo as pessoas a repensarem os dogmas da Igreja”. A cena das hóstias provocou “uma reação enorme” em Taormina, onde o filme, segundo o cineasta, “foi muito bem-recebido, talvez melhor do que aqui”.

Comparando “País do Desejo” e “Deserto Feliz”, Caldas afirmou: “São histórias de amor muito estranhas. Gosto de histórias estranhas, não são para agradar, são para estranhar”.

Veja trailer de "País do Desejo"

Impulsividade

Alguns saltos na história, como a maneira um pouco abrupta como surge a paixão do padre (Fábio Assunção) pela pianista (Maria Padilha), mereceram esta explicação da atriz: “Os personagens são muito impulsivos. No caso do padre, isto veio do roteiro. No caso da pianista, ela está tão perto da morte que só pode tentar viver por um impulso vital. Para viver isso, eles não têm todo esse tempo. Não existe essa psicologia que alguns prefiram”.

Fábio Assunção, por sua vez, procurou justificativa numa colocação feita pelo próprio diretor antes das filmagens: “O Paulo me disse: ‘Este filme é uma história de amor antes de o amor acontecer’. Foi uma coisa linda que ele falou. Por isso, talvez, o filme não te prepara (para o romance)”.

O ator comentou que “não fez nenhuma preparação especial” para o seu papel como padre – que entra em conflito com a Igreja não só por conta do amor por uma mulher, como por contrariar uma ordem do bispo (o ator português Nicolau Breyner), que excomungara uma mãe, a filha adolescente e um médico, devido à realização de um aborto na menina menor de idade, que fora estuprada pelo tio (uma referência a uma história real, ocorrida em Recife em 2009). Fábio afirmou que “priorizou mais a questão humana do que ele ser padre”.

Internacionalização

“País do Desejo” é uma coprodução com Portugal, repetindo recurso já utilizado pelo diretor em “Deserto Feliz”, coproduzido com a Alemanha. Caldas destacou que agora a experiência foi mais positiva: “Neste aqui as duas culturas se misturaram mais efetivamente do que em ‘Deserto Feliz’, quando tivemos algumas divergências com os alemães”.

O diretor enxerga nesta busca de uma internacionalização, tanto em termos de produção, como de exibição, um bom caminho para o cinema brasileiro. “Esse negócio de o nosso cinema permanecer pernambucano não nos ajuda em nada. O mesmo acontece com o cinema brasileiro. Ficar botando fronteiras em filmes não me interessa”.

Quanto à participação de Marçal Aquino no roteiro – lembrada nos créditos finais -, Caldas afirmou que era do roteirista e escritor paulista o argumento original, que versava “sobre a elite brasileira”. Como o levantamento de recursos do projeto levou quatro anos, Aquino teve que desincompatibilizar-se por outros compromissos.

Anteriormente, o filme chamava-se “Amor Sujo” e envolvia uma história de amor interracial, tendo em vista a participação do ator Lázaro Ramos, que acabou também não ocorrendo.

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