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"Descobri meu lado mais desonesto", diz ator que faz Jeremias, o vilão de "Faroeste Caboclo"

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Felipe Abib interpreta Jeremias em "Faroeste Caboclo" (agosto/2011) Imagem: Divulgação

CARLA NEVES

Do UOL, no Rio

31/08/2011 07h00

Anote este nome: Felipe Abib. É que o ator carioca, de 28 anos, vai estrear no cinema em dois papéis de destaque: o Bernardo, de “180°”, e o Jeremias, de “Faroeste Caboclo”. No longa de Eduardo Vaisman que estreia no próximo dia 16 de setembro, Felipe interpreta um estagiário de jornalismo que vive um triângulo amoroso com os personagens interpretados por Malu Galli e Eduardo Moscovis. Já em “Faroeste Caboclo”, de René Sampaio, ele encarna o vilão e traficante Jeremias, famoso personagem da canção de Renato Russo. Além dos filmes, o ator também está em cartaz pelo Brasil com a peça Pterodátilos, que tem Marco Nanini no elenco.

Cria do teatro, Felipe conta – em entrevista exclusiva ao UOL – detalhes sobre seu processo de composição dos personagens dos dois filmes; revela que abandonou o curso de veterinária para se dedicar à carreira de ator; e admite que, quando foi convidado por uma produtora de elenco para fazer o teste para viver o Jeremias de "Faroeste Caboclo", achava que não tinha nada a ver com o perfil do personagem. “Imaginava o Jeremias como um ogro, um troglodita, um filho da p..., babaca. Por que eles não pegam um outro ator, com uma cara mais desafiadora? Quase desisti”, lembra ele, que pensou melhor, fez o teste, e ganhou o papel. “Inclusive descobri o meu lado babaca, filho da p...”, completa, aos risos.

Leia a entrevista completa com Felipe Abib:

UOL – Como você definiria o filme "180°"?
Felipe Abib –
O filme circula no ambiente do jornalismo, mas não necessariamente numa redação. Fica concentrado na amizade, no que acontece por fora, na relação entre o Bernardo, meu personagem, o Russel [Eduardo Moscovis] e a Anna [Malu Galli]. O Bernardo é o estagiário da empresa, aquele garoto que está ali querendo crescer. O Russel e a Anna meio que apadrinham o Bernardo. Tem uma amizade, eles ajudam ele, ele cresce na empresa. Na medida em que ele vai se estabilizando como um jornalista, a relação entre os três vai começando a mudar o desenho. A história do filme se concentra nos três. Mas o que o filme evidencia é o pós-trabalho, o happy hour, os encontros, as conversas, as fofocas da empresa. O filme mesmo não fala do jornalismo, mas de uma intrincada relação amorosa, de mudanças de rumo, de desejos, de ambições. E o que é legal é que ele é contado não de uma forma cronológica. Ele é todo fragmentado. Então o espectador assiste não na ordem que seria cronológica da vida, mas de maneira fragmentada. Tanto é que você não sabe ao certo quem está com a verdade na história. Uma hora você pensa que é o Russel, outra hora a Anna. Aos pouquinhos o espectador vai construindo essa teia do filme.

Trecho de "180º"

UOL – Como surgiu o convite para viver o Bernardo no filme?
Felipe Abib –
Eu tinha uma companhia de teatro, a Teatro Independente, e estava em cartaz com o espetáculo “Cachorro!”. Uma produtora de elenco que me conhecia do espetáculo me indicou para fazer o teste. Aí eu fiz e passei. Primeiro fiz uma leitura com o diretor, o Eduardo Vaisman. Depois ele me chamou para fazer outra leitura com a Malu [Galli] e a gente definiu que eu faria o filme. Depois começamos a ensaiar e a trabalhar essa relação física dos três. Fizemos uma preparação com a Márcia Rubin, que é uma bailarina que nos ajudou na parte de contato e de relação. Ela fez o elo de ligação entre os três personagens. Porque o filme basicamente está nos três. A gente precisava ter uma relação concreta sobre esse movimento desse triângulo. É como se a gente pegasse o 180° e colocasse uma angulação maior em um, uma angulação menor em outro e a gente vai fazendo o desenho do triângulo. Porque o filme o tempo todo é assim. Começa de um jeito, vai se transformando, vai pesando mais para o outro lado. De repente a Anna está mais próxima do Bernardo, outra hora está mais próxima do Russel, depois o Russel está mais próximo do Bernardo. Esse suspense que o filme trava é o mais instigante. Porque você está vendo etapas da vida que não estão em sequência.

UOL – Foi mais difícil construir o seu personagem nesse clima de suspense?
Felipe Abib –
A gente fez um estudo cronológico normal. Não ficamos pensando na fragmentação do filme. A gente focou nas temperaturas de cada cena. O que é bacana é que esse suspense é dado com uma sensação... É como se em algum momento você olhasse para o filme e para os personagens e tivesse dúvida deles. E a cada momento ele se apresenta de uma forma diferente. E quando você vai juntando os quebra-cabeças, você vai vendo que, na verdade, aquela pessoa não era aquilo que você estava pensando dez minutos atrás. Eu acho que essa engenharia é que faz o filme ficar com um tom de dúvida, de suspense, de curiosidade.

Assista ao trailer de "180º"

UOL – O filme, então, brinca com o tempo?
Felipe Abib –
Exatamente. Ele brinca como espectador para ele tirar suas conclusões e também retirá-las. E aí é interessante porque você começa a observar o tempo que passou, qual foi a mudança do curso, aonde foi o ponto que o rio mudou de caminho. E a nossa vida é cheia desses pequenos detalhes que vão transformando nossas vidas e dando a ela outro ritmo.

UOL – Você acha que o filme vai fazer as pessoas refletirem sobre suas vidas?
Felipe Abib –
Sim. Eu mesmo fiquei revendo o filme e pensando: “nossa, eu estou com 28 anos, represento essa história, larguei minha faculdade de veterinária, hoje eu sou ator. Podia ter sido um veterinário. Podia estar morando no Mato Grosso, dentro de uma reserva. Mas aconteceram coisas na vida do meu pai, que foi promovido, teve uma época que eu fui para a igreja, onde eu fui convidado para fazer teatro. Depois eu saí da igreja. Mas algumas coisas entram na sua vida para apontar outras como se fosse um filme”. Então eu acho que o filme é uma reflexão sobre o tempo. Ganhou o prêmio de melhor direção e roteiro no Festival de Miami e o prêmio júri popular em Gramado, em 2010. O filme tem tudo para ser um sucesso.

UOL – Além do Bernardo de "180°", você faz o Jeremias, de "Faroeste Caboclo", que deve estrear no início do ano que vem. Como você foi parar no filme inspirado na música de Renato Russo?
Felipe Abib –
Me chamaram para fazer um teste. Mas quando me convidaram, eu até não queria fazer porque eu achava que eu não tinha a ver com o perfil do papel. Porque eu imaginava o Jeremias da minha cabeça.

UOL – E como você imaginava o Jeremias?
Felipe Abib –
Imaginava ele como um ogro, um troglodita, um filho da p..., babaca. Por que não pega um outro ator, com uma cara mais desafiadora? Inclusive eu descobri o meu lado babaca, filho da p... Eu não me via na condição do perfil, do que eu imaginava. Para mim ele era um cara que me causava medo, uma figura sinistra. Eu até pensei: “por que passar por essa seleção gigante? Eu não tenho nada a ver com esse papel”. Eu não vou fazer isso. E aí fiquei horas esperando, quase desisti. Depois fui percebendo, conversando com a Marcela Altberg, produtora de elenco, que tinha a ver. Ela falou: “calma, Felipe, tem a ver. A gente não te chamou à toa. A gente gosta do seu trabalho e acha que você tem a ver”.

 

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    Felipe Abib como Bernardo, em cena de "180º"

UOL – Aí você mudou de ideia?
Felipe Abib –
Sim. Aí eu fui ver o roteiro, que não é exatamente a música. Ele tem uma inspiração e tem que dar conta do filme. O filme precisa de estrutura dramática para que os personagens sobrevivam para além de uma música. No cinema a gente precisa dar uma estrutura psicológica para aquele personagem viver. Então o nosso diretor, o René Sampaio, junto com os nossos roteiristas, colocou o Jeremias numa condição social, numa condição que poderia ser a de um moleque, de um adolescente, de um jovem brasiliense que pode viver à margem da sociedade. Um moleque, como a gente brincou, que poderia ser aquele que queimou o índio. Poderia ser aquele caso da Ana Lídia, em 1973. Ser filho de um aristocrata riquíssimo, que tem tudo na vida e que por ter tudo na vida faz o que quer. Inclusive traficar, fazer pega de opala, humilhar as pessoas, zombar...

UOL – Antes do filme você já ouvia o Renato Russo?
Felipe Abib –
Eu ouvia o Renato muito na época que o meu irmão, que é dois anos mais velho do que eu, ouvia. E eu dormia com ele no mesmo quarto. Ele ouvia muito Raul Seixas, Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Nirvana. Então eu já tinha referências do rock, tanto nacional quanto internacional. E em Brasília o rock nacional estava bombando no final dos anos 80. Aí eu bebi bastante coisa daquela época. Fora isso, depois entrei para o teatro, e nas nossas rodinhas, a gente sempre tocava Legião Urbana.

UOL – O que você fez para se preparar para viver o personagem?
Felipe Abib –
Eu fui para Brasília, a gente acompanhou o movimento do rock, os lugares que eles frequentavam na época, as quadras, as super quadras, a região da asa norte, todas as questões do jovem de Brasília. Os jovens que se encontraram. Porque Brasília foi uma cidade inventada, gente do Brasil inteiro foi morar lá e as pessoas precisavam assumir uma posição, ter um lugar no mundo. Não existia um histórico, como você tem no Rio, em Goiânia, no Nordeste. E as pessoas compram seus instrumentos, formam suas bandas. Uns resolvem fazer poesia, outros resolvem fazer pega de opala. E é uma cidade muito vazia nos anos 80. Era comum você ver os jovens se juntando para fazer alguma coisa. Eles precisavam assumir uma posição, achar um lugar ao sol. E acho que de alguma maneira o Jeremias é assim.

UOL – Quais foram as suas referências para criá-lo?
Felipe Abib –
Eu tive muita referência musical, referências que o próprio Legião, o Plebe Rude e as bandas de Brasília bebiam lá de fora, como Sex Pistols, o próprio Nirvana, Led Zeppelin. Eu ouvi essas músicas, que eram feitas por esses poetas, por esses músicos, que falavam sobre Brasília, sobre o movimento dos jovens, a geração coca-cola, as solidões. Também ouvi muita música disco, de balada. Porque o meu personagem também circula pela riqueza. Tanto o movimento underground, mais da droga, tanto o movimento mais pop, das baladas, das mulheres. Mas eu também procurei pegar referências de ritmo interno do personagem, que eram músicas clássicas, como a nona sinfonia de Beethoven. São músicas que têm uma força muito grande. São músicas subjetivamente avassaladoras. Elas traziam uma sensação de grandeza para o meu personagem. Era legal, de uma maneira simbólica, eu pensar no meu trono.

UOL – Você também assistiu a filmes?
Felipe Abib –
Eu assisti a filmes que me estimulavam para entender esse universo sombrio, do machismo, da ultraviolência. “Laranja Mecânica”, “Alpha Dog”, “Scarface”. Também peguei a casa que comprei na Glória e que eu ia reformar e antes de reformar sugeri ao preparador de elenco do filme, para usar a minha casa, já que ela estava livre. Botei um saco de boxe na minha garagem, enchi o armário com recortes de revistas de mulher pelada do final dos anos 80. Fiz um altarzinho para Maria Lúcia [Ísis Valverde]. Risquei a parede toda com terminologias de Brasília, botei trechos de um livro de rock de Brasília, com depoimentos dos músicos da época. Botei fotos de jogadores de futebol, dos ídolos da época. Na cozinha fiz a Ceilândia. Ficou um inferno [risos]. Achei fotos de figuras que dessem uma certa imagem para mim do Jeremias. Peguei pulseiras, anéis, colares. Experimentei tudo. Até neon tinha na minha casa. Depois teve um ensaio meio festa lá em casa, com a Maria Lúcia e o João Santo Cristo [risos].

UOL – Você acha que os fãs do Renato Russo vão gostar do filme?
Felipe Abib –
Eu, Felipe, quando gosto muito de uma coisa, procuro não me apegar para não ter nenhum tipo de frustração. Porque eu acho que o filme vai surpreender. Ele foi muito bem filmado, tem cenas maravilhosas, as imagens de Brasília estão lindas. O René dirige muito bem. A Ísis Valverde, que faz a Maria Lúcia, está ótima e o Fabrício Boliveira, que é o João de Santo Cristo, incrível. Porque o filme não ficou só no lado da fábula, da música. Ficou do lado da realidade. É uma mistura entre uma história de amor, quase em tom de fábula porque é muito forte, mas com um tom muito dramático, muito real. Eu acho que o espectador vai se surpreender. Tem tudo para unir arte com popular e uma música de três gerações. Tem roteiro, história e tudo para surpreender.

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