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Documentário de Martin Scorsese faz o Beatle George Harrison olhar nos olhos da plateia

ANA MARIA BAHIANA

Especial para o UOL, de Los Angeles

19/10/2011 00h00

Um canteiro de tulipas enche a tela. Ao fundo ouve-se o barulho do vento, alguém assobiando. De repente, um rosto emerge das flores, olhando diretamente para a câmera: George Harrison, com um enorme sorriso nos lábios e o olhar penetrante de sempre. “Éramos George e eu, sozinhos no quarto, olhando um para o outro, diretamente nos olhos”, diz Martin Scorsese, relembrando o momento em que começou a examinar os DVDs de fotos e vídeos caseiros enviados por Olivia Arias, viúva do músico. “Foi ali que eu vi que o filme tinha que ser feito”, conta Scorsese sobre o momento em que decidiu filmar "George Harrison: Living in a Material World", documentário que será exibido no Festival do Rio nesta quarta-feira (19).


Olivia vinha há anos reunindo e catalogando o vasto material iconográfico deixado por Harrison, um fã de fotografia e cinema que documentara sua vida cotidiana em fotos, filmes e vídeos caseiros, desde seus tempos em Liverpool. Depois de ver "No Direction Home" (2005), o documentário de Martin Scorsese sobre Bob Dylan, Olivia decidiu que ele seria o diretor ideal para organizar e dar um formato aos arquivos visuais de seu marido. Scorsese, envolvido em outros projetos, hesitou durante algum tempo - até aquela noite num quarto de hotel quando, por uma mistura de curiosidade e tédio, ele finalmente decidiu ver o primeiro DVD da coleção enviada por Olivia.

“George gostava de cinema e gostava de filmar”, diz Scorsese. “Provavelmente, naquela imagem, ele estava apenas alinhando a tomada de cena. Mas o resultado, para mim, foi altamente impactante. Através do cinema, George estava olhando nos meus olhos.”

Esta ideia - fazer George Harrison olhar nos olhos da plateia - guia "George Harrison: Living in the Material World", o documentário de três horas e meia de duração que acompanha a trajetória do músico, de Liverpool à casa nas colinas de Los Angeles onde morreu, em novembro de 2001, cantando mantras e, segundo Olivia, “iluminando todo o quarto”.

A morte, na verdade, é outro tema importante do documentário. Isso é estabelecido logo no início, depois da imagem das tulipas, com amigos, família e colaboradores - o filho Dhani, Eric Clapton, o presidente da produtora Handmade Films, Ray Cooper - lembrando os últimos momentos de George de um modo que ele certamente aprovaria: com sorrisos e risadas. Compositor de “The Art of Dying”, George tinha grande preocupação com o momento do desenlace e, como fica aparente no documentário, passou uma boa parte de sua vida, em suas próprias palavras, “treinando para o momento final de transformação radical de consciência.”

Além da possibilidade de ver material inédito - fotos feitas por George no auge da Beatlemania, filmes caseiros da restauração dos vastos jardins de sua mansão nos arredores de Londres, George remixando "All Things Must Pass" em seu estúdio doméstico, os Traveling Wilburys tocando “Ghost Riders in the Sky” na cozinha da casa de alguém, como um bando de adolescentes entusiasmados - "Living in the Material World" tem o grande mérito de compor um retrato fascinante de um homem muito complexo, tão entusiasmado por drogas quanto por meditação, amigo de cineastas, pilotos de Fórmula 1, membros de gangues de motoqueiros e iogues.
 

TRAILER DE "GEORGE HARRISON: LIVING IN A MATERIAL WORLD"

E, correndo como um fio vital para unir tudo isso, música, “o modo que George tinha para expressar todo o turbilhão que carregava na alma”, segundo Scorsese.

Na primeira parte do documentário, vemos o adolescente tímido de Liverpool - dono, nas palavras de Paul McCartney, de “uma cabeleira extraordinária” - crescendo no olho do furacão da Beatlemania, guardando para si um universo de percepções e perplexidades, à sombra dos gigantes Lennon e McCartney.  “Comecei a compor como um exercício”, George diz numa entrevista que parece ser do final dos anos 1970. “Eu pensei: se esses dois conseguem, por que não eu?” Em um momento breve mas particularmente poderoso, vemos George assinando os documentos que oficializam o final dos Beatles, enquanto entoa “Krishna, Krishna, Krishna, que isto seja mesmo o fim”.

A primeira parte termina com o jorro de criatividade do seu primeiro álbum solo, "All Things Must Pass", “um grande vômito de todas as coisas que George vinha criando e guardando para si durante anos” diz Phil Spector, hoje, envergando uma assustadora peruca loura.

A segunda parte ocupa-se do aprofundamento espiritual de George - interrompido de tempos em tempos por “entusiasmadas “ (nas palavras do amigo Klaus Voorman) sessões de cocaína -, sua paixão por automóveis velozes, sua reaproximação de John, Paul e Ringo, sua admiração pelo grupo de comédia Monty Python e, através deles, sua transformação em produtor com a Handmade Films.

Como em "No Direction Home", Scorsese mantém todas as linhas narrativas abertas ao mesmo tempo, muitas vezes voltando ao passado ou antecipando o futuro para aprofundar o retrato de George muito além de “o Beatle silencioso”. A música, ponto forte de qualquer obra de Scorsese, é particularmente potente em "George Harrison: Living in the Material World", exclusivamente com obras de George, muitas vezes em demos e rascunhos, usadas para comentar e ampliar as imagens de uma vida extraordinária.
 


"GEORGE HARRISON: LIVING IN A MATERIAL WORLD" NO FESTIVAL DO RIO 2011
Quando:
quarta (19/10), às 14h30 e 19h
Onde: Cine Odeon (Pça. Floriano, 7, Cinelãndia, Rio de Janeiro, tel. 0/xx/21/2240-1093)
Quanto: R$ 16