Cinema

Transformações de Marcelo Yuka depois de ficar paraplégico são fio condutor de documentário

Divulgação
Cena do documentário "Marcelo Yuka no Caminho das Setas", de Daniela Broitman imagem: Divulgação

NATALIA ENGLER

Da Redação

Em 9 de novembro de 2000, Marcelo Yuka, então baterista e principal compositor da banda O Rappa, levou nove tiros durante um assalto no Rio de Janeiro. As mudanças provocadas na vida do músico por esse acontecimento são ponto de partida do documentário “Marcelo Yuka no Caminho das Setas”, de Daniela Broitman, que estreia na programação da Mostra de São Paulo neste sábado (22).

O longa foi exibido pela primeira vez no início de outubro, no Festival do Rio, onde recebeu o prêmio de melhor montagem. “Foi incrível. O Cine Odeon estava lotado. As pessoas aplaudiam no meio do filme, riam, vaiavam. Teve de tudo. Foi muito emocionante. Eu estou muito feliz e surpresa com o tamanho da repercussão”, conta Broitman sobre a recepção de seu filme no evento carioca.

Broitman acompanhou Yuka de 2004 até setembro deste ano, quando o músico participou do Rock In Rio. Recorrendo a imagens de arquivo, o documentário inicia a narrativa alguns meses antes do assalto que deixou Yuka paraplégico e, além de retratar o processo de mudança pelo qual o músico passou, também toca em questões como sua saída do Rappa, a partir do ponto de vista de todos os integrantes da banda.

Em 2001, cerca de um ano depois de ficar paraplégico, Yuka e os outros músicos começaram a entrar em conflito sobre os rumos do Rappa. Seu crescente engajamento com movimentos sociais e a necessidade de novas composições para mais um álbum eram alguns dos pontos de discordância, agravados também por questões de divisão dos direitos autorais – Yuka, como compositor, tem direito a metade do valor arrecado com suas músicas. Tudo isso levou os demais músicos a pedirem sua saída.

“Eu tentei ser justa. Não existe uma verdade absoluta. Eu estava com muita preocupação em não pesar muito para nenhum lado. Editei, reeditei e editei até ter certeza de que eu não estava sendo injusta com ninguém”, afirma Broitman.

Em entrevista ao UOL Cinema, a diretora comentou sua relação com Marcelo Yuka e o processo de realização do filme.


UOL - Como surgiu seu interesse em fazer um documentário retratando o Marcelo Yuka?
Daniela Broitman -
Eu conheci o Marcelo porque fui levar um pessoal da ONU que queria encomendar uma música sobre preconceito racial – é até uma cena que está no filme – e o BNegão me indicou o Yuka. Desde então, a gente se aproximou. Eu fiquei bem admirada e surpresa com o discurso dele, com as ideias, a maneira de falar. E desde o começo achei-o uma pessoa extremamente carismática e sincera. O humor dele também me chamou a atenção. Ficamos amigos e começamos a trocar figurinhas a respeito dos nossos trabalhos, que é um ponto que temos em comum – a questão da justiça social, dos direitos humanos. Até o momento em que eu vi que a história e ele mereciam um filme. Não só por ele, mas porque eu via que ele buscava alguma coisa que podia inspirar outras pessoas – essa paz que ele tanto busca. E em determinado momento ele percebeu que não é só uma paz externa que ele precisa buscar, mas também uma paz interna.

UOL - As primeiras imagens são de 2004 e o documentário acaba com o Rock In Rio, que aconteceu em setembro deste ano. Como você decidiu que era hora de parar de filmar?
Broitman -
Eu decidi mesmo fazer o filme em 2006, mas já estava filmando algumas coisas desde 2004. São sete anos de material. Mas eu estava esperando o momento de transformação, de mudança. E ninguém muda de uma hora para outra. Eu sabia que ia levar um tempo. Eu dizia para ele que quando eu achasse que estava vendo uma real mudança, eu iria saber que era o momento, e que ele também iria saber. E esse seria o momento de fechar o filme. Acho que o Marcelo fechou um ciclo da vida dele e está começando outro com esse CD novo, que já está finalizado, e ele já está até fazendo show com algumas músicas novas. E foi por isso que eu achei que era o momento de parar de filmar e mostrar para o mundo essa transformação, que eu acho que pode inspirar muitas outras pessoas. Mas com o cuidado de não transformá-lo em herói. A gente até brincava que o filme ia mostrar o anti-herói dele – a sacaneação, a ironia, o sarcasmo, o deboche.

UOL - Uma das coisas que você aborda é a saída do Yuka do Rappa. Era uma questão importante para o filme?
Broitman -
Não é o objetivo do filme. É um filme sobre o Yuka, e esse foi um dos episódios que aconteceram e que marcaram a vida dele. Mas eu dizia que seria esquisito fazer um filme sobre a última década da vida dele sem falar sobre O Rappa. O Rappa fez parte da vida dele e fez, de alguma maneira, ele ser quem ele é hoje. Ele precisou passar por aquilo, mesmo que fosse para saber que não era mais o que queria. Eu dizia que era essencial que isso estivesse no filme e esperei o momento em que ele estivesse pronto para falar. Levou um tempo com todos eles [integrantes do Rappa]. É um assunto delicado, eles não queriam falar. O [Marcelo] Lobato, que foi o primeiro com quem eu falei, resolver dar a entrevista só há uns dois anos. O Falcão falou comigo só esse ano. Com o Yuka eu já tinha conversado sobre o assunto algumas vezes como amiga, até que esse ano eu falei “É agora ou nunca”. E acho que ele também entendeu que era um assunto importante na vida dele, até para virar uma página. O mais difícil foi o Falcão, foi último a falar comigo. Ele estava muito na dúvida, até o último momento. Mas, depois que ele resolveu falar, falou muito e realmente se abriu.


MARCELO YUKA NO CAMINHO DAS SETAS

Sáb. (22), às 21h20, no Frei Caneca Unibanco Arteplex 2 (Shopping Frei Caneca - r. Frei Caneca, 569, 3º piso, Cerqueira César, tel. 0/xx/11/3472-2362)

Dom. (23), às 18h20, no Espaço Unibanco Augusta 3 (r. Augusta, 1475, Cerqueira César, tel. 0/xx/11/3288-6780)

Seg. (24), às 18h40, no Espaço Unibanco Pompeia 1 (Bourbon Shopping - r. Turiassu, 2100, 3° piso, Pompeia, tel. 0/xx/11/3673-3949)

Sáb. (29), às 0h20, no Frei Caneca Unibanco Arteplex 3 (Shopping Frei Caneca - r. Frei Caneca, 569, 3º piso, Cerqueira César, tel. 0/xx/11/3472-2362)

Seg. (31), às 14h, no Reserva Cultural 1 (av. Paulista, 900, térreo baixo, Bela Vista, tel. 0/xx/11/3287-7858)

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