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Eduardo Coutinho, diretor de "As Canções", conta que por pouco não fez um filme sobre Roberto Carlos

NEUSA BARBOSA

Do Cineweb

27/10/2011 19h22

“As Canções”, novo documentário de Eduardo Coutinho, começa a ser exibido nesta noite na Mostra de São Paulo 2011, com a presença do realizador de “Jogo de Cena”, “Moscou”, “Edifício Máster” e uma longa linhagem de documentários premiados.


Desta vez, Coutinho voltou-se para o baú da música popular brasileira, pelo viés das músicas que marcaram a história de vida de 18 personagens. No total, foram filmados 42, tudo por conta de uma insegurança básica deste diretor veterano e consagrado: “O meu medo no final era não ter um longa-metragem, então decidi, vamos filmar. 42”, disse o cineasta ao UOL Cinema. As filmagens ocorreram seguindo regras bem rígidas: todos os personagens foram filmados sozinhos. Era proibido também usar instrumentos, ficar em pé e dançar. “Tinha que ficar sentado”, determinava o diretor.  

Outra garantia era fazer todo mundo cantar a música escolhida duas vezes, para o caso de ter algum problema técnico. “Sempre o primeiro plano era melhor, porque era feito sempre num plano próximo”.

Roberto Carlos
Antes mesmo de a pesquisa de personagens terminar, Coutinho já antecipava qual seria o cantor que teria mais músicas lembradas: Roberto Carlos. Ele explica: “De cara eu sabia que Roberto Carlos ia ganhar. Eu cheguei a pensar em fazer um filme só sobre as músicas dele. Mas mudamos, ia ficar muito caro. E acho que essa mudança foi para melhor, porque fizemos sobre o cancioneiro brasileiro mesmo. Então tinha de tudo. As pessoas chegavam com três músicas do Roberto Carlos, mas uma se repetia, era “Olha”, que acabou entrando no filme. Dos outros, tinha de tudo, até pessoas que eram autores das próprias músicas. Tinha Silvinho, Orlando Silva, Nelson Gonçalves...”.

Dois conhecidos
Dos 18 personagens do filme, Coutinho conhecia ligeiramente apenas dois.  Um deles, que canta “Esmeralda”, de Carlos José, ele conhecia há 10 anos, por ter trabalhado com ele. Mas, da vida pessoal, sabia pouco. “Eu sabia apenas que um tempo ele foi evangélico, só isso. Estávamos conversando de música e uma hora ele cantou essa música e me chamou a atenção. Ele nunca tinha ouvido no rádio, nem sabia quem era o autor, mas ficou na cabeça dele. Isso me interessou”.

No filme, o personagem tem uma reação surpreendente: ele chora quando canta, apesar de estar descrevendo uma situação positiva com sua mãe, de 85 anos, que está viva. “É essa coisa da música popular, que viaja no tempo. Sei lá o que passou na vida dele, mas ele chorou ali na hora. Tem surpresas. Eu o escolhi por um fato. Como é que eu podia saber que ele ia chorar? Isso é o acaso. Toda pesquisa tem uma hora em que, na real, é melhor do que a pesquisa”.


A outra pessoa que o diretor conhecia era Fátima, que canta “Ternura”, da Wanderléa. Essa era conhecida desde 1999, quando o diretor filmou “Babilônia 2000”. “Por isso eu soube da vida dela. Ela foi hippie e agora é evangélica. Às vezes eu a via e a gente resolveu chamá-la”. A personagem cantava louvores religiosos, que, segundo Coutinho, “eram lindos, mas chocavam com a história dela. Não dava pra entrar. Não combinava. Então ela cantava várias músicas da Janis Joplin, mas o inglês dela não era bom. Eu em 1999 pedi pra ela cantar ‘Ternura’ e ela não cantou. Agora, sim. E ela cantou para mim. É a única fraude do filme. As outras todas eu nunca tinha visto na vida”.

Os demais personagens foram escolhidos pelos métodos tradicionais do diretor, mediante anúncios de jornal e na internet que, segundo ele, “não funcionou”. Para este processo de seleção, o melhor resultado foi obtido pelo grupo de pesquisadores que se postou com uma placa onde se lia “você tem uma cantão importante na vida?” no Largo da Carioca, centro do Rio de Janeiro. Por que funcionou melhor lá? Para Coutinho: “Porque é o centro da cidade, a cidade tem de tudo. Além de tudo, tem a vantagem de ser um largo muito grande, tem metrô ali, as pessoas param. O pessoal da pesquisa ficava com a placa lá e as pessoas vinham. Aí a regra era a pessoa dizer qual era a música e cantar ali mesmo. Se não soubesse a letra ou fosse péssima cantora, nem gravava. Daí ela dizia porque que a música era importante. Eu ia vendo e marcando”.

Direitos autorais
No total, 20 músicas de diversos autores entraram no filme. Falando da negociação dos direitos, Coutinho explica: “Todos eles vão receber, as editoras vão. Os advogados da Videofilmes estão resolvendo isso. Em festival, o filme pode passar. Depois do festival, é que vamos ver isso. Se alguém pedir R$ 10.000 por uma música, não vai dar dar. Se tivermos que tirar alguma, vai ser uma tragédia, teríamos que tirar o personagem, isto é uma droga”.

A estreia de “As Canções” está marcada pra 8 de dezembro. Até lá, o diretor espera que todo este processo de negociação das músicas esteja resolvido. “Se tiver um músico que não acertou ainda, você não pode lançar. Neste filme é complicado, porque as canções é que motivam o filme”, preocupa-se.

Num determinado momento, o próprio diretor cantarola “Fascinação”, de Armando Louzada, junto com uma de suas personagens. Mas, indagado se esta seria a canção de sua vida, ele desconversa: “Não, não tenho essa coisa de música, nunca tive isso de música da minha vida”.

 


AS CANÇÕES

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Sex. (28), às 17h50, no Frei Caneca Unibanco Arteplex 4 (shopping Frei Caneca - r. Frei Caneca, 569, 3º piso, tel. 0/xx/11/3472-2362)

Sáb. (29), às 16h10, no Espaço Unibanco Augusta 3 (r. Augusta, 1475, Cerqueira César, 0/xx/11/3288-6780)

Qua. (2), às 22h20, no Espaço Unibanco Pompeia 1 (Bourbon Shopping - r Turiassu, 2100, 3º piso, Pompeia, 0/xx/11/3673-3949)

Qui. (3), às 18h10, no Frei Caneca Unibanco Arteplex 5 (shopping Frei Caneca - r. Frei Caneca, 569, 3º piso, tel. 0/xx/11/3472-2362)

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