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"Quero deixar bem claro serem falsos os boatos de que o Occupy Wall Street é parte da promoção do filme", diz diretor de "Roubo nas Alturas"

Cena de "Roubo nas Alturas", de Brett Ratner - Divulgação
Cena de "Roubo nas Alturas", de Brett Ratner Imagem: Divulgação

EDUARDO GRAÇA

Colaboração para o UOL, de Nova York

16/12/2011 07h00

Quando a entrevista coletiva do filme “Roubo nas Alturas” começou, em um dos hotéis mais chiques de Manhattan, o diretor Brett Ratner trazia duas cartas na manga: o poder de produzir a festa do Oscar em fevereiro e o privilégio de contar com Eddie Murphy, sua estrela na gostosa comédia que estreia nesta sexta (16) nos cinemas brasileiros, como mestre de cerimônias da noite. Parecia um roteiro de Hollywood sobre o ressurgir das cinzas de um diretor sem um hit original desde “A Hora do Rush”, lançado há treze anos. De lá para cá, foram boas bilheterias no rastro de histórias requentadas do inspetor-chefe Lee vivido por Jackie Chan, um retorno a Hannibal Lecter e uma passagem pelos X-Men, e só. Mas nada deu certo.

"Roubo nas Alturas", com um elenco de primeira grandeza – incluindo Ben Stiller, Matthew Broderick, Téa Leoni, Alan Alda, Casey Affleck e Gaborey Sidibe – jamais ocupou o primeiro lugar nas bilheterias americanas. O filme, uma produção estimada em 75 milhões dólares, conseguiu arrecadar pouco mais de 74 milhões em cinco semanas em cartaz. E uma série de declarações infelizes – a última delas, ofensiva a homossexuais – levou à sumária demissão de Rattner pela Academia do Oscar, logo depois secundado pelo aviso do amigo Murphy de que veria a entrega do Oscar em casa, sendo substituído como apresentador pelo veterano Billy Cristal. O dado mais curioso: o responsável pela produção da festa que acontece no dia 26 de fevereiro acabou sendo Brian Grazer, produtor de “Roubo nas Alturas”, sentado, na mesma mesa da coletiva, ao lado de Rattner.

Em “Roubo nas Alturas”, funcionários de um apart-hotel de luxo em Manhattan descobrem que todas as suas economias desapareceram por conta dos investimentos, aparentemente lucrativos, do figurão de Wall Street que mora na cobertura da torre do título original do filme (“Tower Heist”) vividos por Alan Alda, em uma caracterização que lembra figuras emblemáticas da crise financeira de 2008, como Bernie Maddoff. “Quem teve a ideia foi o Eddie [Murphy], meu parceiro em seis produções, que me falou do projeto. O que me atraiu foi a premissa de um bando de pobres diabos, de trabalhadores, tramando uma revanche contra os poderosos de colarinho branco. E a verdade é que ‘A Hora do Rush’ deve muito ao Eddie. Sem ele, este filme que representa uma enorme parcela de meu sucesso em Hollywood, não teria acontecido”, diz Rattner, para imediato retrucar de Murphy: “Eu só queria uma desculpa para sair de casa. Estava sentado na poltrona de casa por muito tempo e queria trabalhar em algo novo, então, aqui estamos, né, gente?”.


Rattner tenta se explicar. E diz que os “únicos” filmes que o motivaram a de fato ‘estudá-los’, memorizar falas, foram o que chama de comédias de ação, especialmente “Um Tira da Pesada”. “O que eu tentei com “A Hora do Rush” foi bisar o sucesso do Eddie. Estou muito orgulhoso de estar aqui, não há nada mais ‘cool’ do que estar em um filme como este, com Eddie e Ben Stiller”, afirma.

“Roubo nas Alturas” entrou em cartaz nos Estados Unidos justamente no momento em que o movimento Occupy Wall Street (OWS) passou a ganhar enorme atenção da mídia. Muito provavelmente percebendo o perigo na esquina errada, a equipe criadora do filme procurou mostrar que qualquer semelhança entre o enredo do filme – onde os 99% decidem roubar o quinhão que consideram ser seu de direito do figurão que representa os 1% da população tão amaldiçoados pelo OWS – e os manifestantes concentrados inicialmente na parte sul da ilha de Manhattan e hoje espalhados pelos quatro cantos do país é mera coincidência.

“Quero deixar bem claro serem falsos os boatos de que o OWS é parte da promoção de nosso filme. A gente não tinha a menor ideia de que a crise financeira tomaria estas proporções e desembocaria neste tipo de protesto. Não tinha nem Bernie Madoff nas manchetes dos jornais quando decidimos fazer o filme”, jura Rattner.

O Robin Hood contemporâneo de Rattner é Ben Stiller, mais contido do que o habitual com seu Josh Kovacs, o gerente do prédio, que se sente responsável pela débâcle financeira de seus comandados, já que foi dele a decisão de confiar as economias do grupo ao aparentemente gênio das finanças Arthur Shaw (Alan Alda).  “Há muito frustração nas ruas dos EUA e da Europa hoje, e o OWS é uma expressão deste sentimento. Gosto de saber que há uma base real para o filme, mas 'Roubo nas Alturas' é uma comédia, que parte de personagens fictícios”, diz Stiller, para continuar: “E eu ainda tinha uma enorme vantagem aqui, pois tinha o Eddie Murphy para tirar toda a pressão de eu ter que ser muito engraçado no filme. Opa. Pera lá. Isso faz algum sentido? Stiller, tentando não ser engraçado?”, diz, caindo na gargalhada enquanto faz graça de si mesmo.

TRAILER DE "ROUBO NAS ALTURAS"


“Roubo nas Alturas” brinca de ser uma paródia dos chamados filmes de assalto, que tiveram um revival nos anos 1970, inclusive em um título, o original "O Sequestro do Metrô", de 1974, que contou no elenco com James Broderick e Jerry Stiller, respectivamente pais de Matthew Broderick e Ben Stiller. “Mas durante as filmagens, eu me lembrava do que Eddie Murphy uma vez me disse. Ele disse que Walter Hill, o diretor de '48 Horas', repetia sempre nas filmagens, como um mantra, ‘isso não é uma comédia’, ‘isso não é uma comédia’. É que a ‘comédia’ acabava vindo naturalmente das situações em que os personagens se metiam. Fugi das piadas fáceis. Não contratei comediantes para este filme, mas os melhores atores que pude encontrar”, diz Rattner.

Daí a surpresa agradabilíssima de se ver tanto Casey Affleck (mais conhecido por personagens sombrios, como o Patrick de “Medo da Verdade” e o Robert Ford de “O Assassinato de Jesse James”) quanto Gaborey Sidibe (indicada ao Oscar de melhor atriz pela sofrida “Preciosa”) em cenas cômicas impecáveis, como as que a faxineira vivida por Sidibe começa a se interessar pelo único membro do grupo que não trabalhava no prédio, o vizinho de Stiller vivido por Eddie Murphy, um ladrão de galinhas com ar de "expert" no mundo do crime.

“Os melhores momentos de improvisação, aliás, aconteceram entre Gaborey e Eddie. Na cena em que ela o ensina a abrir o cofre, não havia diálogo algum, mas eu susssurrei no ouvido dela: ‘dá em cima do Eddie’, ‘paquera ele!’ e ela olhou para mim como quem diz: ‘mas você está falando sério?’”, conta Rattner, que levanta a bola para Murphy cortar, a voz mais grave do que o normal, a fala rápida, sem pausas: “E aí ele disse para o diretor de produção: ‘menos luz!’. E, subitamente, Gabourey fica sem sutiã. Aumenta o calor no set e Ben [Stiller] está completamente nu! E eu, sem saber o que fazer, tenso, grito para Brett: ‘mas o que está acontecendo aqui? O que está acontecendo aqui? E o Brian diz: 'vai levando, siga o seu instinto!' E seguimos assim por mais 40 minutos e, olha, foi incrível. Eu nunca fiz uma cena como aquela. Mas você só vai poder conferir tudo na versão sem cortes, nos extras do DVD para adultos de ‘Roubo nas Alturas’”.