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"Hoje", de Tata Amaral, traz Denise Fraga como mulher em busca de superar a culpa

Ding Musa/Divulgação
Denise Fraga em cena do filme "Hoje", de Tata Amaral Imagem: Ding Musa/Divulgação

Sérgio Alpendre

Do UOL, em Tiradentes (MG)

23/01/2012 20h17

Em seu quarto longa-metragem, "Hoje", exibido no Festival de Tiradentes 2012, Tata Amaral fala da superação da culpa. Não de maneira direta, mas de maneira poética; às vezes poética demais.

Denise Fraga é a mulher de 40 e poucos anos que compra um apartamento no centro de São Paulo. Essa aquisição foi possível pela indenização recebida com o desaparecimento de seu marido (o ator uruguaio Cesar Troncoso) durante a ditadura militar. Mas a mudança atrai o desaparecido, que chega para acertar contas e retomar os eventos que causaram o trauma. Estamos em 1998, e os acontecimentos relembrados são de 1974.

Passado todo dentro do apartamento (exceto pelo momento final, de superação), "Hoje" retoma a ideia de personagens enclausurados por traumas e medos que já estava presente em "Através da Janela" e, principalmente, em "Um Céu de Estrelas".

MAKING OF DE "HOJE"


Pelo uso interessante de efeitos visuais obtidos com projeções, o longa de Tata Amaral lembra bastante "Afinal, uma Mulher de Negócios", telefilme maneirista do diretor alemão Rainer Werner Fassbinder. Tata, assim como o diretor de "Lili Marlene", gosta de explorar uma relação que se cria com poucos personagens (aqui, como em "Um Céu de Estrelas", são apenas dois). É nesse terreno quase minimalista que ela normalmente gosta de trabalhar. E a radicalidade, aqui, é uma exigência dentro do tom adotado.

Por isso a grande ressalva que pode ser feita a "Hoje" é que os dois personagens encarregados da mudança estão sobrando nessa história. Atenuam o que poderia ser uma opção radical de dramaturgia e nada acrescentam na narrativa, a não ser o fato de que a personagem se tornou libidinosa, algo que um diálogo posterior explica.

Não interessa se "Prova Contrária", o livro de Fernando Bonassi que serviu de base para "Hoje", já mostrava esses personagens. O que interessa é que dentro da opção escolhida pela diretora, de retratar o drama do casal com imagens que amplificam a fissura, tais funcionários da empresa de mudança funcionam como água fria. São agentes externos que suavizam o tom consideravelmente e enfraquecem o clímax, em que as projeções dominam a cena.

O trauma, que se anuncia inicialmente com uma gravidade difícil de ser contornada, acaba sendo apenas um rito de passagem para a nova fase da vida dessa mulher, agora proprietária de um apartamento no centro de São Paulo. O que era para ser um drama de cortar corações acaba sendo apenas um interessante exercício de dramaturgia na clausura.