Cinema

Com ponta de Johnny Depp, "Anjos da Lei" muda para atrair público de comédia

Chico Fireman

Especial para o UOL, de São Paulo

Refazer uma obra nem sempre é tão simples como parece. Os fãs da série de TV “Anjos da Lei” não devem se empolgar demais com a chegada aos cinemas do filme com o mesmo título. O longa, estrelado por Jonah Hill e Channing Tatum, tem muito pouco, quase nada do seriado que fez sucesso entre 1987 e 1991 e revelou para o mundo um dos atores mais requisitados do cinema atual, Johnny Depp. Mas qual o sentido de uma adaptação que se parece bem pouco com o original? É isso que a gente tenta entender analisando as semelhanças e diferenças entre filme e série.

Ideias recicladas
Este novo “Anjos da lei”(“21 Jump Street” no original) é o que se chama de reimaginação. A expressão é bastante usada no cinema recente para classificar as novas produções que se utilizam do conceito de uma marca já conhecida para criar novos roteiros. Um exemplo é a versão para cinema de “As Panteras”. No caso do filme, o que sobrou da série original foi a ideia de uma divisão da polícia com oficiais jovens que se infiltram em escolas para investigar crimes, geralmente relacionados a drogas.

Personagens

  • Divulgação

    Johnny Depp e Peter DeLuise em cena da série de TV "Anjos da Lei", exibida entre 1987 e 1981

Nenhum dos personagens originais sobrou no elenco. Tom Hanson e Doug Penhall, vividos por Johnny Depp e Peter DeLuise, foram substituídos por Schmidt e Jenko, assim mesmo, sem primeiros nomes. Na versão original, os policiais se estranhavam aqui e ali, mas eram parceiros. No filme, a nova dupla fez colegial na mesma escola, onde os dois eram adversários (um, o nerd da escola; o outro, um atleta estúpido). A aproximação veio sete anos depois, quando ambos entraram para a polícia. Duas curiosidades: “Doug“ é o codinome do personagem de Jonah Hill na missão que o filme acompanha. E Jenco, com um C no lugar do K, é o sobrenome do ator Saul Jenco, que vivia um coadjuvante na série de TV.

Drama x comédia
Um dos maiores atrativos do “Anjos da lei” original era levar para o ambiente dos seriados policiais os problemas dos jovens, sobretudo a questão das drogas. Por isso, embora houvesse espaço para humor, o tom era sério, mais dramático. Na versão em película,  o material virou uma comédia debochada, com um arsenal de piadas politicamente incorretas, principalmente focadas em sexo, e muitos, muitos palavrões. A parte de ação existe, sempre seguindo esse direcionamento, e com direito a tiros e explosões para agradar ao público atual.

Méritos e deméritos

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    Channing Tatum e Jonah Hill em cena do filme "Anjos da Lei"

Na série original, os policiais sofriam com sua aparência. Eram jovens e bonitos, ninguém dava muita bola pra eles. Trabalhar como agentes infiltrados surgiu com uma consequência disso, a exploração de um talento. No caso do filme, naquela que seria sua primeira prisão, a dupla de protagonistas esquece de ler os direitos do criminoso, ferindo a lei. Por causa disso, os dois vão parar na divisão da Rua Jump como uma punição. Ao contrário da série, em que, além dos personagens de Depp e DeLuise, outros agentes tomam parte das missões, no filme eles são meros figurantes, com poucas falas. Ou nenhuma.

A volta dos que não foram
Embora, ao longo de toda sua duração, o filme quase não faça referências à série, o roteiro, coassinado por Jonah Hill, abre espaço para três participações especiais. Johnny Depp e Peter DeLuise aparecem numa cena engraçadíssima, crucial para a trama, em que revivem por alguns minutos seus personagens e ainda resolvem definitivamente suas diferenças. Richard Grieco, substituto de Depp na série também faz uma aparição. As brincadeiras param por aí. A atriz Holly Robinson Peete, a única que participou dos 98 episódios da série, ficou de fora.

A questão que fica depois de ver “Anjos da lei” é: a tal da reimaginação pretende ser uma homenagem a uma obra que já caiu nas graças do público ou é apenas um método caça-níqueis de faturar em cima da ideia alheia, sem respeitar a essência do original? Se o leitor for fã do seriado, pode até ficar em dúvida. Se for fã do Jonah Hill, melhor não publicar aqui.

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