Cinema

Com ar de novela, filme egípcio faz ficção sobre os protestos da praça Tahrir

Divulgação
Cena do filme "Baad El Mawkeaa" ("After The Battle"), de Yousry Nasrallah imagem: Divulgação

Thiago Stivaletti

Do UOL, em Cannes

Às vezes acusado de ser um festival pouco político, ao contrário do de Berlim, o Festival de Cannes incluiu na competição deste ano o filme egípcio “Baad el Mawkeaa” (Depois da batalha), que teve cenas filmadas “a quente” durante os protestos na praça Tahrir, no ano passado, que levaram à derrubada do ditador Hosni Mubarak.

O filme enfoca o episódio dos “cavaleiros da praça Tahrir”, que ocorreu em 2 de fevereiro de 2011. Manipulados pelo regime de Mubarak, alguns civis entraram de cavalo na praça para reprimir violentamente os protestos. No filme, Reem, uma ativista de classe média e posições liberais, se aproxima de um desses cavaleiros, Mahmoud, para entender suas motivações.

Mahmoud foi derrubado do cavalo e apanhou dos protestantes, e depois disso não conseguiu mais emprego e foi humilhado no seu bairro. Ele conta a Reem que trabalhava como guia turístico em volta das Pirâmides, mas ficou sem trabalho depois que o regime construiu um muro para impedir o acesso desses guias aos turistas. Soldados do governo procuraram Mahmoud e sua turma prometendo derrubar o muro e arrumar-lhes trabalho de novo se eles reprimissem os manifestantes – e não cumpriram a promessa depois.

“Desde o ano passado, tornou-se evidente a necessidade mundial de entender quem somos nós os egípcios. Este é um filme sobre indivíduos que se recusam a se deixar massacrar pela História com H maiúsculo”, disse o diretor. “Nosso país é dominado pelas Forças Armadas há mais de 60 anos e só agora dá seus primeiros passos na democracia”.

Nasrallah falou sobre a dificuldade de se filmar no Egito hoje. “O cinema, assim como a música e todas as artes, está sendo atacado e impedido no Egito pelos islamistas.Com este filme, quero demonstrar que o cinema egípcio ainda existe. Isso é o que fez com que a equipe e os atores enfrentassem o risco de filmar nos protestos sem saber como aquilo ia acabar”, contou.

“Depois da batalha” dá uma boa noção das diferenças de classe e opinião que dividem o Egito hoje, neste período de transição para a democracia – mostrando como grande parte da população ainda se mostra conservadora e desconfiada das mudanças. Esteticamente, porém, seu formato se aproxima das telenovelas, com uma heroína exageradamente idealista, diálogos que às vezes parecem discursos e outros personagens que estão ali apenas como estereótipos sociais para tentar explicar o quadro social.

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