Cinema

Novo "Homem-Aranha" dissipa desconfiança inicial dos fãs, mas passa longe do espetacular

Divulgação

Roberto Sadovski

Do UOL, em São Paulo

“É muito cedo para um reboot!"

“A origem, de novo?”

“Não passa de um caça-níqueis!”

Bastou "O Espetacular Homem-Aranha" ser anunciado, com novo papel de parede e cortinas novas para o personagem no cinema, que o cordão dos descontentes começou a reclamar. Afinal, depois que a trilogia comandada por Sam Raimi nos deu uma origem bacana, um segundo filme espetacular e uma conclusão irregular, como os produtores se atrevem a passar uma borracha e voltar ao zero? Bom, a resposta óbvia é, “porque eles podem”. Mas o que realmente vale aqui é mais simples ainda: por que não?

Se a gente voltar à fonte, às histórias em quadrinhos, nada é mais bacana que ver como cada equipe criativa interpreta personagens icônicos. Com o Homem-Aranha, são cinco décadas de material, visto e revisto, recontado e revirado.

Depois de três filmes com Tobey Maguire no papel de Peter Parker, que ao lado de Sam Raimi deixou a série por, na falta de uma explicação melhor, um “beco sem saída criativo”, restava aos produtores duas saídas. A primeira era abraçar um esquema James Bond, mudar os atores e continuar a série, mais ou menos obedecendo a continuidade estabelecida. A outra era recomeçar. Foi a que venceu.

É difícil, então, assistir a "O Espetacular Homem-Aranha" sem carregar tanta bagagem, tantos “e se” ou “como seria”. Mas é o melhor exercício: ver o filme pelo que ele é.

Marc Webb, que assumiu a função de diretor, entendeu o trabalho e entregou um produto elegante, divertido e lindo de ver. Fez da saga do Aranha uma história de amor entremeada por um mistério. Escolheu um ótimo ator para seu protagonista – Andrew Garfield traz o equilíbrio perfeito de rebeldia adolescente com rigidez moral e um oceano de culpa e responsabilidade.

Salpicou a produção com gente de primeira – da fotografia cintilante de John Schwartzman à bela trilha sonora de James Horner. Fez de Emma Stone a perfeita tradução da Gwen Stacy por quem o herói se apaixona perdidamente. Só esqueceu de um detalhe: "O Espetacular Homem-Aranha" é pouco.... espetacular.

Talvez seja a ressaca de "Os Vingadores", mas a nova aventura do cabeça de teia capricha nas relações humanas como nenhum outro filme de super-herói – é até mais um “filme-evento com coração” do que o Homem-Aranha de 2002 – mas em nenhum momento empolga como aventura.

Muita atenção é dada a Garfield e Emma, e pouca ao Aranha pendurado por entre os prédios de Nova York. Na verdade, toda a transformação de Parker em seu alter ego, depois de quase uma hora de preparação, surge apressada: fica difícil sentir a população abraçando seu novo habitante, o que prejudica a empatia com suas ações heroicas. O plot da criação do Lagarto (Rhys Ifans) e a responsabilidade do Aranha fica em segundo plano para a trama do garoto que descobre seus grandes poderes, mas não ainda sua grande responsabilidade.

VEJA TRAILER DE "O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA"

Ainda assim, é louvável a intenção dos produtores em dar mais estofo ao que motiva o herói, e não somente à pirotecnia. Ainda assim, o tom mais sombrio, centrado na morte prematura dos pais de Peter e em seu papel na própria transformação do jovem, não parece encaixar na natureza do personagem. O humor que ele demonstra quando coloca a máscara do Aranha vem na hora certa, mas o filme podia usar mais cor.

E mais: eu sinto falta do tempo em que um filme era só um filme. O Espetacular Homem-Aranha termina com rombos de lógica e narrativa – tudo sendo deixado para “as outras partes da trilogia”, como o estúdio já anunciou.

É diferente de Christopher Nolan, que tinha tanto em "Batman Begins" como em "O Cavaleiro das Trevas", tramas completas, que formam um todo com um terceiro filme. "Os Vingadores" é a realização de um plano, mas os cinco filmes que apresentaram os heróis também tinham começo, meio e fim. Neste ponto, "O Espetacular Homem-Aranha" surge como "Prometheus", deixando respostas para o próximo capítulo. É o futuro, mas incomoda.

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    Gwen Stacy (Emma Stone) e Peter Parker (Andrew Garfield) em cena do filme

No fim das contas, "O Espetacular Homem-Aranha" nem de longe é o desastre anunciado pelos reclamões, e o trabalho de reapresentar o herói sob um novo prisma é redondinho. Andrew Garfield é charmoso e surge como um Peter Parker mais completo do que Tobey Maguire – mais humanizado e mais identificável com a molecada uma década depois do primeiro filme.

O filme traz cenas memoráveis (todo o resgate na ponte equilibra à perfeição o senso de perigo de uma aventura de super-heróis com o lado humano característico do herói), e a fórmula de recriar personagens conhecidos com uma nova equipe criativa funciona (minha aposta é que o Batman vai demorar menos que cinco anos para ser reapresentado no cinema depois de "O Cavaleiro das Trevas Ressurge").

Peter Parker, atormentado por perguntas elementares e com um fardo de responsabilidade nas costas, é a figura que cola nas retinas ao fim da sessão. Mas não tem como não sentir falta de mais Homem-Aranha na equação.

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