Cinema

Sucesso de "Cidade de Deus" gerou disputa de autoria entre os diretores do filme

Anne-Christine Poujoulat/AFP
Kátia Lund e Fernando Meirelles no Festival de Cannes para o lançamento de "Cidade de Deus" (18/5/2002) imagem: Anne-Christine Poujoulat/AFP

Daniel Solyszko

Do UOL, em São Paulo

Depois da estreia internacional de “Cidade de Deus” em Cannes, em 2002, criou-se um clima de tensão entre os diretores do filme, que culminaria com Kátia Lund abrindo um processo judicial contra Fernando Meirelles e a produtora O2 para que seu nome aparecesse com maior destaque nos créditos do filme. Os dois deixaram de se falar na época e não voltaram a trabalhar juntos novamente.

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Em 30 de agosto de 2002, “Cidade de Deus” estreava nos cinemas brasileiros. Violência urbana e favelas já tinham sido mostradas inúmeras vezes no cinema nacional, mas o filme foi celebrado por trazer uma nova linguagem para as telas, deixando para trás tanto a pesada herança intelectual do cinema novo quanto o estilo mais apelativo do cinema popular dos anos 1970 e 1980.

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    O assunto acabou sendo esquecido, mas o filme até hoje é mais relacionado à filmografia de Meirelles do que à de Lund. Em entrevista ao UOL, a diretora preferiu não comentar o assunto, dizendo que a discussão já foi esquecida e que voltou a conversar com Meirelles recentemente. “Não me interessa falar sobre isso, é tão velho”, disse.

    Lund afirmou, depois do lançamento do filme, que poderia ter ficado com o crédito do roteiro, mas não quis. Segundo o roteirista Bráulio Mantovani, nos bastidores havia acontecido exatamente o contrário: a diretora teria pedido para seu nome ser incluso nos créditos.  “Ela de fato deu muitas ideias, mas não escreveu uma só linha. O crédito é para quem escreve. Ideias sem forma não valem nada. E quem dá forma às ideais, no roteiro, é quem senta a bunda na cadeira e escreve”, alfineta.  

    Segundo Mantovani, Lund passou cerca de um ano colaborando com o filme, e Meirelles teria passado quatro, entre a pré-produção e a edição final. A diretora teria entrado no filme como assistente. “Ela conhecia o universo das favelas cariocas muito mais que nós. Eu me lembro de nós três lendo o roteiro para trocar ideias. Quando fui ao set, para mim era evidente que Fernando era o diretor. A Kátia tinha uma proximidade muito grande com os atores, eles confiavam muito nela. Talvez isso explique por que o Fernando decidiu creditá-la como codiretora”, conta ele.

    Ainda assim Mantovani é categórico ao apoiar Meirelles na questão: “Ele foi generoso com a Kátia e acabou sendo processado por ela. Na época, ele costumava dizer que a culpa era do advogado americano, que estava envenenando a cabeça dela. Fernando é realmente um idealista”, diz.

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