Cinema

Primeira travesti eleita vereadora vira estrela durante exibição de filme no Festival de Brasília

Reprodução
A travesti Kátia mostra o RG com seu nome de batismo em cena do documentário que fala sobre sua vida, dirigido por Karla Holanda imagem: Reprodução

James Cimino

Do UOL, em Brasília

Kátia Tapety é filha de uma família tradicional de políticos no interior do Piauí. No entanto, não foi essa tradição que a levou a ser a primeira travesti eleita a um cargo político no Brasil, tendo sido três vezes vereadora e uma vez vice-prefeita da pequena Colônia do Piauí, cidade de 7.433 habitantes que se emancipou em 1992.

Foi seu carisma e sua disponibilidade em ajudar a população carente da cidade que fez com que, segundo suas palavras, “mulheres católicas, mães solteiras, cabras machos e até evangélicos” a fizessem ser a mais votada em três eleições consecutivas. 

“Quase não tive voto de gays porque não tem muitos na minha cidade. O que eu percebo nas cidades grandes é que a nossa classe não sabe se unir para eleger um representante. Estão sempre querendo uma puxar o tapete da outra. Uma querendo brilhar mais que a outra. Eu não faço distinção. Então fui eleita por toda a população. Fui a mais votada nas três eleições.”


Quase não tive voto de gays porque não tem muitos na minha cidade. O que eu percebo nas cidades grandes é que a nossa classe não sabe se unir para eleger um representante

Kátia

Foi essa história inusitada que despertou a curiosidade da diretora Karla Holanda (que também é natural do Piauí, mas hoje mora no Rio de Janeiro) a retratar a história de vida dessa personagem que, ao fim da exibição do documentário “Kátia”, no Festival de Brasília, foi cercada por novíssimos fãs, fotógrafos e jornalistas. “Eu quero a Kátia pra mim!”, dizia uma jovem empolgada com a força e determinação mostradas no filme.

“Ela me interessou porque representa uma conquista inédita em relação aos direitos humanos no Brasil. E ela não é panfletária, não tem elaboração intelectual, mas é uma figura adorada por todos na cidade”, conta a diretora do longa, que custou R$ 300 mil e ainda está sem distribuidora no Brasil. “Gostaria que meu filme não ficasse restrito aos shopping centers, mas que chegasse às periferias.”

Nem sempre a vida dessa personalidade do movimento LGBT foi livre. Nascida José Nogueira Tapety Sobrinho, estudou apenas até a terceira série. O pai dizia que “o homem que nasce viado merece morrer” e, por isso, diferentemente dos outros oito irmãos, Kátia cresceu reclusa e foi proibida de ir para escola. Durante as visitas, era a única que não podia interagir com primos, tios e amigos.

“Eu tenho raiva porque meu pai atrapalhou minha vida. Como ele era dono do ‘aqué’ [dinheiro, na gíria gay] e minha mãe tinha medo dele, eu não pude estudar, tive que ficar cuidando de cabra e de vaca. Do contrário eu seria doutora Kátia!”

A falta de título universitário, contudo, não impede Kátia de ser uma figura atuante. Ela criou a parada da igualdade de Oeiras, município vizinho onde nasceu, ajuda pessoas carentes a receberem tratamento médico e até intercede pela libertação de presos. Seu plano, nas próximas eleições, é ser prefeita da cidade. “Quero lutar para que tenha um médico plantonista permanente em Colônia do Piauí. E quero também lutar pela educação. Vou ser prefeita ainda, você vai ver!”

  • Cena do documentário "Kátia", exibido no Festival de cinema de Brasília

Lado íntimo

Durante entrevista ao UOL, Kátia contou que um político da região não gostou do documentário porque não mostra sua vida íntima, ou seja, suas relações amorosas com homens da cidade. Sem papas na língua, perguntou ao político se ele esperava “um filme pornô”.

“Eu acho importante que as pessoas saibam da minha vida, até para que outras travestis se sintam incentivadas a lutar pelos seus direitos. Mas eu tenho que dar exemplo aos meus dois filhos adotivos [uma menina de dez e um menino de 14 anos]. Não quero que na escola digam a eles que a mãe deles é uma depravada.”

A filha, em cena do filme, demonstra ter certo preconceito acerca do assunto. “Ela tem um pouco de preconceito sim, mas eu digo que ela não pode ter preconceito, porque a mãe dela é um travesti. Mas ela nega essa realidade. Diz que é mentira minha. Que eu sou mulher. O menino não. Encara numa boa. Me encontra e me beija na frente de todo mundo.”

*O repórter James Cimino viajou a convite do Festival de Cinema de Brasília

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