Filmes e séries

Tim Burton: O pária que veio do frio

Gayden Wren

Do Hollywood Watch

01/10/2012 05h00

Ele é, de muitas formas, o exemplo de cineasta independente modelo. Ele faz filmes altamente pessoais que expressam sua sensibilidade artística própria, uma mistura de melancolia sardônica e romantismo mordaz distante dos produtos populares típicos de Hollywood. Ele usa os mesmos atores repetidamente, frequentemente incluindo sua companheira do momento, e adora misturar gêneros, de filmes de ação a musicais, de cinebiografias excêntricas a filmes de animação.

De fato, se você combinar Woody Allen, Wes Craven e uma pitada de David Lynch, talvez possa chegar a algo como Tim Burton.

A piada é que Burton não é um cineasta independente. Virtualmente todos seus filmes são lançados por grandes estúdios, e vários foram grandes sucessos de bilheteria. Seu sucesso não fez Burton se adaptar a Hollywood, mas Hollywood se adaptar a Burton.

Seu mais recente filme de animação, lançado em 5 de outubro nos Estados Unidos, “Frankenweenie”, representa uma oportunidade de rever o legado do cineasta de 54 anos, porque meio que fecha uma espécie de círculo: ele é uma versão em longa metragem do curta de 1984 de mesmo nome, que serviu como cartão de visita de Burton em Hollywood. Sem os 29 minutos de “Frankenweenie”, Tim Burton como nós o conhecemos poderia não ter existido.

Burton iniciou sua carreira em animação, trabalhando para a Walt Disney Company. Apesar de seu talento ser evidente, ele era inadequado para a Disney. Sua sensibilidade macabra entrava em choque com a sensibilidade familiar do estúdio, e seu interesse na então moribunda técnica de animação “stop-motion” lhe dava pouco espaço para crescer em uma companhia ainda dedicada à animação desenhada à mão. Seu “Vincent” (1982) era um tributo em animação de seis minutos, em preto-e-branco, ao seu ídolo de infância, o veterano de filmes de horror Vincent Price, que fez a narração. Era muito diferente dos animais falantes bonitinhos e o estúdio não sabia o que fazer com ele.

Quando ele concluiu a versão em carne e osso de “Frankenweenie” (1984), uma variação de 29 minutos de “Frankenstein”, no qual um menino reanima seu cachorro morto, os executivos da Disney –que planejavam exibi-lo juntamente com o relançamento de “Pinóquio” (1940) nos cinemas– decidiram que as crianças ficariam perturbadas e assustadas com ele. Eles demitiram Burton e abandonaram os planos para lançar “Frankenweenie”. Ele só foi visto nos cinemas depois que Burton se tornou famoso, e apenas em uma versão cortada. A versão integral levou uma década para ser vista, até ser incluída no lançamento em DVD de “O Estranho Mundo de Jack” (1993).

Mas o filme circulou não oficialmente por Hollywood, chamando a atenção de Paul Reubens, na época fazendo sucesso como Pee-wee Herman, astro da série infantil “Pee-wee’s Playhouse” (1986-1990). Ele contratou Burton, na época com 27 anos, para dirigir sua estreia na tela grande, “As Grandes Aventuras de Pee-wee” (1985). A fusão das sensibilidades incomuns dos dois provou ser bastante fértil e o filme se tornou um sucesso surpresa.

Burton então dirigiu a comédia de horror “Os Fantasmas Se Divertem” (1988) e então o sucesso arrasador “Batman” (1989). Quando “Edward Mãos de Tesoura” (1990) e “Batman –O Retorno” (1992) emplacaram nas bilheterias, Burton se transformou, menos de uma década após ser chutado sem cerimônia pela Disney, em um dos diretores mais badalados de Hollywood.

Desde então, Burton continua seguindo sua própria estrela. Alguns poucos de seus filmes –notadamente “Marte Ataca!” e “O Planeta dos Macacos” (2001)– foram fracassos. Mas a maioria deu dinheiro, e “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005) e especialmente “Alice no País das Maravilhas” (2010) foram grandes sucessos. Ele não é uma máquina de sucesso como, digamos, Steven Spielberg, mas um número suficiente de seus filmes emplaca para lhe permitir ser um dos poucos cineastas de Hollywood que podem, basicamente, fazer qualquer filme que quiserem.

Para Burton, isso regularmente inclui animação, como o atual “Frankenweenie”, mas também “A Noiva Cadáver” (2005) e vários outros filmes que produziu, incluindo o influente “O Estranho Mundo de Jack” –baseado em uma história e arte de Burton– assim como “James e o Pêssego Gigante” (1996) e “9 –A Salvação” (2009).

Seja em animação ou com atores em carne e osso, os filmes de Burton compartilham várias qualidades distintas. Eles incluem a presença regular de favoritos de Burton, como Helena Bonham Carter, Johnny Depp, Michael Keaton, Christopher Lee e o compositor Danny Elfman, assim como a distinta combinação de assunto macabro –fantasmas, cadáveres animados, monstros, bruxas, assassinos em série e semelhantes– com um senso de inocência.

O herói de Burton, geralmente interpretado por Depp desde “Edward Mãos de Tesoura”, costuma ser um jovem isolado, carregando o fardo de um passado sombrio, mas ainda assim quase infantil em sua resposta ao mundo no qual se encontra. Independente de serem personagens originais ou –com mais frequência– adaptações de material existente, seu Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood, Jack Skellington, Ichabod Crane, Willy Wonka, Victor Van Dort, Sweeney Todd e Barnabas Collins são párias da sociedade convencional, mas não a odeiam e nem mesmo se ressentem de seu isolamento.

O que eles querem é fazer parte da sociedade, transformando suas deficiências peculiares em vantagens. Eles querem ser maridos ou empresários. Eles querem ser apreciados. Jack Skellington não deseja matar o Papai Noel, ele quer ser o Papai Noel.

Esse é o motivo para os temas aparentemente perturbadores dos filmes de Burton não os tornarem repulsivos. Há um romantismo em seus filmes, mais aparente em seu atipicamente ensolarado “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (2003), que beira a ingenuidade. Um filme de Burton não é uma contestação da sociedade convencional, mas sim um argumento de que o seguro e normal vão além das fronteiras convencionais, para os excêntricos, desajustados e monstros que podem parecer diferentes, mas na verdade são surpreendentemente como o restante de nós.

Talvez seja por isso que Burton não só floresceu como um indivíduo em uma indústria que tende a ser dura com a individualidade, como também viu sua própria sensibilidade distinta se infiltrar na corrente popular.

Quando Burton fez “Batman”, explorando o trabalho pioneiro nos quadrinhos de Neal Adams e Frank Miller para sua textura sombria, os críticos ficaram com dúvidas. Os filmes de super-heróis anteriores eram ao estilo de “Superman –O Filme” (1978), extravagâncias coloridas e brilhantes que pareciam desenhos ganhando vida. “Batman” de Burton era um filme noir high-tech e, quando arrebentou nas bilheterias e faturou mais de US$ 400 milhões em todo o mundo, ele mudou a forma de Hollywood olhar para os quadrinhos.

Os três filmes do Batman de Christopher Nolan seriam inconcebíveis sem os dois de Burton. O mesmo vale para “Darkman –Vingança Sem Rosto” (1990), “Demolidor –O Homem Sem Medo” (2003), “Watchmen –O Filme” (2009) e “X-Men: O Filme” (2000) e suas quatro sequências até o momento. Se os quadrinhos conquistaram a indústria cinematográfica na última década, foi Burton, mais do que qualquer outra pessoa, cuja visão tornou isso possível.

Também na animação, a perspectiva idiossincrática de Burton –e de seu frequente colaborador de animação, o também refugiado da Disney, Henry Selick, que dirigiu “O Estranho Mundo de Jack”– se infiltrou no popular. A animação, antes um santuário de princesas, fadas e animais falantes, agora abriu espaço para vampiros, zumbis, cadáveres e todo tipo de criatura sobrenatural. Se não fosse por Tim Burton, é improvável que existiriam “Wallace & Gromit –A Batalha dos Vegetais” (2005), “A Casa Monstro” (2006), “Coraline e o Mundo Secreto” (2009) de Selick ou os atuais “ParaNorman” e “Hotel Transilvânia”. Até mesmo o clássico da Pixar “Monstros S.A.” (2001) explora o senso visual de Burton.

O fato do novo longa metragem animado “Frankenweenie” estar sendo lançado pela Disney, que deu às costas ao original três décadas atrás, é um reconhecimento claro de que o jovem animador, antes rejeitado pelo estúdio como estranho e assustador, é agora tão popular como pipoca.

A Disney mudou muito desde 1984. Burton permaneceu basicamente o mesmo, mas Hollywood conseguiu chegar até ele. Ele pode ainda não ter ganhado um Oscar, mas ele tem dinheiro, fãs e o respeito de todos na comunidade cinematográfica.

Esse pária em particular agora se infiltrou para ficar.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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