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Maria de Medeiros diz ter usado emoção para reconstruir fatos da ditadura em "Repare Bem"

Cena de "Repare Bem", documentário dirigido por Maria de Medeiros em cartaz na Mostra - Divulgação
Cena de "Repare Bem", documentário dirigido por Maria de Medeiros em cartaz na Mostra Imagem: Divulgação

Mário Barra

Do UOL, em São Paulo

27/10/2012 05h00

Três gerações de mulheres afetadas pelas ditaduras brasileira e chilena na década de 1970 são retratadas em "Repare Bem", longa da cineasta e atriz portuguesa Maria de Medeiros. A atriz veio ao Brasil para divulgar o documentário, uma das atrações da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Em entrevista ao UOL, em São Paulo, a diretora explica que utilizar a emoção transmitida pelas personagens foi a melhor ferramenta para reconstruir os acontecimentos durante os períodos militares no Brasil e no Chile. "Ao fazer o filme, me dei conta de que quanto mais eu buscava o lado pessoal, mais eu chegava aos fatos históricos", explicou.

O longa recolhe os depoimentos de Denise Crispim, perseguida política em São Paulo desde a juventude, que precisou enfrentar uma gravidez na prisão, aguentou a morte do irmão e do marido pelas mãos dos órgãos de repressão e precisou fugir até do Chile para finalmente encontrar a paz relativa na Itália.

Maria de Medeiros descobriu a história comovente de Denise e sua família por meio da atriz Ana Petta, que atua no filme "Mundo Invisível", codirigido pela portuguesa e também em cartaz na Mostra. Petta também colaborou com a diretora na realização de "Repare Bem".

Quando a dupla desejou fazer um filme sobre a ditadura brasileira, receberam a trajetória de Denise como sugestão da Comissão de Anistia e Reparação, órgão criado em 2001 pelo Ministério da Justiça para julgar pedidos de reparação por parte de perseguidos políticos.

Três gerações
Ainda que o documentário conte com os depoimentos apenas da mãe e da filha Eduarda, a avó Encarnação também está presente a todo instante, tanto nos relatos como em fotos. "No filme nós vemos duas mulheres, mas na verdade nós retratamos três", afirma a diretora. "É toda uma família dedicada à luta por justiça, que passou por provas terríveis e conseguiu se reconstruir."

No filme, o relato duro e sofrido de Denise é contraposto pelo depoimento doce de Eduarda, uma pessoa que pode apenas especular sobre o próprio pai, o militante de esquerda Eduardo Leite "Bacuri", um dos responsáveis por orquestrar o sequestro do cônsul japonês Nobuo Okushi e do embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben.

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    Denise Crispim chora ao se lembrar das atrocidades vividas durante a ditadura brasileira

Detido por Sérgio Paranhos Fleury, delegado conhecido pela truculência e atos de tortura durante o período militar em São Paulo, Bacuri passou por 109 dias de tortura, morrendo antes de conhecer a filha -- com orelhas decepadas, sem poder andar e com diversos hematomas e cortes profundos pelo corpo.

Do pai, Eduarda guarda uma camisa e duas fotos -- uma delas tratada por ela no computador para retirar as manchas da pele. Morando atualmente na Holanda, a mãe de duas crianças se esforça para imaginar algo que o pai a tenha dito. "Acho que a filha é a mais ferida das três, ela precisa reconstruir sua história a partir do nada, da ausência", comentou a cineasta portuguesa.

Durante o trabalho de um ano para lançar o filme, Maria relata como é comum para pessoas que sobreviveram à tortura carregar um sentimento de culpa por terem aguentado as privações. Denise chega a relativizar a gravidade do que passou por conta da comparação com casos mais atrozes de violência física, como o do marido Bacuri. "Ela chega a relatar isso no filme, o fato de ter vegonha de não ter sido torturada", disse Ana Petta.

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    Eduarda Crispim, filha de Denise, busca a identidade do pai morto durante a ditadura

O longa é a segunda incursão de Maria de Medeiros no universo das ditaduras, doze anos depois de lançar o drama "Capitães de Abril", que conta a história da Revolução dos Cravos, movimento responsável pelo fim do regime de 36 anos de Antonio Salazar em Portugal.

Mesmo experiente no cinema e com passagens como atriz por produções como o blockbuster "Pulp Fiction", de Quentin Tarantino, a portuguesa precisou sentir na pele uma das dificuldades do ofício de documentarista.

"Nas primeiras filmagens, quando a Eduarda começou a chorar, eu desliguei a câmera", revelou, comentando o erro ao deixar de registrar um momento comovente. "Comecei a chorar também, mas Denise estava me oferecendo algo íntimo e eu deveria estar lá, quietinha, captando esse depoimento precioso."

Além dos dois trabalhos em cartaz na Mostra como diretora, Maria de Medeiros poderá ser vista como atriz no longa "Não Estou Morto", de Mehdi Ben Attia. A passagem por São Paulo ainda conta com duas apresentações de Maria como cantora.


Serviço

Quando: sábado (27), às 19h50     
Onde: Cinemateca Brasileira - Largo Senador Raul Cardoso, 207 - Vila Clementino (sessão 814)

Quando: segunda-feira (29), às 14h
Onde: CineSesc - Rua Augusta, 2075 - Consolação (sessão 1016)

Quando: terça-feira (30), às 18h30
Onde: Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 1 (Rua Frei Caneca, 569 - sessão 1039)

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