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Um testamento em aberto para Manoel de Oliveira, 104 anos

Manoel de Oliveira lança "O Estranho Caso de Angélica" no festival de Cannes, em 2009 - Getty Images
Manoel de Oliveira lança "O Estranho Caso de Angélica" no festival de Cannes, em 2009 Imagem: Getty Images

Inácio Araújo

Colunista do UOL

11/12/2012 17h12

De algumas poucas coisas a gente pode dizer: eu estive lá. Eu estive no Action République, em 1976 (ou 1977?). Quem me arrastou “para ver um filme português” foi Ignacio Fuentes, cinéfilo colombiano radical, o mais radical que eu conheci.

Eu, que pouco tempo antes tinha visto “Tras os Montes”, que é uma beleza de filme (de Antonio Reis e Margarida Martins Cordeiro) estava animado com a perspectiva de um cinema português que recomeçava, pós 25 de abril.

Fiquei bem menos animado ao saber que o “Amor de Perdição” a ser exibido tinha quatro horas de duração. Um filme português de quatro horas era, naquele momento, para a gente ao menos desconfiar.

A sala estava cheia. Lotada. Quem fazia a apresentação era ninguém menos que Serge Daney, o grande crítico de sua geração.

Manoel estava lá. Era um velhinho (assim me pareceu). Beirava os 70 anos. Em princípio, podia-se acreditar que recebia o reconhecimento parisiense (ou seja, europeu) e tchau.

Ele tinha, na minha lembrança, mais ou menos as mesmas feições de hoje. E hoje (ou até pouco tempo atrás) Oliveira parece que tem uns 70 anos.

E ele tomou a palavra. E reclamou à beça das novelas brasileiras, que tomavam o lugar das produções portuguesas, de tal modo que seu “Amor de Perdição”, originalmente uma série para TV, nem passou por lá.

Foi sempre assim, aliás: o mundo inteiro bota o cinema de Oliveira nos cornos da Lua. Em Portugal tratam ele como um ninguém. É sempre assim...

O fato é que as quatro horas do filme passaram como um raio, tal a beleza, tal a espessura, tal o prazer que o filme proporcionava aos olhos do espectador. Um transe, uma coisa muito especial.

Manoel de Oliveira faz 104 anos e tem
planos para filmar Machado de Assis

  • Getty Images

    O mais velho dos cineastas em atividade, o português Manoel de Oliveira, comemora nesta terça-feira (11) 104 anos ainda trabalhando, apesar de seus problemas de saúde e dificuldades para obter meios financeiros para seus novos projetos.

Depois, sua opinião sobre as novelas mudou bastante. E com a mudança veio a admiração por Lima Duarte, com quem ele trabalhou no seu filme sobre o Padre Vieira.

Desde aquela tarde no Action Republique sempre me impressionou a vivacidade de Oliveira, a capacidade de observar e captar o mundo ao seu redor com um olhar vasto.

E de, depois, introduzir nele o tempo como um fator decisivo: podia pular de um século a outro, de um presente a outro como se fosse a coisa mais simples do mundo. Assim é com seu filme mais impressionante, “A Carta”, adaptação assombrosa da “Princesa de Clèves”.

Pouca gente no cinema mundial tem as antenas tão ligadas quando ele. Enquanto ao seu lado fazem esteticismos e brilharecos, ele se sai com a coisa mais simples do mundo, quase um teatro filmado, com o nome “Gebo e a Sombra”: a crise econômica (e quem paga por ela) observada com uma crueldade exemplar.

Mas se é humor que pedimos, basta ver o pequeno episódio que fez para o filme da Mostra, a última produção de seu amigo Leon Cakoff: um esquete em que, em poucos minutos, nos fala dos novos meios de comunicação (celulares em particular) com uma acuidade que seus críticos lusitanos nem sonhariam em ter (eu tampouco, aliás).

Essa vivacidade, talvez até sentido de urgência de um ex-corredor de automóveis, esse permanente humor que mantém os olhos abertos para as coisas Oliveira preserva ainda hoje: quase um fenômeno. Todo mundo sabe, ser cineasta é uma questão, em grande medida, de força física.

Que dizer diante disso? Longa vida a Manoel de Oliveira. Tantas vezes pensamos, sobre um ou outro filme, “eis aí o testamento de Oliveira”... Que testamento que nada. Ele está aí, com seu jeitão de 70 anos. E que assim fique por muitos anos ainda.

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