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Ang Lee coloca tecnologia a serviço da história para adaptar "As Aventuras de Pi"

Divulgação
Cena de "As aventuras de Pi", de Ang Lee Imagem: Divulgação

Roberto Sadovski

Do UOL, em São paulo

21/12/2012 15h52

“Vou te contar uma história que fará você acreditar em Deus.” Assim, Pi Patel, professor e pai de família, resume o relato mais impressionante de sua vida ao jornalista que o procura. Ang Lee, diretor de "As Aventuras de Pi", poderia se apropriar da frase. Mas ele não tem pretensões de fazer você abraçar uma religião ou crer num poder divino. O que o cineasta parece mirar com a adaptação do livro de Yann Martel é que a fé, ou nossa capacidade de enxergar numa verdade além de nossos olhos, está atrelada ao nosso desenvolvimento como povo. À nossa sobrevivência. Mesmo que essa constatação surja de uma história que, de tão fantástica, só pode ser verdadeira.

Pi Patel (quando adulto interpretado pelo brilhante Irrfan Khan, o inspetor de polícia de "Quem Quer Ser Um Milionário?", recebe a visita de um escritor disposto a ouvir sua história. Vivendo no Canadá, Pi conta que, quando jovem, sua família partiu da Índia em um cargueiro, levando junto todos os animais do zoológico mantido por seu pai. É incerto dizer que o acaso colocou uma tempestade no caminho do navio, ou o destino fez com que ele fosse a pique. Mas é num piscar de olhos que Pi, então adolescente (e vivido com fúria pelo estreante Suraj Sharma), se torna o único sobrevivente, preso em um bote salva-vidas com uma orangotango, uma zebra, uma hiena... e Richard Parker – que é um majestoso tigre de Bengala. A natureza segue seu curso de seleção natural, deixando Pi e Parker sozinhos em seu tormento. E, durante 227 dias (!), homem e fera precisam desenvolver uma relação simbiótica para sobreviver.

Por anos, o roteiro de "As Aventuras de Pi" circulou por entre nomes de peso em Hollywood, como M. Night Shyamalan e Alfonso Cuarón, mas nenhum deles quebrou a fórmula para traduzir as palavras de Martel (e o roteiro assinado por David Magee) em som e luz.

Ang Lee, eclético em suas escolhas como diretor (de "Razão e Sensibilidade" e "O Tigre e o Dragão" a "Hulk" e "O Segredo de Brokeback Mountain"), enxergou ali um desafio. Acreditou que o segredo era a imersão da plateia na história se fosse filmada em 3D. Técnica e talento tornaram-se sensibilidade e delicadeza. E "As Aventuras de Pi" ganhou vida.

As imagens pintadas por Lee não são menos que espetaculares. Mas toda a tecnologia está à serviço da história. Ele toma seu tempo para armar o destino de Pi, primeiro o apresentando como um jovem interessado nos mecanismos da fé --hinduísta por criação, sua curiosidade o faz abraçar também o catolicismo e o islamismo, tudo ao mesmo tempo! Sua relação com a fé é o que o mantém lúcido após o acidente que o isola com Richard Parker, e essa fibra faz as provações não se tornarem um fardo fatal, e sim obstáculos para uma melhor compreensão do que é viver. A criação do tigre é outro triunfo. Embora um animal real tenha sido usado em alguns closes, o Richard Parker que interage com Pi é uma criação totalmente digital. Mas é um verdadeiro desafio descobrir onde a criatura em cena não é real.

Ou melhor, não existe desafio em buscar a tecnologia. E nem em desvendar de que forma Ang Lee capturou imagens tão belas e tão ameaçadoras --da explosão de cores com que ele mostra a Índia aos momentos de puro terror enfrentados por Pi e seu companheiro quando o mar desperta de mau humor e despeja toda sua fúria. A imersão é total e inevitável.  "As Aventuras de Pi" traça uma trajetória entre o real e o imaginário, o divino e o profano, a vida e a morte. É um filme que desafia a platéia a se questionar, que revela emoções e sensações latentes. É o poder da imagem e da luz à serviço de uma história tão fantástica que só pode ser verdadeira. E não importa se sua crença é em Deus, em Alá, Buda ou Gannesh: você também vai acreditar.