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Novo "Midas" do cinema nacional, Santucci diz: "De Pernas pro Ar foi um ato de desespero"

Mariana Viana/Divulgação
O diretor durante filmagens do "De Pernas Pro Ar 2" em Nova York. Com mais orçamento, "De Pernas Pro Ar 2" estreou em 700 salas. Imagem: Mariana Viana/Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

22/02/2013 05h00

Há quase cinco anos, Roberto Santucci estava desolado ao tentar ganhar a vida com o cinema. Formado na UCLA (Universidade da Califórnia), o diretor não estava acostumado com número de espectadores e cifrões, não dispunha de uma parceria com distribuidores e produtores, e seus filmes mal viam a luz no fim da sala escura do cinema.

O "De Pernas Pro Ar" foi um golpe de desespero da minha parte

Roberto Santucci

Em um momento em que descreve como “desesperador”, leu uma matéria sobre Érica Rambalde (empresária que trocou a carreira no mercado financeiro para vender produtos eróticos). O click surgiu. “Eu olhei para aquilo e pensei: preciso fazer um filme que os caras queiram fazer. Fiz uma minissinopse sobre uma workaholic que começa a vender produtos eróticos, vendi a ideia e o Bruno Wainer, da (distribuidora) Downtown, disse: Pô, cara, agora sim vamos trabalhar juntos. Agora você vai fazer cinema direitinho, com produtores, orçamento, tudo bacana. Aí estourou”, conta. “O  ‘De Pernas Pro Ar’ foi um golpe de desespero da minha parte”.

O momento de desalento foi um divisor de águas. Segundo o Filme B, portal que monitora o mercado, “De Pernas Pro Ar” estreou em 2010, rendeu R$ 31 milhões, somou 3,5 milhões de espectadores, deu destaque à atriz Ingrid Guimarães, e gerou comentários nos elevadores e mesas de bares. Santucci começava ali o caminho rumo a posição que ocupa hoje, o de “midas” do cinema nacional: onde tocou, ouro virou.

Dia dos Namorados (2013)
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Para o alívio do mercado - e do cofre de produtores e distribuidores -, o carioca de 45 anos foi responsável por catapultar os números da Agência Nacional do Cinema (Ancine) em 2012. Dos 15,5 milhões de espectadores que escolheram uma produção brasileira, pouco mais de 25% assistiram a um filme seu. “Até Que a Sorte Nos Separe” se tornou o longa nacional mais visto no ano (3,3 milhões de espectadores) e “De Pernas Pro Ar 2” levou 561 mil pessoas somente no fim de semana de estreia – o último antes de 2013.

Para se ter uma ideia do poder desses números, no primeiro semestre, antes das duas estreias, o público das produções brasileiras beirava os 5%.

Os últimos três filmes de Santucci também garantiram um lugarzinho ao sol no top 10 de maiores bilheterias depois da retomada – um fenômeno visto apenas nos anos 80, com os filmes do Os Trapalhões.

Embora nunca tivesse pensado em dirigir uma comédia, Roberto Santucci se transformou em um especialista no gênero. Antes de estourar, porém, o diretor fez “Olé – Um Movie Cabra da Peste” (2000). Falado em inglês, a “aventura dark” (como Santucci descreve o filme) passou em branco. Em 2002, no entanto, conquistou certa repercussão ao ser convidado para dirigir a adaptação do livro “Bellini e a Esfinge”, de Toni Bellotto.

O cara não é muito antenado, você pergunta sobre TV, ele não viu. Ele vive em uma coisa particular, mas se conecta com o gosto popular, tem o faro do que o público quer ver

Bruno Weiner

“Eu ainda não conhecia o trabalho dele. Ele tinha acabado de chegar dos Estados Unidos. Logo vi alguns de suas curtas metragens e percebi que era um diretor competente e com uma concepção de cinema bastante adequada ao que procurávamos para o Bellini”, conta o guitarrista-escritor.

Seis anos depois, fez o thriller “Alucinados”, com Tarcísio Filho. Ganhou prêmios em festivais, sempre na votação de público, mas nunca estreou. Percebeu, então, que mais difícil que fazer um filme era lançá-lo.

“Se fosse fácil, daria pra construir um cinema e colocar seu filme ali. Você ter a atenção das pessoas para seu filme é algo difícil. E custa uma fortuna”, afirma o diretor, em entrevista ao UOL, na semana em que “De Pernas Pro Ar 2” passava dos 4 milhões de espectadores e ainda se mantinha entre os mais assistidos.

No momento em que apresentou o projeto de “De Pernas Pro Ar”, Santucci entrou de cabeça no mercado que, embora carente de Oscar, vem adquirindo músculos em uma engrenagem parecida com a indústria de Hollywood.

“O Santucci é o cara da ideia. Isso vale ouro. Dirigir um filme, numa boa, com todo respeito aos diretores, é um ofício. Ele se revelou - e é engraçado, me sinto um pouco responsável por isso - um cara com ideias originais. Temos três projetos em desenvolvimento e todos serão um sucesso”, explica Bruno Weiner, com satisfação: “É um prazer indescritível fazer sucesso, vender milhões de ingressos”.

Desemprego, então, nunca mais. Logo depois de estrear sua primeira comédia, Santucci foi contratado pela produtora Gullane Filmes para dirigir “Até Que a Sorte Nos Separe”. Mesmo com um trabalho comissionado, Santucci e o roteirista Paulo Cursino (que, ao lado do ator e roteirista Marcelo Sabak, é um dos parceiros que mais recebe agradecimentos do diretor) tiveram carta branca para revirar o roteiro – liberdade que ele só comemora. “Tenho autonomia, posso mexer nos roteiros e escolher os atores. É tudo uma conversa, que às vezes é dura”, explica.

Quando ele confia no ator, ele sai de cena e deixa a gente brilhar. Comediante é exibido e precisa de espaço para o improviso

Ingrid Guimarães

O diretor dá exemplos: já teve que aceitar o nome de um ator contra sua vontade (“decisão que se mostrou muito acertada depois”, avalia), mas também já bateu o pé por uma determinada atriz. “A Danielle Winits (a Jane de “Até Que a Sorte...”) foi uma escolha minha. O Marcelo Sabak disse que ela era boa, que tinha origem no teatro. Ela veio fazer o teste e eu falei: Caraca, é ela!”, conta.

“O legal é que eles (os parceiros) se arriscam demais. Para um distribuidor colocar R$ 5 milhões só de verba de lançamento, é complicado, é muito dinheiro”, comenta o diretor.

O marketing em torno dos filmes de Santucci realmente é colossal. Com co-produção da gigante Globo Filmes, “De Pernas Pro Ar 2” é citado até por personagens de novelas globais. Não à toa, teve uma estreia impressionante em 700 salas. “Não há sucesso se o filme não for vendável. Se o filme não agradar ao público, não adianta marketing”, explica Bruno. Ser uma comédia, então, resolve muito desses problemas.

“No começo havia a aposta, afinal o Santucci estava filmando pela primeira vez uma comédia com orçamento. A própria Ingrid também nunca tinha protagonizado nada grande. Os riscos existiam. Mas foi uma coisa que aprendemos com o público: ou o cara ri ou não ri (com o filme)”, explica Bruno Weiner.

Pedro Butcher, do Filme B, avalia que o gênero sempre fora o favorito do público, embora tenha ficado, por um tempo, na geladeira. “O Brasil sempre teve a tradição de filmes comerciais de comédia, desde a chanchada. Algo que não aconteceu na Retomada, que teve como foco restabelecer o prestígio do cinema brasileiro. Ficou-se com vergonha da comédia, algo que resiste um pouco hoje”, observa.

Trabalhando com cinema há pelo menos 35 anos, Bruno Weiner explica que a comédia é o primeiro gênero a se profissionalizar no Brasil. “Ele entrou em ritmo de produção industrial. Você tem talentos, gente experiente e não precisa de um orçamento muito alto, gira sempre em torno de R$ 5 milhões”.

Moeda de Troca

Você ter a atenção das pessoas para seu filme é algo difícil. E custa uma fortuna

Roberto Santucci

Na posição de “queridinho do mercado”, Santucci agora diz estar ganhando dinheiro (“Com todo esse sucesso, não dá pra não ganhar dinheiro, né?”), mas visa o mercado e as comédias como moeda de troca.  “Com o resultado dos filmes no cinema, quero poder dizer: 'quero fazer outro filme, um filme de terror, um filme mais autoral, um filme sobre Daniel Dantas'”, deseja.

Bruno confirma o acordo de cavalheiros. “Já falei pra ele: a cada 10 milhões de ingressos, você pode aparecer com o filme cabeção que você queira fazer, eu banco”.

Por enquanto, falta tempo para esses projetos. “A bola está comigo na verdade, não tenho muito tempo pra ir em busca dessa história. Mas vai acontecer”, promete Santucci, sem esconder que um “thriller político” é seu atual sonho.

  • Mariana Viana/Divulgação

    A produtora Mariza Leão e do diretor Roberto Santucci em Nova York, durante as filmagens de "De Pernas Pro Ar 2"

Na agenda cheia do diretor está o trabalho de pós-produção de “Dia Dos Namorados”, com Heloisa Périssé, Daniel Boaventura e Marcelo Sabak, com estreia programada para 7 de junho. “Doidas pra Casar”, com roteiro de Sabak, é outra comédia em pré-produção. Sem contar com “Até que a Sorte Nos Separe 2”, já confirmado, e “De Pernas pro Ar 3”, cuja a continuação o preocupa um pouco. “Não queremos entrar no piloto automático”, explica o diretor. Reuniões para discutir a terceira parte das aventuras de Alice já estão marcadas com a produtora Mariza Leão, a Paris Filmes e a Downtown.

“Vamos nos reunir esta semana para ver que caminho seguir. Tenho ideias, mas não vou contar, senão acaba a surpresa! A única coisa certa é que será em outro país, ou outros países”, avisa a atriz Ingrid Guimarães.

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Roberto Santucci em:

Dia dos Namorados
Com Heloisa Perissé, Daniel Boaventura e Marcelo Sabak
Estreia: 07/06/2013

Até Que a Sorte Nos Separe 2
Com Danielle Winits e Leandro Hassum
Estreia: sem data

Doidas pra Casar
Roteiro de Marcelo Sabak
Estreia: 2014 (previsão)

De Pernas Pro Ar 3
Com Ingrid Guimarães
Estreia: 2015 (previsão, se acontecer)
 

Mesmo com o sucesso de público, as comédias de Santucci, porém, não conseguem despertar paixões na crítica. “Já fui chamado de ‘o mago da alquimia impossível que transformava o público em cadeia de fast-food’, ou algo assim”, reclama. Metade dessas críticas, ele acredita que são direcionadas ao gênero. “Existe um preconceito e uma arrogância com determinados tipos de humor. Já ouvi dizer que o Chico Anysio era mal visto em uma época, e depois a coisa mudou”, compara.

Um dos termos mais usados nessas críticas é “estética televisiva”, embora o diretor não assista TV. “Isso é um enigma. Eu não assisto nem 'Tapas e Beijos'. Quando eu vou fazer os filmes tenho problema com os nomes para o elenco. Eu não assisto novela”, discorda.

Bruno confirma: “O cara não é muito antenado, você pergunta sobre TV, ele não viu. Ele vive em uma coisa particular, mas se conecta com o gosto popular, tem o faro do que o público quer ver”.

Em um momento de autocrítica, Santucci avalia que tem melhorado com o tempo. E com o dinheiro. “Como está provado que os filmes rendem, poderei melhorar a maneira de dirigir. Com o “De Pernas 2”, por exemplo, tive mais orçamento, mais tempo. Assim, obviamente, dá para fazer planos mais sofisticados”.

Mas o que é que há de diferente em suas comédias? Nem Santucci sabe dizer. Toni Belotto assistiu aos últimos filmes e elogia a versatilidade do diretor. “Ele funciona bem em qualquer gênero no qual se aventure, pois acima de tudo ele ama o cinema. Acho saudável essa variação de gêneros”, comenta, sem deixar de fazer um convite: “Aguardo ansioso uma volta do Santucci ao (universo de) Bellini”.

Ingrid Guimarães lembra que o primeiro contato com Santucci girou em torno de uma adaptação da peça “Cócegas” para o cinema. “Ele alugou um cinema só para gente (ela e Heloisa Périssé) e passou um filme dele: “Bellini e a Esfinge”, que não tinha nada de humor. Ele nunca tinha dirigido humor e o projeto acabou não rolando”.

Embora acredite que filmar comédia apenas pareça simples, a atriz avalia que o sucesso deve-se um pouco ao improviso. Ponto para o diretor: “Ele dá muita liberdade para os atores, me ouve em tudo, é um gentleman. Nunca brigamos. Ele embarca em todas as  loucuras que proponho, faz o take dele e depois o meu, do meu jeito”, conta. “Quando ele confia no ator, ele sai de cena e deixa a gente brilhar. Comediante é exibido e precisa de espaço para o improviso”.

Além de creditar todo o sucesso à equipe, Santucci acredita que não dá para abrir mão de uma boa história. “A gente acredita que nossas comédias têm que ser mais que uma comédia. No “Até que a Sorte”, não é só piada, tem a questão do dinheiro. Estamos falando do Brasil, que está passando por um momento de ascensão da classe C. Contar histórias verdadeiras, ter uma moral, uma lição com humor. Tem que ter uma mensagem”, explica a receita.

O mercado, o público e a crítica já sabem o que esperar nos próximos filmes.