Cinema

"Faroeste Caboclo" retrata Brasília sem exageros para novos e velhos fãs

Paulo Marchetti*

Do UOL, em São Paulo

Você quer saber a verdade sem rodeios? Vale a pena sair de casa para assistir "Faroeste Caboclo"? Sim. O filme é muito bom. Para assisti-lo é preciso conhecer a música ou gostar de Legião Urbana? De forma alguma.

Eu tinha recém chegado a São Paulo, no início de 1987, quando me contaram que a Legião estava em estúdio gravando disco novo com músicas do velho repertório da banda. Entre as músicas estava “Faroeste Caboclo”. Me espantei: “Mas como? É chata pra dedéu.” E era mesmo. Apesar de a letra ser legal (nenhum amigo contestava isso), a música ficava por 10 minutos naqueles três acordes intermináveis que iniciam a música “Não tinha medo tal João de Santo Cristo...”. Não havia dinâmica, parte B ou qualquer outra mudança de andamento. Era chata mesmo!

No disco, “Faroeste Caboclo” surpreendeu. Baita arranjo legal. Ninguém podia imaginar que ela faria sucesso, até porque fala de maconha e tem nove minutos. Quando "Que Pais é Este?" foi lançado, era a época do péssimo governo Sarney, e foi quando o navio Solano Star passou pelo litoral brasileiro liberando latas recheadas de maconha. O trecho onde a letra diz “tem bagulho bom aí”, caiu como uma luva naquele verão 1987-88. Era cantada em uníssono nos shows.

Trailer de "Faroeste Caboclo"

Desde que a música estourou não era difícil ler nos jornais a respeito de tentativas de se fazer um filme baseado nela. O próprio Renato, quando perguntado, falava sobre essa ideia, mas não a achava viável, já que via muitos buracos na história. Ainda bem que nada foi feito, até porque naquele tempo o cinema brasileiro não tinha a qualidade de hoje.

Confesso que, ao ser convidado pelo UOL para ver o filme, fiquei com o pé atrás, por conta das decepções ao ver recentes produções ligadas ao rock de Brasília. Mas quero parabenizar e agradecer ao diretor René Sampaio e toda a equipe pelo trabalho incrível.

Incluindo aí, claro, os atores. Agradeço porque, por ser de Brasília, posso dizer que finalmente pude ver a minha cidade retratada maravilhosamente bem e sem exageros. Tem até cena de João de Santo Cristo correndo embaixo de um bloco! A trilha sonora, direção de arte, fotografia, roteiro, figurino. Tudo muito bom.

Ver Isis Valverde escutando Buzzcocks com fone e enrolando um baseado é impagável. A forma como a Turma da Colina aparece no filme é bacana. A condução da história é ótima, as cenas, os diálogos. Gostei mesmo, mas não só eu. A sessão estava lotada e a reação do público foi ótima. Muita gente ficou sentada durante os créditos para poder escutar a música.

Na sala de cinema praticamente não havia pessoas acima dos 40. 95% do público tinham entre 18 e 20 anos, ou seja, nem haviam nascido quando a música foi lançada. Tinha até pré-adolescentes.

Você até pode falar que conhece a letra e que, por isso, não precisa ver o filme. Mas não é bem assim. Quando eu soube de sua realização, me perguntei como o final seria resolvido e não só ele, mas outras passagens da letra foram muito bem resolvidas, já que seria impossível reproduzi-la literalmente. O filme Faroeste Caboclo é ótimo exemplo de adaptação e licença poética. Filme bastante divertido que arrancou risadas do público. Dificilmente irá decepcionar os velhos e novos fãs.

*Paulo Marchetti é jornalista musical e autor de "Diário da Turma 1976-1986 - A História do Rock de Brasília". O livro apresenta o início da trajetória das bandas Legião Urbana, Plebe Rude e Capital no início do cenário roqueiro brasiliense

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