Filmes e séries

Novo "Star Trek" busca público que nunca deu bola para a franquia e traz déjà vu para fãs

Salvador Nogueira

Do UOL, em São Paulo

18/06/2013 08h22

Se você nunca curtiu "Star Trek", o novo filme da série dirigido por J.J. Abrams é para você. Se você já gostava, o filme também é para você, mas prepare-se para uma boa dose de déjà vu.

Na forma, "Além da Escuridão - Star Trek" é parecido com o primeiro longa dirigido por Abrams na ressurreição da venerável franquia de ficção científica, em 2009. Ação irrefreável, um inimigo de respeito, uma mistura de novos designs com elementos clássicos e um enredo de tirar o fôlego. É a "starwarização" de "Jornada nas Estrelas", propalada aos quatro ventos por Abrams em diversas entrevistas ao longo dos últimos anos.

Não é à toa, portanto, que o diretor, até então famoso pela criação da popularíssima série "Lost", acabou ganhando para si o comando do "Episódio VII" de "Star Wars", após a venda da empresa de George Lucas para a Disney, no ano passado. (Pela primeira vez, o mesmo sujeito guiará o futuro das duas maiores franquias de ficção científica de Hollywood. Ainda não sei se os calafrios que sinto ao falar isso são de empolgação ou medo.)

Mas, voltando a Kirk e Spock, é interessante notar como Abrams e seus asseclas (basicamente a mesma equipe de produção e roteiro do filme anterior) seguiram à risca a estrutura narrativa usada em 2009. Começamos com uma cena de ação já “em andamento” ("Star Wars", alguém?), um momento dramático e então a introdução da trama que alimentará o resto do longa.

Veja o trailer de "Além da Escuridão"

No caso em si, o real ponto de partida é um atentado terrorista de autoria de um certo John Harrison, ex-membro da Frota Estelar, interpretado pelo competentíssimo Benedict Cumberbatch (o Holmes da série "Sherlock", da BBC).

A primeira meia hora do filme é genial, principalmente pelo fato de que é original. Harrison se apresenta como um inimigo formidável, sobretudo por não sabermos qual motivo ele tem para se voltar contra seus iguais e por sua capacidade de combinar boas e más ações. Trata-se de uma premissa que parece ecoar a velha Jornada nas Estrelas, em que temas da ordem do dia são transpostos para o futuro e então analisados, em meio a uma história empolgante e uma boa dose de ação. Só que não.

A predominância da forma sobre o conteúdo induz Abrams a descartar completamente qualquer desenvolvimento de personagens em favor de uma sequência interminável de cenas explosivas e câmeras frenéticas. A ideia é que o ritmo desenfreado impeça o espectador de pensar, em vez de motivá-lo a isso.

Uma das razões para essa estratégia é que a história não para em pé sem uma boa dose de tolerância a furos de roteiro. Outra é que o filme parece ter sido escrito por comitê, com uma premissa básica: “vamos incluir tudo de legal que cada um dos filmes antigos tinha em duas horas?”

O resultado é uma sequência de ecos de eventos já vistos antes, como:

- Um almirante recupera o comando da Enterprise de seu recém-promovido capitão ("Jornada nas Estrelas: O Filme")

- O uso do vilão mais famoso da franquia ("Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan")

- O sacrifício final necessário para derrotá-lo ("Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan")

- A ressurreição de um personagem querido ("Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock")

- Scotty sabotando uma nave da Frota para ajudar a Enterprise ("Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock")

- A Enterprise mergulhando na atmosfera de um planeta ("Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock")

- A explosão de Práxis, a lua de Klingon ("Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida")

- Uma conspiração para instigar a guerra entre a Federação e os Klingons ("Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida")

Entre os fãs dos clássicos, há sentimentos diversos. Por um lado, é legal ver essa reinvenção de coisas já vistas -- basicamente, o tom adotado por Abrams e companhia para esse reboot. Por outro, não dá para não pensar que rolou uma preguiça na hora de estabelecer os pontos altos do enredo.

Como também é preguiçosa a participação especial de Leonard Nimoy, o velho Spock, no novo filme. De novo os fãs se veem divididos. É sempre legal ver Nimoy vestindo orelhas pontudas, mesmo que seja por uns poucos segundos, mas a aparição não serve a nenhum propósito real na trama.

Apesar disso tudo, não pense que o filme é ruim. Não é. É bem bom. Mas o é naquilo que se propõe a ser. Os atores brilham, confortáveis em seus papéis. Chris Pine, Zachary Quinto e Karl Urban se apoderam de Kirk, Spock e McCoy de forma perfeita, e Zoe Saldaña faz mais por Uhura do que Nichelle Nichols jamais poderia ter feito na série original. O roteiro faz um trabalho competentíssimo na recriação dos diálogos e a química entre os personagens (e seus intérpretes) é perfeita.

A ação do filme também é espetacular e faz jus aos US$ 190 milhões orçados para ele. Você verá coisas que nunca antes puderam ser mostradas em "Jornada nas Estrelas", e as que você já viu antes nunca foram tão incríveis quanto agora. O 3D (obtido na pós-produção) e as cenas filmadas em IMAX são a cereja no bolo e dão imersão extra às emocionantes sequências de perseguição e às batalhas espaciais.

Contudo, é impossível não ressaltar que algo se perdeu na tradução nessa tentativa de reiniciar "Jornada nas Estrelas" do zero com uma pegada mais popular. "Além da Escuridão - Star Trek" é um ótimo blockbuster de verão, mas fica aquém do que podem esperar os velhos fãs, em termos de refletir sobre grandes questões e debater os turbulentos tempos em que vivemos.

É bem verdade que filosofia nunca produziu bilheterias assombrosas, e explosões fazem esse serviço muito bem. Mas ainda me reservo o direito de esperar o retorno de "Star Trek" à televisão -- onde o formato brilha mais -- e quem sabe com uma pegada menos espetaculosa e mais reflexiva. Se os filmes de Abrams forem o caminho para viabilizar isso, dou-me por satisfeito.

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