Filmes e séries

Comédia de Almodóvar traz humor escrachado e críticas à Espanha

Mariana Pasini

Do UOL, em São Paulo

28/06/2013 01h17

Estreia desta sexta-feira (28) dos cinemas brasileiros, "Os Amantes Passageiros" é mais um exercício de humor escrachado do diretor Pedro Almodóvar. Na produção, há quase tudo que caracteriza o trabalho do espanhol: estética kitsch, situações absurdas e atores que têm personagens marcantes em outras produções anteriores do cineasta, como Javier Cámara ("Fale com Ela"), Cecilia Roth (“Tudo Sobre Minha Mãe”) e Lola Dueñas ("Volver"). Ainda que Almodóvar não acerte a mão em todos os momentos, o resultado final é uma combinação de humor debochado e crítica sutil à atual situação da Espanha, onde o primeiro se sobressai.

Apesar de também focar na sexualidade dos personagens, a produção fica longe dos temas e diálogos densos de trabalhos recentes de Almodóvar como “A Pele que Habito” e “Má Educação”. “Os Amantes Passageiros” é marcado por piadas relacionadas às orientações e às aventuras sexuais dos personagens, atenuando o preconceito e abordando o tema de forma bem-humorada.

O filme entrelaça as histórias dos passageiros de um voo da companhia aérea Peninsula, que vai de Madri à Cidade do México. Um problema no trem de pouso força a aeronave a sobrevoar a cidade de Toledo, na Espanha, até encontrar um local para descer. Para evitar pânico, os passageiros e as aeromoças são sedados, com exceção dos que ficam na primeira classe.

TRAILER LEGENDADO DE "OS AMANTES PASSAGEIROS"

Enquanto os pilotos tentam achar uma solução para o problema, o público fica sabendo do poder sensitivo e da virgindade de Bruna (Dueñas), das atividades sexuais que deram fama à perua Norma Boss (Roth), das infidelidades e mentiras de Ricardo Galán (Guillermo Toledo), da amizade e das confissões mútuas entre os comissários de bordo Joserra, Ulloa (Raúl Arévalo) e Fajas (Carlos Areces), e das falcatruas do empresário Sr. Más (José Luis Torrijo).

Sem nenhuma vergonha, passageiros e tripulantes fazem confissões dramáticas como, por exemplo, a incapacidade de mentir de Joserra e a possível bissexualidade do copiloto Benito (Hugo Silva). Com todas essas revelações e histórias que se cruzam, é impossível não lembrar, por exemplo, de “Mulheres À Beira de um Ataque de Nervos” (1988), também de Almodóvar.

A primeira metade da produção rende risadas e parece indicar que se trata de um filme muito promissor. Os poucos minutos de Penélope Cruz e Antonio Banderas logo no início estão entre os mais engraçados do filme, talvez porque o absurdo da situação em que contracenam é verossímil.

  • Divulgação

    Antonio Banderas vive funcionário de aeroporto em "Os Amantes Passageiros"

Mas depois a produção descamba rapidamente para situações extremas um tanto sem graça. Depois de ingerir um coquetel com mescalina, quase todos os personagens são tomados por uma necessidade incontrolável de fazer sexo. O roteiro chega a incomodar por enveredar para um sexo escrachado, mas não engraçado, com cenas que chegam a sugerir estupro. 

Divulgação / Paris Filmes
O melhor a se fazer pelo povo é diverti-lo

O diretor espanhol Pedro Almodóvar, em entrevista à agência espanhola Efe

O que pode salvar o longa de ser apenas uma comédia “metade engraçada” é entendê-lo como uma metáfora de Almodóvar para a situação atual da Espanha, que enfrenta uma grave crise econômica. Como a maioria dos passageiros do voo, o povo não tem direito de saber sobre a gravidade da condição em que se encontra, pois foi embriagado pelos detentores do poder (os comissários de bordo).

Apenas quem está na primeira classe sabe o que está havendo e pode tentar fazer algo, mas as pessoas ali são tomadas por problemas pessoais e terão, cedo ou tarde, que resolver as situações complicadas em que eles próprios se colocaram. E enquanto isso, o avião continua no ar, como uma tragédia iminente.

Ainda que a alusão à situação espanhola possa não ser muito clara para quem não habita o país, com “Os Amantes Passageiros” Almodóvar leva a sério a declaração que deu em recente entrevista à agência Efe: “O melhor a se fazer pelo povo é diverti-lo". Com uma metáfora um tanto sutil, é o humor -- ou a tentativa dele --  que ganha mais destaque na produção.

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