Filmes e séries

Filme 3D de One Direction tem histeria e preocupação com fama passageira

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

Há uma cena no filme "One Direction: This is Us" em que Simon Cowell, o criador de “X-Factor” e empresário da boy band, afirma não ter a resposta para tamanha histeria e devoção por parte das fãs.

Morgan Spurlock, o diretor do documentário em 3D sobre o grupo britânico, que estreia no Brasil nesta sexta-feira (6), vai buscar resposta na medicina. Um neurologista avalia que a emoção e os suspiros reproduzidos são uma reação do cérebro, derivado de um sentimento de alegria que a música -–e a imagem daqueles jovens bonitos e impecavelmente bem vestidos – provocam.

Faz sentido. Mas o que esses meninos têm para provocar toda essa reação química e física? Spurlock, que vem de documentários controversos como “Super Size Me” e “Where in the World Is Osama Bin Laden?”, registra as reações, as lágrimas e até um ou outro marmanjo que se destaca no mar de garotas com alguma mensagem pintada na barriga. A câmara também gruda em Niall Horan, Zayn Malik, Liam Payne, Louis Tomlinson e Harry Styles em busca de alguma intimidade ou respostas mais concretas, mas o resultado é apenas a celebração de todo o fanatismo que cerca o grupo.

As imagens de bastidores são tão programadas como o próprio show que intercala cenas durante o longa. Assim é quando os integrantes acampam na floresta (na verdade, tentam desastradamente erguer as barracas) ou quando aparecem correndo e bagunçando durante a passagem de som, sendo perseguidos pelos guarda-costas. Cenas que estão lá para mostrar que eles são jovens tatuados e sexys, mas também simples, divertidos e inocentes, como alguém normal.

TRAILER LEGENDADO DE "ONE DIRECTION: THIS IS US"

Para corroborar a ideia de que esse fanatismo só foi visto com os Beatles, na origem da beatlemania, em 1963, Spurlock ouve jornalistas (que participam apenas com uma frase) e faz questão de ter sua cena de perseguição de fãs, clássica do filme dos fab four, “Os Reis do Iê Iê Iê”. Na versão do One Direction, eles são reconhecidos durante visita em uma rua movimentada de Amsterdã e acabam se refugiando em uma loja de calçados.

Os momentos mais sinceros do filme, no entanto, ficam à margem. É interessante ver a mistura confusa de sentimentos dos pais dos integrantes. Uma mãe chega a pedir um display de papelão do filho em uma loja “para matar a saudade” e outra analisa a importância e a fama do herdeiro: “A gente quer mostrar o mundo para um filho. Mas na verdade, é ele que está mostrando isso para gente”.

A busca pela essência de cada integrante chega a levar Harry Styles na confeitaria onde trabalhava antes da fama, mas os meninos abrem mesmo o coração para uma dúvida mais profunda: até quando eles vão ter o mundo nas mãos?

Niell, o único que toca instrumento durante o show, se pergunta, olhando a paisagem pela janela de um ônibus, durante a extensa e cansativa turnê. “Não quero ser uma dessas bandas que desaparecem”, revela. Seus companheiros dividem a angústia e se questionam: o que vão fazer quando os flashes e os gritos cessarem? Embora sejam novos e tenham um harém de fãs aos seus pés, é uma dúvida que persiste e incomoda.

Mas para que ficar remoendo possibilidades? “This is Us” é mais um produto dentro do mecanismo mainstream do pop que se auto alimenta: mais fãs, choros e gritos. Dito isso, não é um filme ruim. Ao contrário. É tecnicamente perfeito. Usa bem o 3D, principalmente nas cenas do show. As fãs certamente terão palpitações ao verem seus ídolos de perto, trocando de roupas ou se tornando super-heróis no palco graças a edição esperta e frenética.

Até o prestigiado diretor Martin Scorsese aparece no filme, por culpa talvez da filha mais nova. No camarim do One Direction, ele estende a mão aos rapazes: “Ouvi a música de vocês e gostei muito. Minha filha sempre apresenta coisas pra mim”. A participação relâmpago do diretor de documentários musicais importantes como “O Último Concerto de Rock”, “Bob Dylan: No Direction Home” e “Rolling Stones: Shine a Light” parece servir como carimbo da importância do grupo – e do próprio filme – mas só reforça mesmo o gosto de tudo que o documentário poderia ser, e não é.

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