Cinema

Festival de Brasília dá sinais de enfraquecimento, mas é sucesso de público

Carlos Minuano

Do UOL, em Brasília

Se por um lado o Festival de Brasília, que encerra nesta terça-feira (24) dá sinais de enfraquecimento por formato segmentado, falhas e debandada de filmes para outras mostras, em outra margem, resiste como um importante espaço para produções independentes e experimentais. E mantém-se como polo efervescente de encontros e discussões sobre os rumos do cinema nacional.

Na opinião do diretor José Eduardo Belmonte ("Billi Pig"), o excesso na segmentação é um dos pontos negativos do atual formato da mostra – o mais antigo do país e um dos poucos que ainda contempla exclusivamente o cinema nacional. “Divisão entre documentário e ficção é um conceito muito antigo, é preciso repensar isso”, afirma.

A mostra competitiva começou também com um tropeço técnico na exibição de “Os Pobres Diabos”, longa cearense do cineasta Rosemberg Cariry, que saiu prejudicado da disputa. A exibição na primeira noite teve que ser cancelada por falhas na projeção, sendo exibido, do começo ao fim, na sexta-feira (20), porém a um público reduzido. Programada para 22h30, a sessão começou quase meia-noite, com menos da metade da sala ocupada.

Apesar do prejuízo para seu filme, Cariry não reclamou. “É uma glória subir nesse palco pela segunda vez, estamos agradecidos e comovidos”, disse antes da exibição, se referindo à solidariedade de colegas e do público. O filme recebeu um longo (e merecido) aplauso de quem resistiu até o final da exibição, por volta de 1h30 da madrugada.

O filme de Rosemberg não foi o único a sofrer com problemas na projeção. Maria Augusta, diretora do documentário carioca “Morro dos Prazeres”, reclamou da tensão na hora de testar a cópia. “Falhou várias vezes, foi estressante, mas na exibição correu tudo bem”.

Outros empecilhos atrapalharam a edição deste ano do Festival de Brasília. Os ajustes na grade de programação afetaram o Festivalzinho, de curtas infantis, que teve sua programação suspensa durante o fim de semana.

E “A Estrada 47”, de Vicente Ferraz, selecionado para a mostra competitiva de longas de ficção, declinou da participação. Por decisão da distribuidora, a Europa Filmes, vai estrear na mostra Première Brasil, do Festival do Rio, que acontece de 26 de setembro a 10 de outubro.

Em seu lugar, entrou o pernambucano “Amor, Plástico e Barulho”, de Renata Pinheiro, umas das sessões mais cheias do festival. Quase faltou espaço no chão para acomodar o público.

Sucesso de público

Apesar dos problemas, o festival foi um sucesso de público. O Cine Brasília, que acaba de passar por reforma, esteve lotado em quase todas as sessões que a reportagem do UOL acompanhou. Um vigor que se contrapõe à percepção de parte da crítica, e de alguns cineastas, quanto a seu provável enfraquecimento.

Uma das vozes em defesa da relevância do Festival de Brasília é a de Ralfe Cardoso, um dos organizadores do Festival de Cinema de Gramado. “Tem virtudes inquebráveis, é fonte de inspiração para outras mostras”, garante.

Ele rebate o argumento de que seja um equívoco a opção pela divisão em segmentos – documentários, curtas locais, longas ficcionais e animação. “Torna as coisas mais visíveis, seja para o público, realizador ou organizador”.

A atriz Silvia Buarque (de "Os Pobres Diabos"), afirma não ter ainda uma opinião formada sobre o assunto, mas concorda com Cardoso. “Acho complicado ir a um festival com seis longas, em que três são ficção e os outros, documentários, do ponto de vista do ator, a competição fica mais fácil”, diz.

Já para o cineasta brasiliense, André Miranda, a segregação do festival veio dentro de um pacote equivocado de renovação, que inclui ainda o aumento na premiação para atrair mais o gênero ficcional, que andava sumido de Brasília. “Foi a forma encontrada para resolver esse problema, estavam com muito mais documentários, houve uma edição com apenas um longa de ficção”.

Nesta edição da mostra competitiva serão R$ 700 mil em premiações. O melhor longa de ficção leva o maior prêmio, de R$ 250 mil. O melhor documentário fica com o segundo prêmio, de R$ 100 mil. Os filmes vencedores serão anunciados nesta terça-feira, (24).

 

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