Cinema

Norma Bengell é cremada no Rio; Barreto critica ausência de artistas

Marcela Ribeiro

Do UOL, no Rio

A atriz e cineasta Norma Bengell, morta na quarta (8), no Rio, aos 78 anos, foi cremada no início da tarde desta quinta-feira, no Memorial do Carmo, no Caju. Depois de um breve velório na capela nove do próprio Memorial, acompanhado por cerca de 15 pessoas, o corpo de Norma seguiu para o crematório por volta das 14h.

Nesta última etapa do velório, apenas três representantes da classe artística compareceram para homenagear a atriz: os cineastas Luiz Carlos Barreto, Paulo Thiago e Roberto Farias.

"Quero protestar pela falta de colegas, atores, atrizes e diretores que trabalharam com Norma no cinema e na TV. Inclusive os que trabalharam nos anos 50, 60 e 70. Isso é um preconceito, porque, em todas as notícias, sempre citam que ela teve problemas com o TCU [Tribunal de Contas da União], sendo que ela sempre foi inocente. Ela era uma artista, não entedia dessa burocracia toda", criticou Barreto.

"Não veio nenhum representante do Ministério da Cultura, isso é um absurdo. Ela sacrificou sua saúde. Uma das causas de sua morte foi essa injustiça, que lhe causou muita tristeza. Ela ficou deprimida depois que bloquearam seus bens. Só num país como o nosso alguém que fez o que ela fez termina desse jeito", protestou o produtor.

O cineasta Paulo Thiago também expressou o mesmo sentimento. "Os artistas não são valorizados nesse país. A Norma foi uma artista incrível e ainda lutou contra a ditadura. Onde estão os atores e atrizes que trabalharam com ela?"

A cuidadora Luciene Marques, que acompanhou os últimos cinco anos de Norma, também reforçou a solidão da atriz. "Os últimos dias da Norma foram de solidão, luta e correria, com ela querendo sair desse quadro e reviver. Ela lutou muito pela vida", afirmou. "No hospital, ela só teve a visita dos primos Eriberto e Sueli. O único amigo que ela teve esse tempo todo, que nunca deixou de ligar, foi o Ney Latorraca", completou.

Sobre a Ação Civil Pública em que Norma era ré, iniciada depois que o TCU rejeitou a prestação de contas dos filmes "O Guarani" e "Norma" (que não chegou a ser produzido), Luciene disse esperar que a questão se encerre com a morte da atriz. "Ela ficou muito preocupada com o dinheiro que estava devendo, mas não era a culpada dos processos. Pessoas envolvidas é que a prejudicaram. Ela não tinha culpa, mas acho que, com a morte dela, esse assunto vai se encerrar".

De acordo com Luciene, artistas como Faustão, Miguel Falabella, Daniel Filho e Jô Soares ajudavam com os remédios de Norma, enquanto o cantor Milton Nascimento pagava o plano de saúde da atriz e arcará com as últimas despesas do hospital.

O velório e a cremação serão pagos pela RioFilme, órgão de fomento ao cinema da prefeitura do Rio.

Apesar de ausentes, a presidente Dilma Roussef, o prefeito do Rio Eduardo Paes e o cantor Milton Nascimento enviaram coroas de flores.

Morte

Norma Aparecida Almeida Pinto Guimarães D'Áurea Bengell, conhecida como Norma Bengell, morreu por volta das 3h da madrugada de quarta, na unidade Bambina do Hospital Rio Laranjeiras. Ela tinha 78 anos.

Bengell foi diagnosticada há cerca de seis meses de câncer no pulmão direito, e estava no Centro de Tratamento Intensivo do hospital desde o último sábado.

O velório foi realizado na noite de quarta e madrugada de quinta, no cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio, com a presença de artistas e amigos da atriz, como Ney Latorraca, Lucy e Luiz Carlos Barreto, Carla Camurati e Silvio Tendler. Latorraca afirmou que Norma "deixa uma mensagem de liberdade".

Durante o velório, Luciene Marques, acompanhante de Norma há cinco anos, contou que ela vinha passando por dificuldades financeiras e que se sentia abandonada pelos antigos amigos.

Conheça a trajetória
Norma Bengell nasceu no Rio de Janeiro, onde começou a se apresentar como vedete do teatro de revista aos 16 anos. Também foi cantora e gravou versões de “A Lua de Mel na Lua” e “E Se Tens Coração”.

O primeiro LP, "OOOOOH! Norma", viria em 1959, no mesmo ano de sua estreia no cinema, na comédia “O Homem de Sputinik”, em que interpretava um símbolo sexual, em uma clara analogia com a atriz Brigitte Bardot.

Com o sucesso no cinema, Norma se voltou quase totalmente para a sétima arte. Em 1961, estrelou o filme "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes.

  • Reprodução

    Cena de "Os Cafajestes"

Primeiro nu frontal no cinema nacional
A atriz entrou para a história ao protagonizar a primeira cena de nu frontal do cinema brasileiro, aos 26 anos. A cena, um avanço para a época, fez parte do filme “Os Cafajestes”, de 1962, dirigido por Ruy Guerra.

A exposição internacional -- e a repercussão de “Os Cafajestes” -- a levou a trabalhar no cinema europeu. Segundo a própria atriz, chegou a conhecer e namorar o ator francês Alain Delon. Fez filmes na Argentina (“Sócio de Alcova”) e na Itália (“Mafioso”, de 1962, e “Os Cruéis”, de 1967). 

Com o sucesso, engatou quase um filme por ano, participando de produções que marcaram a história do cinema nacional, como "A Casa Assassinada" (1971), de Paulo Cesar Saraceni; "A Idade da Terra" (1980) , de Glauber Rocha e "Rio Babilônia" (1982), de Neville d'Almeida. Em “Noite Vazia" (1964), de Walter Hugo Khouri, interpretou uma prostituta ao lado de Odete Lara e do ator italiano Gabriele Tinti, com quem foi casada de 1963 até 1969.

Por sempre atuar em peças e filmes alvos dos censores da ditadura militar, a atriz alegava ter sido perseguida, o que a obrigou a se exilar na França em 1971. Em 2010, a Comissão de Anistia reconheceu a atriz como anistiada política e concedeu uma reparação econômica de cerca de R$ 100 mil.

Carreira como diretora
Estreou como diretora em 1988, em “Eternamente Pagu”, sobre a escritora modernista. Ainda atrás das câmeras, adaptou o clássico "O Guarani", de José de Alencar, para o cinema, em 1997. Em 2005, voltaria a focar em histórias de grandes mulheres como “Infinitamente Guiomar Novaes”, um documentário sobre a pianista morta em 1979, e “Magda Tagliaferro - O mundo dentro de um piano”.

No teatro, subiu aos palcos em 1968, sob a direção do então estreante Emilio Di Biasi em "Cordélia Brasil", primeiro texto do escritor e dramaturgo Antônio Bivar. Em 1976, faz "Vestido de Noiva", de Nelson Rodrigues. A atriz retornaria ao texto clássico, em 2008, com a Cia. Os Satyros, sob a direção de Rodolfo García Vázquez.

Em 2007, em sua volta aos palcos, após 20 anos, teve uma crise de stress que a fez abandonar a apresentação de “O relato íntimo de Madame Shakespeare". Na época, Norma passava por um processo judicial, no qual era acusada de desviar verbas na captação de recursos para os filmes “O Guarani” e “Norma”, projeto que nunca foi concluído.

  • Reprodução

    As atrizes Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell em 1968, durante a passeata dos cem mil, em protesto contra a ditadura militar no Brasil, no Rio de Janeiro

Últimos trabalhos
Na televisão, apresentou e participou de alguns programas da TV Tupi e na TV Rio, como “Noite de Gala”. Reapareceria apenas em 2008, com a personagem Dayse Coturno, no humorístico “Toma Lá, Dá Cá”, da TV Globo.

Em 2010, uma foto sua em uma das passeatas históricas da década de 1960, durante o processo de ditadura militar, foi utilizada pela então candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, causando a acusação de uso indevido de imagem e associação da atriz. Na época, Norma desmentiu qualquer mal-estar e manifestou apoio à candidata.

Seu último trabalho foi no teatro, no mesmo ano, quando protagonizou a montagem de "Dias Felizes", de Samuel Beckett, com a direção de Emílio Di Biasi. No palco, sua vida se fundiu à história de Beckett e trechos preciosos de sua trajetória eram exibidos ao fundo.

 

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