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"La Jaula de Oro" leva prêmio da crítica e menção honrosa na Mostra de SP

Gabriel Mestieri

Do UOL, em São Paulo

31/10/2013 05h00Atualizada em 31/10/2013 22h18

Destaque em vários festivais internacionais de cinema, incluindo o de Cannes, na França - onde os três protagonistas levaram o prêmio de melhor interpretação da mostra Um Certo Olhar -, "La Jaula de Oro", de Diego Quemada-Díez, levou dois prêmios na 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O longa conquistou prêmio da crítica - escolhidos pelos jornalistas que cobrem o festival - e menção honrosa do júri.

Experiente operador de câmera que já trabalhou com cineastas como Ken Loach, Spike Lee, Alejandro González Iñárritu e Fernando Meirelles, Diego Quemada-Díez estreia na direção de longas-metragens com "La Jaula de Oro", drama que retrata a história de jovens guatemaltecos que tentam chegar clandestinamente aos Estados Unidos pelo México, pegando carona em trens. Pelo caminho, além de fugir da polícia, têm que enfrentar narcotraficantes que dominam e lucram com o trânsito ilegal de pessoas na região - os famosos "coiotes".

O filme teve um processo de pesquisa conturbado. Há dez anos, quando começou a recolher depoimentos de imigrantes para o projeto, o diretor diz ter ficado sob a mira de fuzis diversas vezes. No episódio mais grave, teve que convencer um narcotraficante da cidade de Mazatlán a não matá-lo. "Eu estava com um amigo gravando alguns meninos que brincavam na rua e de repente chegou um carro com um dos integrantes apontando a pistola para minha a cabeça", disse, em entrevista ao UOL. "Depois dele chegaram outros carros, com várias pessoas portando fuzis, e diziam que iam nos levar para algum lugar para nos matar. Ele estava louco, gritava. Era impossível argumentar com ele, porque não entendia, estava sob efeito de cocaína". O diretor conta que só conseguiu ser libertado após mostrar o material das gravações, e assegurar ao narcotraficante que ele não era alvo das filmagens.

Hoje, dez anos depois, Quemada-Díez conta que este narcotraficante - que serviu de inspiração para um personagem do filme - está morto. Assim como seis amigos do ator Brandon López e de um tio da atriz Karen Martínez, dois dos três protagonistas do longa, todos vítimas da violência. Do episódio, o diretor conta que aprendeu duas coisas: "Em primeiro lugar, que precisamos dar valor a vida. Em segundo, que é necessário pedir permissão ao chefe local do tráfico para gravar", diz.

Nascido na Espanha e radicado no México, o diretor conta que teve a ideia para o filme enquanto fazia um documentário sobre a prostituição em Mazatlán, no Estado mexicano de Sinaloa. O amigo de um taxista da cidade, onde o narcotráfico tem forte atuação, convidou o diretor para passar um tempo na casa dele, à beira da linha ferroviária que liga o sul ao norte do México. Ali, recolheu depoimentos de cerca de 600 pessoas, e os utilizou como material para a confecção do roteiro. Tudo que acontece no filme, diz, é baseado em algum desses testemunhos. "Um menino me contou sobre um assalto onde levavam apenas as mulheres, uma menina me contou que cortou o cabelo e se disfarçou de homem para fazer a viagem", diz. "Já algumas outras coisas ninguém me contou, eu vi", afirma.

Fronteira

Quemada-Díez diz que, com o drama dos três adolescentes, quis mostrar os efeitos da política de repressão aos imigrantes e militarização da fronteira com o México por parte do governo norte-americano. "Os Estados Unidos, com Obama, têm mais de meio milhão de pessoas na cadeia cujo único 'crime' foi cruzar a fronteira. Há milhões de pessoas que estão com muito medo de serem deportados e é uma situação que está criando muito sofrimento. E os Estados Unidos insistem na construção do muro, na militarização da fronteira. Atualmente há 20 mil soldados na fronteira e esse número vai aumentar para 40 mil", diz.

"Queria questionar também a ideia de propriedade da terra", diz. "Por trás do problema da imigração está a colonização, a colonização dos Estados Unidos, a colonização da América. Sempre estamos lutando por um território. Sempre queremos controlar o outro, ou destruir o outro, ou modificar o outro", completa o diretor.

  • Reprodução

    Cena de "La Jaula de Oro"

Experiência

Antes e durante a pesquisa para "La Jaula de Oro", Quemada-Díez trabalhou como operador de câmera em filmes como "Pão e Rosas" (Ken Loach), "21 Gramas" (Iñarritu) e "O Jardineiro Fiel" (Fernando Meirelles). Do brasileiro, diz ter gostado da maneira "relaxada" com que filma. Já sobre Iñarritu, diz achar uma pessoa "interessante", mas que não gosta do estilo do mexicano.

Com Loach, Quemada-Díez diz ter aprendido a técnica de permitir que os atores sejam eles mesmos. "O que eu queria era criar o contexto que provoca o comportamento deles, nunca dizer diretamente o que eles tinham que fazer. A gente criava as condições, a equipe se escondia, e filmava. É um método que aprendi com Ken Loach", diz o diretor, que trabalhou com o escocês também em "Terra e Liberdade" e "Uma Canção Para Carla".

Para garantir a espontaneidade dos protagonistas - três atores não profissionais em seu primeiro papel no cinema, escolhidos entre 6.000 candidatos - o diretor diz que contava o que ia acontecer com os personagens cinco minutos antes de filmar cada cena. "A câmera se tornou invisível para eles", diz. Toda a trama foi filmada de maneira cronológica, numa viagem de seis semanas.

O diretor contou ainda com a ajuda da preparadora de elenco brasileira Fátima Toledo. "Ela leu o roteiro, assistiu meus curtas e gostou muito. Trabalhamos junto por um mês e meio, fizemos uma oficina de atuação. Foi um processo maravilhoso", completa.