Cinema

Cineasta retrata morte de irmão e vida na periferia em documentário

Gabriel Mestieri

Do UOL, em São Paulo

Em uma noite de 2001, enquanto jantava com uma namorada, o cineasta Cristiano Burlan recebeu uma ligação informando que seu irmão, Rafael, havia sido assassinado com sete tiros no Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

Uma década depois, após perder também a mãe e o pai, Burlan voltou ao bairro da periferia onde cresceu para filmar um documentário sobre a morte do irmão. "Acabei fazendo um filme que fala sobre o assassinato de outras famílias também. E de uma violência geral nessa periferia de São Paulo, que no meu caso é o Capão Redondo", disse o diretor de "Mataram Meu Irmão", documentário vencedor dos prêmios de júri e crítica do festival É Tudo Verdade que estreia nesta sexta-feira (22) em São Paulo, em entrevista ao UOL.

Assista ao trailer do documentário

Ainda que acredite que poderia ter evitado a morte do irmão caso o tivesse convidado para ir ao cinema na noite do crime, como pensou em fazer, Burlan esclarece que nunca foi sua pretensão "cicatrizar alguma coisa". "Isso seria muito egoísta da minha parte", diz.

Nascidos no Rio Grande do Sul, Rafael e Cristiano vieram para São Paulo em 1985, antes de completarem dez anos de idade. Aos 17 anos, Cristiano deixou o Capão Redondo para morar no centro da cidade, após se envolver profissionalmente com teatro. Rafael casou e teve dois filhos no Capão, mas começou a fumar crack e a praticar pequenos delitos até ser morto num episódio que envolveu o furto de um carro.

O diretor, hoje com 38 anos, conta que as lembranças da infância na periferia não são muito boas. "A maioria dos meus amigos de infância de quando eu estava na escola e jogaram futebol comigo acabaram assassinados. Ou entre bandidos, por se envolver com tráfico, ou pela própria polícia", conta. Desde 2001, quando o irmão morreu, até voltar ao Capão para filmar o documentário, Burlan conta que teve mais de 12 amigos assassinados, além dos que foram presos. A mãe, também nesse meio-tempo, foi assassinada pelo namorado.

"Mas é claro nem tudo era ruim. Um dos personagens que dá entrevista é um grande amigo meu de infância e acho que é uma das pessoas que conseguiu subverter a situação e sair desse ciclo de violência que acaba te sugando", diz o diretor sobre um dos personagens do filme, que concede uma longa entrevista numa mesa de bar na praia.

Burlan gosta de dizer, entretanto, que não considera que ele e esse amigo tenham sido "salvos" da violência. "A relação que tive com a violência, essas marcas que ficaram em mim estão para sempre impregnadas na minha personalidade", diz.

Questionado sobre como, mesmo sem ter sido "salvo", escapou do mesmo destino que tirou a vida de irmãos e amigos, evita explicações simplistas. "Eu fui tragado pela violência, não acredito que fugi dela. Poderia cair no clichê de que foi ou meu contato com teatro quando era adolescente, ou gostar de literatura (que me salvou), que os livros foram minha universidades. Mas na verdade não é você que faz a vida, é a vida que faz você", diz. "Foram as oportunidades que surgiram ali e eu segui meu caminho. Mas eu poderia estar morto e enterrado. Na verdade eu tenho a sensação de que já estou no lucro há muito tempo", completa.

O fato de ter escapado, segundo o diretor, deu a ele uma responsabilidade de "trazer questionamentos e gerar uma reflexão" sobre a violência. "Hoje em dia parece muito comum, você assiste o dia inteiro na televisão essas imagens de pessoas sendo assassinadas, sendo mortas e com aquela tacha de que é mais um bandido que morre. Mas aquele 'bandido' era filho de alguém, tinha mãe, tinha filha. Então as coisas têm outra camada além dessa primeira que a gente vê na tv e no jornal", diz.

Prêmio

Sobre a importância de ganhar os prêmios no É Tudo Verdade, Burlan, que já fez 15 filmes, mas entrará em cartaz no circuito comercial pela primeira vez com "Mataram Meu Irmão", é cauteloso. " Você não pode acreditar nem quando as pessoas se interessam muito pelo seu trabalho, veem seu filme, te dão prêmios e querem te entrevistar, nem quando elas não querem ver seu filme e ele não passa em lugar nenhum", diz.

"Mataram Meu Irmão" faz parte de uma série chamada por Burlan de trilogia do luto, cujo primeiro filme, "Construção", é sobre seu pai, e o último "Elegia de um Crime", que ainda não tem certeza se realizará, busca investigar os paradeiros do assassino da mãe, foragido.

Além de "Elegia", Burlan planeja também rodar uma ficção que batizou de "Abismo", sobre um metalúrgico que tem o irmão assassinado e parte atrás de vingança. "Mas depois quero fazer alguns filmes leves, que eu não aguento mais falar de morte. Talvez sobre uma família rica em frente ao mar", afirma.

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