Cinema

Com prolífica produção de filmes, Zona da Mata não tem salas de exibição

Carlos Minuano/UOL
Exibição de curtas da Mostra de Cinema Canavial no assentamento Camarazal do MST, em Nazaré da Mata (PE) imagem: Carlos Minuano/UOL

Carlos Minuano

Do UOL, em Nazaré da Mata (PE)

Se o povo não vai ao cinema, o cinema vai até o povo. Com essa ideia na cabeça e a telona literalmente nas costas, um grupo de jovens cineastas pernambucanos se lançaram na estrada para amenizar uma contradição. Cenário da nova e bem sucedida safra de longas pernambucanos, a Zona da Mata Norte do Estado não tem nenhuma sala de exibição para a população ver os filmes produzidos na região.

O cinema pernambucano tem sido visto como a vedete do cinema nacional. O título se justifica por produções de sucesso, como "O Som ao Redor", de Kleber Mendonça Filho, indicado brasileiro para concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro. "Tatuagem", de Hilton Lacerda, e "Baixio das Bestas", de Claudio Assis, também ganharam destaque. Todos com um traço em comum: narrativas focadas em questões locais.

  • Carlos Minuano/UOL

    O coordenador do assentamento Camarazal do MST, Mario José

Mas a população da Zona da Mata pernambucana reclama de não ter onde assistir a esses filmes. Não é para menos: o único cinema da Zona da Mata, na cidade de Goiana, foi inaugurado em 1914 (um dos primeiros em Pernambuco), mas fechou suas portas na década de 1980, realidade não muito diferente do resto da região.

Pernambuco é conhecido há muito tempo por sua força cultural, por ser terra do manguebeat e berço de tradições populares como o maracatu de baque solto, coco de umbigada e cavalo marinho. E, apesar de viver um momento de desenvolvimento econômico, com instalação de grandes empresas e a construção de um pólo esportivo para a Copa do Mundo de 2014, por outro lado, sobretudo a Zona da Mata, segue com carência de estruturas de cultura e entretenimento.

Cinema sem paredes
Em sua terceira edição, a Mostra Canavial de Cinema percorreu, a bordo de um jipe, dez cidades da Zona da Mata Norte de Pernambuco, com exibições em comunidades onde a maior parte das pessoas nunca esteve em uma sala de exibição. "Só ouviram falar", contou ao UOL Caio Dornelas, da produtora Engenho Digital, responsável pelo projeto, que começou no dia 8 de novembro e foi até o início de dezembro.

A imersão em regiões de extrema carência revelou dois tipos muito específicos de público, disse Dornelas. "Conhecemos jovens com menos de 30 anos que não têm nenhuma referência em seu imaginário do que é cinema. Mas também encontramos pessoas acima de 40 que possuem lembranças muito intensas, que tiveram um encontro nostálgico durante a mostra".

Com exibições ao ar livre, sob a luz da lua e energia emprestada em geral de igrejinhas locais, o cinema sem paredes da turma do Engenho Digital mergulhou no Nordeste profundo e descobriu um Brasil escondido, mas que quer se mostrar. Antes das exibições, durante uma semana, a comunidade é convidada a participar de uma oficina de cinema, na qual produzem pequenos filmes de um minuto. "É a parte que mais gostam, quando se veem na tela", contou o produtor.

A ideia de fazer o cinema sem teto ou paredes, fora de uma sala de exibição convencional, tinha razão de ser. "A inspiração veio da própria natureza da arte nordestina, essencialmente de rua, livre. Se colocasse dentro de uma sala, ninguém apareceria", disse Dornelas. A mostra de cinema surgiu em 2009 inicialmente como uma rede de cineclubes. Logo perceberam que não era suficiente, que precisavam ir além. Foi então que começaram a organizar as exibições itinerantes.

Trailer do filme "O Som ao Redor"

Massacre de sem terras e vida de travestis
A reportagem do UOL acompanhou duas sessões da mostra de cinema, realizadas no assentamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), em Nazaré da Mata, que ficou conhecido por um massacre ocorrido em 1997. Um dos filmes exibidos relembra o episódio dramático.

O documentário "Armas Não Atiram Rosas" --produzido pelo MST, pela Comissão Pastoral da Terra e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos-- repassa a história do ataque de pistoleiros ao acampamento, no qual foram feridos trabalhadores e crianças, além da morte de dois líderes. 

Outro tema polêmico surgiu com o curta "Garotas da Moda", de Tuca Siqueira, que retrata a vida de cinco travestis da Zona da Mata pernambucana. O filme passeia pela vida dos personagens e faz um retrato de suas dificuldades, mas narra a batalha deles pelo sonho --realizado-- de criar um grupo musical. "É a única banda de travestis do mundo", afirmam no filme.

A exibição foi feita a pedido da própria comunidade do assentamento. "É uma realidade que vivemos aqui. Queremos discutir o assunto e o filme pode ajudar nisso", disse o coordenador do assentamento, Mario José. O objetivo central na seleção de filmes foi de promover reflexão e debate, observou o jornalista André Dib, curador da mostra. "Queremos propor reflexões a partir de novos repertórios, que possam estimular olhares mais críticos".

Por isso, segundo ele, o foco ficou na produção independente contemporânea. "A mostra circula por cidades desprovidas de cinemas, então nossa ideia foi oferecer um conteúdo diferente do disponível nas TVs e internet". Com filmes norteados pela temática "Patrimônio e Memória", a mostra de cinema foi realizada dentro do Festival Canavial, evento que há sete anos promove nas cidades da Zona da Mata Norte pernambucana um mês de atividades em torno da cultura popular. 

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