Cinema

"La Jaula de Oro" retrata jornada de imigrantes com atuações impecáveis

Gabriel Mestieri

Do UOL, em São Paulo

A jornada de três jovens guatemaltecos que tentam chegar aos Estados Unidos pelas linhas de trem mexicanas é retratada em "La Jaula de Oro", estreia na direção do experiente operador de câmera Diego Quemada-Díez.

Para seu primeiro filme, o espanhol naturalizado mexicano opta pela simplicidade: narrativa linear, três atores não profissionais, atmosfera realista de road movie e diálogos que não se alongam mais do que o necessário.

A jornada de Juan (Brandon López), Chauk (Rodolfo Domínguez) e Sara (Karen Martínez) começa na Guatemala. A dificuldade de cruzar a fronteira para o México já indica que, quanto mais eles se locomoverem para o norte, mais difíceis ficarão as coisas.

Antes da chegada à fronteira norte-americana, entretanto, os personagens ainda sofrerão muito nas mãos de polícias de diferentes localidades, traficantes e coiotes --o caminho mais parece uma corrida de obstáculos em que qualquer deslize é fatal.

Seria fácil, porém, se todos os inimigos fossem externos. Mas é na mentalidade de Juan, o mais branco dos três protagonistas, que está um dos primeiros conflitos do filme: considerando-se o mais qualificado para chegar aos Estados Unidos graças à cor de sua pele e seu estilo de vida ocidentalizado, ele tenta impedir que Chuak, indígena que nem sequer fala castelhano, siga viagem com ele.

Cabe a Sara, a garota que se veste como menino para tentar evitar que seja estuprada, deixar bem claro que ou os três viajam juntos ou não vão a lugar nenhum.

Escolhidos entre mais de 6.000 candidatos, os três protagonistas, que nunca haviam trabalhado como atores, são impecáveis. Todas as cenas são de um realismo preciso, onde nada falta nem sobra. O conjunto das intepretações, inclusive, foi reconhecido com o prêmio de melhor elenco na mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes.

Fica evidente um olhar poético e contemplativo de Quemada-Díez, que já trabalhou com cineastas como Ken Loach ("Uma Canção para Carla"), Spike Lee ("Elas Me Odeiam, Mas Me Querem"), Alejandro González Iñárritu ("21 Gramas") e Fernando Meirelles ("O Jardineiro Fiel"). Embora não chegue a fazer a opção por um filme de poucas palavras e ritmo lento, o mexicano dá tempo ao espectador para que vá digerindo aos poucos os acontecimentos.

Não há nos diálogos, por exemplo, menções explícitas à violência e à pobreza das quais os protagonistas estão dispostos a quase tudo para escapar. Os personagens tampouco questionam a própria condição ou as absurdas políticas migratória e de fronteira dos Estados Unidos. Apenas tentam sobreviver numa jornada de autoconhecimento em que chegar ao destino proposto parece não ter tanta importância quanto as descobertas e as perdas do caminho.

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