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Copa do Mundo ameaça calendário de festivais de cinema em 2014

Germano Lopes/Divulgação
Público no Curta Canoa 2013 (Festival Latino-americano de Curtas Metragens), em Canoa Quebrada (CE) Imagem: Germano Lopes/Divulgação

Carlos Minuano

Do UOL, em São Paulo

A Copa do Mundo de 2014 está tirando o sono dos organizadores de mostras e festivais de cinema. Há um temor de que o calendário esteja em risco por causa da fuga do patrocínio de empresas que querem priorizar os investimentos no mundial de futebol, que acontecerá em junho e julho no Brasil. Entraves burocráticos em convênios com o MinC (Ministério da Cultura) e o pleito eleitoral que acontece no próximo ano agravam ainda mais o ambiente de crise.

A atual conjuntura só piora o que já estava ruim, afirma Adriano Lima, organizador do Curta Canoa (Festival Latino-americano de Curtas Metragens) e integrante da diretoria do Fórum de Festivais. A edição deste ano do evento, que acontece há nove anos em Canoa Quebrada (CE), teve duas datas adiadas e foi realizado na última semana de novembro, com metade dos recursos previstos e programação esfaqueada. "Quase não conseguimos fazer", disse ele ao UOL.

Lima lamenta a redução na programação. "Tivemos que ficar no básico, quase somente na mostra competitiva. Cancelamos oficinas, debates e convite a convidados". O evento costumava oferecer uma grade extensa de oficinas voltadas à formação audiovisual. "Quando começamos não havia nenhum filme feito aqui na região. Hoje são vários grupos, como o núcleo de animação, que teve que parar por falta de recursos".

O diretor do evento alerta que as atenções voltados ao esportivo está inviabilizando os caminhos. "As empresas afirmam que não têm verba por causa da Copa. Até o MinC abriu edital de R$ 50 milhões para projetos que associem cultura e futebol, mas que só vale para as cidades que sediarão os jogos. E como ficam as outras?", questiona.

As empresas afirmam que não têm verba por causa da Copa. Até o MinC abriu edital de R$ 50 milhões para projetos que associem cultura e futebol, mas que só vale para as cidades que sediarão os jogos. E como ficam as outras?

Adriano Lima, organizador do Curta Canoa

Ele aponta como outro fator responsável as mudanças no sistema de convênios do MinC para repasse de recursos do Fundo Nacional de Cultura. "Está causando a destruição de festivais", reclama. Tecnicamente nada mudou, mas há cerca de três anos o MinC promoveu um aumento da fiscalização com o objetivo de dar mais transparência aos processos, utilizando um controle do acesso aos recursos por meio de chamamento público.

O resultado, segundo organizadores, é o aumento no volume de entraves burocráticos. "Mesmo após aprovação dos projetos e publicação no Diário Oficial, festivais ficam dependendo de assinatura dos convênios, que nunca acontece", disse Lima. Foi o que ocorreu com o Curta Canoa deste ano. Embora já estivesse com o projeto aprovado, a celebração do contrato não aconteceu a tempo de realizar o festival, que teve que buscar outras formas de financiamento.

O evento que encerra o calendário brasileiro de festivais também enfrenta problemas. O Fest Aruanda, que chegou a sua oitava edição este mês, em João Pessoa (PB), às vésperas de sua realização não havia recebido recursos na conta de incentivo municipal, de acordo com Heleno Bernardo, um dos produtores. "Todo mundo está sofrendo na cultura com todos os órgãos públicos", disse.

Modelos de financiamento
O novo sistema do MinC não representou problemas para a Mostra Tiradentes, que abre o calendário audiovisual brasileiro em 2014, agendado para acontecer entre 24 de janeiro e 1º de fevereiro. "O novo sistema do MinC pode ser aprimorado e ser mais inteligente", disse a coordenadora Raquel Hallak, diretora da Universo Produção, responsável pelas mostras de Tiradentes, Belo Horizonte e Ouro Preto.

O que mais preocupa a coordenadora da Mostra Tiradentes não é o calendário audiovisual em função da eleição e da Copa. "Os festivais podem existir em diálogo com estes acontecimentos". Para ela, a grande questão são os modelos de financiamento da área cultural no Brasil que não dialogam com ano de eleição, pois fica vedado qualquer convênio e edital público.

Raquel reclama também de precisar anualmente recomeçar o processo de inscrição do projeto em leis de incentivo e a busca desenfreada pelo patrocínio, mesmo sendo um evento consolidado no calendário brasileiro --em 2014 a Mostra Tiradentes chega a sua 17ª edição. "Precisamos recomeçar do zero a cada ano", lamenta.

Ela defende formatos de financiamento diferenciados para festivais e mostras para que gestores e empreendedores possam ter tempo hábil e compatível com a natureza e perfil do setor. "Realizamos três mostras anuais com edições consecutivas que requer planejamento, pesquisa e um tempo de pré-produção de, no mínimo, seis meses antes de cada evento. São 16 mostras já realizadas em Tiradentes, oito em Ouro Preto e sete em Belo Horizonte, totalizando 31 mostras. E, mesmo assim, não temos garantia de nada".

A coordenadora sugere implantar gestão bianual para festivais e mostras. "Seria uma forma de dar fôlego para atuarmos no mercado de maneira mais coerente com o planejamento das empresas patrocinadoras", defende. Mas ela não minimiza o impacto da Copa e eleição que, acredita, devem paralisar o país. "Tivemos várias respostas negativas de empresas que estão focando investimentos na Copa".

Com formação em economia, o produtor do Cine PE, Alfredo Bertini (autor do livro "Economia da Cultura"), propõe uma análise mais refinada dos problemas. "O buraco é mais embaixo", diz. Para ele, a Copa é uma questão conjuntural e pontual, e o entrave maior é provocado principalmente pelo crescimento da burocracia e de controles no atual governo federal.

"Toda a gestão da cultura foi contaminada por esses princípios de fiscalização. Temo que o já diminuto orçamento do MinC seja em parte devolvido, servindo para ajudar com cifras minguadas na redução de gastos públicos e a cumprir meta de superávit primário".

Carta ao MinC
Preocupado com o cenário crítico, o Fórum Nacional de Festivais encaminhou recentemente uma carta ao MinC e à Secretaria do Audiovisual, segundo informou a presidente da entidade, Marilha Naccari. O documento busca abrir diálogo sobre os problemas que ameaçam engessar o setor.

Segundo Naccari, o circuito de festivais brasileiros cria oportunidades ímpares de difusão do audiovisual feito no Brasil e do cinema cultural de países estrangeiros. "Encontrar a forma de apoio e incentivo a estes eventos que condigam com a realidade de atuação e planejamento dos festivais e mostras é nosso empenho na melhoria dos mecanismos de convênio do MinC".

A carta ressalta a importância dos festivais, que chegam atualmente a todas as regiões do país. "O festival de Canoa Quebrada é um exemplo disso, ele acontece numa região onde não há cinemas", disse a presidente da entidade. Endereçado ao novo secretário da pasta, Mário Borgneth, o documento cobra também solução sobre convênios paralisados pelo órgão, e que compromete o calendário de festivais.

Organizadora do Florianópolis Audiovisual de Mercosul (SC), Marilha Naccari também é nova no cargo. Foi eleita presidente da entidade em eleição realizada durante o Festival de Cinema de Vitória, em novembro passado. O Fórum de Festivais foi criado há uma década para representar o circuito de eventos do setor audiovisual, um calendário que já soma mais de 260 festivais e mostras. 

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