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"Não há no Brasil quem possa ocupar o lugar de Coutinho", diz Meirelles

Do UOL, em São Paulo

02/02/2014 18h02

O diretor Fernando Meirelles comentou a morte do cineasta e documentarista Eduardo Coutinho, que ocorreu neste domingo (2), em seu perfil oficial no Twitter. "Não há ninguém no Brasil que possa ocupar o lugar de Coutinho. Fica vazio. Esse era um mestre", escreveu.

Outras importantes figuras do cinema também falaram sobre o ocorrido e acerca do legado de Coutinho. Por telefone, o cineasta Cacá Diegues lamentou ao UOL a morte do amigo. "É um momento de muita dor. Eu o conheço desde os 26 anos de idade quando fizemos parte do Centro de Cultura Popular da UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Além de um grande cineasta, ele era um homem inteligente, sereno, sensível, bom e muito tranquilo", disse.

"Coutinho inventou o documentário no Brasil. E, apesar de ser pioneiro no assunto, ele sempre tinha algo de novo no seu trabalho. Foi uma grande perda para o cinema brasileiro." Sobre o fato de Daniel, filho de Coutinho, sofrer de esquizofrenia e ter sido o assassino do pai, Cacá diz desconhecer o assunto. Apesar da proximidade dos dois, ele disse que o cineasta nunca comentou sobre os problemas psiquiátricos do filho. 

André Sturm, gestor do Cine Belas Artes e diretor do MIS (Museu da Imagem e do Som), também se pronunciou. "A história dos documentários no Brasil se divide em antes e depois de Eduardo Coutinho. Um cineasta genial e de talento único. Com a qualidade dos seus filmes, fez com que as pessoas vissem a importância do filme-documentário, ele mudou a história desse gênero no nosso país".

O cineasta Ugo Giorgetti ainda acrescentou que Coutinho "é uma das poucas unanimidades nacionais". "Era não só o melhor documentarista, como, na minha opinião,  o melhor cineasta brasileiro", disse. "Uma perda inacreditável. Era um cara que tinha o respeito infinito da classe. Um cineasta particular."

“Minha relação com o Coutinho é algo inesquecível porque logo que entrei no Globo Repórter, em 1982, nos meus primeiros passos na Globo, fui apresentado a ele. Até aquele momento da minha vida eu trabalhava com texto e passei a aprender como transformar aquilo em texto e também imagem", comentou o jornalista Caco Barcellos, que trabalhou durante anos com o cineasta na equipe do programa. "Coutinho foi uma inspiração muito grande porque era alguém bastante criativo e com uma história muito importante no cinema, além de referência em termos de postura profissional.” 

Eduardo Coutinho, considerado o documentarista mais importante do país, foi assassinado neste domingo, em seu apartamento, na Lagoa, zona sul do Rio. O suspeito é o filho dele, Daniel, que teria esquizofrenia. A mulher de Coutinho também foi ferida e está internada no Hospital Miguel Couto. O caso está na Delegacia de Homicídios.

Trajetória

Nascido em 11 de maio de 1933, em Sao Paulo, Eduardo Coutinho largou o curso de direito por uma carreira no entretenimento. Depois de estudar direção e montagem na França e voltar ao Brasil em 1960, Coutinho entrou em contato com o Cinema Novo e o Centro Popular de Cultura (CPC), da UNE.

No CPC o cineasta começou a trabalhar no que seria considerado seu projeto mais importante: uma ficção baseada no assassinato do líder das Ligas Camponesas, João Pedro Teixeira, com elenco formado pelos próprios camponeses do Engenho Cananeia, no interior de Pernambuco. A produção de “Cabra Marcado para Morrer” teve que ser interrompida depois de duas semanas de filmagens, quando ocorreu o Golpe Militar de 1964 e parte da equipe foi presa com acusações de comunismo.

O filme só seria completado em 1984, depois de Coutinho reencontrar negativos que haviam sido escondidos por um membro da equipe, e resolveu retomar o projeto como um documentário sobre o filme que não foi realizado e sobre os personagens reais que seriam os atores do primeiro projeto.

Entre 1966 e 1975, atuou principalmente como roteirista de produções como “A Falecida” (1965), “Garota de Ipanema” (1967) e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976).

Em 1975, Coutinho passou a integrar a equipe do “Globo Repórter”, onde permaneceu até 1984.

Depois de “Cabra”, Coutinho se firmou como o principal documentarista do país, com filmes que privilegiavam pessoas comuns e as histórias que elas têm para contar, como “Santo Forte” (1999), “Edifício Master” (2002), “Peões” (2004) e “Jogo de Cena” (2007). Seu último longa foi “As Canções”, de 2011.

Em 2013, ao completar 80 anos, Coutinho ganhou homenagem na Festa Literária Internacional de Parati e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que organizou uma retrospectiva completa de seus filmes e um livro reunindo textos de e sobre o cineasta.

Na ocasião, Coutinho afirmou ao UOL que o público foge de documentários. "Isso é trágico. Tem uma diferença entre ficção e documentário, e é apenas para a Ancine [Agência Nacional do Cinema]. Documentário é uma palavra maldita. Se o público cheirar documentário, ele foge. Só não foge quem não pode", afirmou.

* Com informações da Agência Estado

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