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Após censura no YouTube, curta que satiriza Maluf e Lula tenta festivais

Carlos Minuano

Do UOL, em São Paulo

18/03/2014 18h16

Um curta-metragem que satiriza dois conhecidos personagens da política nacional foi censurado no YouTube. "Deusvelaporti S/A", filme de Márcio Del Picchia, ironiza a trajetória de Lula e Maluf, dois antigos adversários ideológicos, unidos nas sinuosas barganhas do jogo político. Retirado do ar após mais de 40 mil acessos, a produção chegou a ser lançada no Espaço Itaú e, atualmente, tenta carreira em festivais, entre eles o Festival Internacional de Cinema de Curitiba, que acontece em maio. "Se nos chamarem, exibiremos em qualquer lugar, até no Congresso Nacional", disse ao UOL o diretor.

O filme mostra os famosos políticos representados pelos personagens "Pardal" (Lula) e "Bem Te Vi" (Maluf). "A intenção foi mostrar que, na disputa pelo poder, as alianças mais estranhas são válidas", disse o diretor Marcio Del Picchia. O cineasta garante que seu filme é apartidário. "Não há nada que demonstre preferência por qualquer de nossos partidos políticos. Houve, sim, uma sátira ao convencimento do Lula, à impunidade do Maluf e um elogio à capacidade organizacional de ambos".

No filme, o personagem Pardal tenta --e consegue-- convencer o "tinhoso" de que seu lugar não é ali. "Companheiro Diabo, estou aqui por engano", diz ele. No paraíso, rapidamente se envolve com a politicagem local, que não anda muito bem. É nesse ponto que o curta cutuca também a religião católica. Escrito antes da renuncia do papa Bento 16, o filme antecipa os abalos no Vaticano ao mencionar uma suposta crise no céu, com suspeitas de corrupção no terceiro escalão.

Na condição de ministro da Economia, Santo Expedito ouve críticas de Deus pelo fraco desempenho da economia. "Vou perder a fé no capitalismo", avisa o Todo Poderoso. Pardal --ou Lula-- convence o Onipotente de que pode ajudar no imbróglio e consegue tomar a vaga de Expedito (santo associado a casos graves e urgentes). Além da tarefa de tirar as finanças celestiais do buraco, Pardal também assume a presidência da "Deusvelaporti S/A", fábrica de velas do céu, cujas vendas para o Brasil andavam de mal a pior devido ao avanço de evangélicos.

No inferno, Bem-te-vi --ou Maluf-- prefere tentar uma disputada vaga como secretário particular do capeta. Para isso, teve de concorrer com personalidades mundiais, como o norte-americano George Bush, e com um senador brasileiro "bigodudo", que estaria para chegar. "Conheço suas realizações. Estava ansioso para cumprimentá-lo pessoalmente", diz o personagem que representa Maluf no filme.   

Trilogia
Apesar das piadas com a igreja católica, o diretor insiste que o filme não ofende o espírito religioso. Mas além das questões politicas ou celestiais, "Deusvelaporti S/A" chama a atenção pelo roteiro ousado e criativo. A produção cuidadosa e a boa atuação do elenco também são pontos positivos.

O diretor não vê o ano eleitoral como obstáculo à exibição. Embora Del Picchia negue fazer ativismo político, seu filme faz uma crítica irônica e contundente ao cenário politico atual. "O Brasil passou por um processo de amadurecimento das instituições democráticas, mas percebemos grandes fragilidades em varias áreas. Os acordos de governabilidade no Brasil são danosos para o patrimônio público".

O curta faz parte de uma trilogia iniciada com o filme "Deustespera S/A", sobre uma fábrica de armas, e deve fechar com "Deusmelivredeti", sobre dois irmãos gêmeos e que ainda será filmado. Os temas da trilogia são diversos, mas a linguagem é a mesma: um ar nonsense temperado com boas doses de um "realismo fantástico tupiniquim".

Sem trabalhar com editais ou fomento, Del Picchia contou que prefere investir dinheiro próprio. "Um dia eu consigo enquadrar algum projeto meu nesses editais, mas não tenho paciência com esses processos burocráticos". Formado em economia, ele atuou como empresário durante 18 anos. "Ganhei um pouco de dinheiro, que perco hoje em dia com os amigos e fazendo filmes", brincou, acrescentando que sua produtora, a Del Picchia Filmes, ainda não viu retorno financeiro algum.

Cinema para internet
Além da trilogia de curtas, Márcio Del Picchia produz para a internet a série de humor "O Meio é Mole". "Montamos um grupo de pessoas ligadas a cinema, e fazemos um filme por semana".

Apesar de seguir usando o YouTube como plataforma para parte de divulgação de seus filmes, ele critica a dificuldade em dialogar com a empresa. "Como não é uma firma convencional, com atendentes e ou responsáveis para conversar, não conseguimos até hoje uma resposta [sobre a censura de 'Deusvelaporti S/A']". Segundo ele, após diversos e-mails, a única justificativa dada é de que "foram violadas algumas regras".

Del Picchia afirma que o YouTube, embora democrático, se tornou uma plataforma desgastada, que descredita os filmes. O diretor critica a baixa qualidade de produções que circulam na rede. Segundo ele, basta dar uma espiada nos cem vídeos mais assistidos do dia para ter uma ideia de qual sociedade estamos formando. Mas ele avisa: "É melhor nem olhar. Um país é reflexo de sua cultura".
 

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