Topo

Filmes e séries


Mais plural, Cine PE vive crise de identidade e acentuada queda de público

Carlos Minuano

Do UOL, no Recife

05/05/2014 08h21

Na edição em que completou 18 anos, o Cine PE se tornou internacional e assumiu corte plural, mas o festival de cinema pernambucano, que acontece em Olinda, chega à maioridade enfrentando crise de identidade, com seleção fraca de filmes e queda acentuada de público. Conhecido como 'festival das multidões', o evento neste ano teve sessões com até 30 pessoas, como a do documentário português "1960". É o mais baixo público da história do evento. Outras exibições também amargaram apenas 50 lugares ocupados do imenso teatro Guararapes, sede do festival.

A crise não é de hoje. Desde 2011 o Cine PE vem perdendo público e credibilidade. As razões para os problemas são várias. Para o jornalista André Dib, presidente do júri da crítica do 18° Cine PE, o evento está desgastado por uma sequência de erros. Um deles, afirma, é a organização insistir em um modelo falido. "O festival até hoje garantiu público independente da qualidade de filmes, convidando famosos. Até o Pelé já esteve por lá", afirma o jornalista, que também é membro da Abraccine (Associação Brasileira dos Críticos de Cinema).

O festival surgiu na década de 1990, junto a outros, com a missão de abrigar e estimular a produção audiovisual, no movimento que ficou conhecido como cinema de retomada. Para Dib, o apelo a celebridades televisivas e o paternalismo aos diretores nacionais foram necessários para fortalecer filmes, mas o modelo espelhado no festival de Gramado (RS) não se sustenta mais. "Gramado teve que mudar para continuar existindo. Desde 2008 tem curadoria mais criteriosa e, aos poucos, recuperou o prestígio." E completa: "O panorama dos festivais está mudando. Muitos que sobrevivem conseguiram se reformular. O Cine PE está tentando, mas ainda não conseguiu", observa o jornalista. Pra piorar o cenário, neste ano o festival ficou mais pobre, com orçamento pela metade. E, sem tantas celebridades, com programação acabando depois da meia-noite em uma região de Olinda com poucas opções de transporte, a fuga de público parecia inevitável.

Mudança de foco

Reconquistar o público era parte da missão do curador da edição deste ano do Cine PE, o jornalista Rodrigo Fonseca, crítico de cinema do jornal "O Globo" e analista de teledramaturgia da TV Globo. "A ideia foi trazer filmes populares, mas com pegada autoral em evidência, sem apelar para o cinema varejão."

Outra tarefa foi ajudar na questão da identidade do Cine PE. Isso explica mudanças na estrutura e no conceito. "Dos grandes festivais, esse é o que não tem cara definida", observa Fonseca. Perguntado sobre a ausência de nomes de relevo do cinema pernambucano, como Claudio Assis ("Febre do Rato") e Kleber Mendonça Filho ("O Som ao Redor"), entre outros, ele se esquiva. "Há uma briga interna entre eles e a direção do festival, mas fiz um festival para receber todos." E se defende: "A grande produção local não quis, por afirmação política. Fiz com o que eu tinha".

Ele conta que tentou falar com alguns dos envolvidos na questão, para tentar uma trégua, mas sem sucesso. "Acho o Kleber Mendonça um pensador do cinema brasileiro e o Cláudio Assis uma força da natureza, quero essa galera aqui." O jornalista reclamou também do pouco tempo que teve para trabalhar: "Fui chamado em janeiro para concluir o trabalho em março".

A ideia do corte curatorial, segundo Fonseca, foi tratar do tema da identidade e o peso da memória. "É a grande questão do cinema contemporâneo, de Michel Gondry ao Eryk Rocha, todos falam da construção da memória como uma questão de poder e de afirmação de voz"

Filmes premiados

Em sua 18° edição, o festival foi marcado também pela presença de filmes estrangeiros na competição de longas. Exibido na mostra especial hors concours, "O Grande Hotel Budapeste", de Wes Anderson, foi um dos maiores públicos do festival. A sessão teve mil pessoas.

O grande vencedor foi o filme "Muitos Homens num Só", de Kiti Moraes, com Vladimir Brichta. O longa carioca levou dez troféus Calungas. Já a coprodução Brasil-Chile "Romance Policial", de Jorge Durán, com Daniel de Oliveira, levou três prêmios, e o italiano "Os Anos Felizes", de Daniele Luchetti, levou outros dois troféus e uma menção honrosa.

Além das homenagens ao ator José Wilker e ao diretor Glauber Rocha e seu filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol", que acaba de completar 50 anos, também houve homenagem ao jornalista baiano João Sampaio. Crítico de cinema e membro fundador da Abraccine, ele cobria o evento e morreu na madrugada de sexta (2), dia do encerramento do festival. 

Premiação de longas de ficção do Cine PE

-Melhor Filme: "Muitos Homens num Só" (Brasil)
-Melhor Direção: Mini Kerti ("Muitos Homens num Só"/RJ-Brasil)
-Melhor Roteiro: Leandro Assis ("Muitos Homens num Só"/RJ-Brasil)
-Melhor Fotografia: Luis Abramo ("Romance Policial"/Brasil)
-Melhor Montagem: Mirco Garrone ("Anni Felici"/Itália)
-Melhor Edição de Som: Tomás Além ("Muitos Homens num Só"/RJ-Brasil)
-Melhor Trilha Sonora: Dado Vilalobos ("Muitos Homens num Só"/RJ-Brasil)
-Melhor Direção de Arte: Kiti Duarte ("Muitos Homens num Só"/RJ-Brasil) 
-Melhor Ator: Vladmir Brichta ("Muitos Homens num Só"/RJ-Brasil)
-Melhor Atriz: Alice Braga ("Muitos Homens num Só"/RJ-Brasil)
-Melhor Ator Coadjuvante: Alvaro Rudolphy ("Romance Policial"/Brasil) e Pedro Brício ("Muitos Homens num Só"/Brasil)
-Melhor Atriz Coadjuvante: Roxana Campos ("Romance Policial"/Brasil) e Pia Engleberth ("Anni Felice"/Itália)
-Prêmio Júri Popular: "Muitos Homens num Só" (RJ-Brasil), com direção de Mini Kerti
-Prêmio Abraccine:  "E Agora? Lembra-me" (Portugal)

-Menção Honrosa: "O Menino no Espelho" (MG/Brasil), de Guilherme Fiúza Zenha, por ampliar a proposta de uma produção brasileira que destaca fatos da história nacional para um público infantil.

-Menção Honrosa: Para o elenco infantil dos filmes "Anni Felici" (Itália), de Daniele Lucheti, e "O Menino no Espelho" (MG/Brasil), de Guilherme Fiúza Zenha, em especial para Lino Facioli.

-Menção Honrosa: Para o filme "Mundo Deserto de Almas Negras", de Ruy Veridiano (SP/Brasil) pela inventividade e ousadia ao construir um filme que utiliza o espírito DJ na construção de sua narrativa.

Filmes e séries