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"Esse cartaz virou minha cruz", diz autor do pôster de "Deus e o Diabo"

Tiago Dias e Marco de Castro

Do UOL, em São Paulo

11/07/2014 06h00

Corisco nos encara com o punhal dividindo precisamente seu rosto entre a sombra e a luz, enquanto o sol do Nordeste, amarelo e vermelho, é refletido no chapéu do cangaceiro. O cartaz de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", assim como o próprio filme, é árido e violento. E, da mesma forma que o segundo longa do cineasta Glauber Rocha, cujo lançamento completou 50 anos nesta quinta-feira (10), é um ícone da cultura efervescente no Brasil dos anos de 1960.

Rogério Duarte, designer baiano que criou o emblemático pôster, sabe da relevância de seu trabalho. "Não foi importante só para a cultura brasileira, mas o design mundial o considera um dos cartazes mais importantes já feitos no cinema. Foi tão explosivo quanto o próprio filme", contou ele, por telefone, ao UOL

Hoje, aos 75 anos de idade, Duarte cultiva a barba grisalha e comprida, usa um tapa-olho do lado direito (resultado de um acidente) e mora afastado em uma fazenda na cidade baiana de Santa Inês, a cinco horas de Salvador. Pai do design brasileiro e guru da Tropicália, ele também é escritor, poeta, músico, compositor, luthier e exímio jogador de xadrez. Entre suas funções está também a de tradutor de sânscrito, desde que mergulhou em uma fase "transcendental", o que motivou o artista, já dado ao silêncio e a reflexão, a ser ainda mais recluso. 

A arte do cartaz de "Deus e o Diabo" poderia se perder entre tantos outros pôsteres de filmes, mas é carregada de significados. Tal como a frase “Seja marginal, seja herói”, estampada na bandeira de Hélio Oiticica, na mesma época, o cartaz virou um marco no design brasileiro e é apontado como o despertar da pós-modernidade no país. "Fez muito sucesso principalmente na Europa, onde nunca nenhum crítico tinha visto um cartaz igual àquele”, afirma o artista, que conheceu Glauber na adolescência, quando os dois moravam na mesma vizinhança em Salvador, e que ainda se casou com uma irmã do cineasta.

Essa relação de amizade entre os dois foi um dos fatores que motivaram o diretor a pedir que ele fizesse o cartaz. "Chegaram a fazer outros dois outros cartazes e ofereceram ao Glauber, mas ele não quis nem ver. Porque ele já tinha pedido que eu o fizesse", diz o designer, que contava com total confiança do cineasta. "Quando eu concluí o cartaz, o Glauber estava em Roma. Ele só viu depois de impresso. Não deu nenhuma opinião. Deixou-me inteiramente à vontade para eu fazer o que me parecesse melhor".

Duarte revela ter um temperamento tão forte quanto tinha o cineasta. "Eu trabalho somente com o compromisso de liberdade total e de que o trabalho final seja só o meu. O temperamento dele [Glauber] era forte, e o meu também, entende? Um artista como Glauber, se não tivesse temperamento forte, não faria uma obra original. Faria o que quisessem que ele fizesse."

Como inspiração para o cartaz do longa, Duarte cita pôsteres de filmes de Sergei M. Eisenstein (1898-1948), entre eles "Ivan, o Terrível" (1944). "A minha ideia era fazer uma coisa grande, nobre, mítica." Ele recorda que o pôster partiu das fotos de divulgação que haviam lhe fornecido. Delas, escolheu a do personagem Corisco, vivido por Othon Bastos, por achá-la a mais emblemática e impactante.

Pôster de "Ivan, o Terrível" (1944) - Divulgação - Divulgação
Pôster de "Ivan, o Terrível" (1944)
Imagem: Divulgação

Questionado se, naquela época, já tinha ideia de que o filme seria um marco da cultura brasileira, Duarte é taxativo. "Mas é claro! Não só eu, mas todos que estavam envolvidos no Cinema Novo já sabiam. Antes de o filme ficar pronto, o Glauber já tinha mandado os copiões para serem revelados no Rio. Quando esses copiões chegaram, já eram surpreendentes", conta o artista, referindo-se aos rolos de filme com o material bruto. Ele também elogia o trabalho de fotografia do diretor-assistente Waldemar Lima, "cheio de contrastes fortes", e a atuação de Othon Bastos.

"Minha cruz"

Das histórias sobre o cartaz de "Deus e o Diabo", Duarte se lembra de uma que, segundo ele, lhe foi contada pelo crítico de cinema francês Louis Marcorelles. "Ele me contou que esse cartaz fez tanto sucesso na França, que uma jovem se apaixonou por ele de maneira trágica e resolveu se suicidar olhando o cartaz."

Também lembra, sem modéstia, que "livros, teses e o Diabo a quatro" já foram escritos sobre o pôster. "Esse cartaz virou minha cruz. Até hoje ficam me ligando para falar dele." E desafia: "Cite algum outro filme brasileiro cujo cartaz teve a mesma importância. Diga aí algum de que você se lembra pelo cartaz. Embora haja bons cartazes brasileiros, nenhum foi tão marcante".

Quando diz que o cartaz é sua "cruz", na verdade, o artista lembra que, além de designer, também se aventura em outras esferas da arte. Cita que, recentemente, Caetano Veloso gravou a música "Gayana", composta por ele, que entrou na trilha sonora da novela "Joia Rara", exibida pela Globo até abril deste ano.

"Tudo que eu faço faz sucesso. Porque só faço quando estou muito inspirado. Crio muito. Sou uma pessoa muito mais complexa do que só um designer. Sou poeta. Expus na Austrália, Japão. Já tenho neste ano exposição agendada no Rio, outra em Nova York. Fiz dezenas de obras de design depois de 'Deus e o Diabo'", afirma, lembrando ainda que no próximo dia 17 de julho estará na Bienal da Bahia. 

Junto com a mostra, um documentário sobre a importância de sua obra chega às ilhas de edição, com previsão de estreia para novembro. O cineasta José Walter Lima relembra as 20 horas de entrevista com Rogério. "Ele é um personagem fantástico. Glauber Rocha mesmo dizia na época de 'Deus e o Diabo': 'Não se esqueçam que por atrás de nós está Rogério Duarte'", disse o diretor ao UOL.

Duarte diz que, atualmente, passou a ser luthier (fabricante de instrumentos musicais) de violões. "Mas é só um hobby", diz ele, que enfrentou um câncer na garganta há alguns anos, mas que já está curado. "Ainda tomo remédios, mas já nem me lembro mais disso". E resume: "Hoje eu trabalho quando quero, sou aposentado. Não sou rico, mas tenho o suficiente para viver. Sou ecologista, crio cavalos, vacas e dou aulas de sânscrito".

O artista faz questão de falar sobre o amigo Glauber Rocha. "Até o fim fomos sempre grandes amigos. Eu sempre faria tudo que fosse o melhor pelo Glauber. Era uma pessoa muito generosa, muito amorosa, muito apaixonada. Fazia tudo com muita paixão. Com muita energia, com muito amor. Até o ponto de ter morrido jovem de tanta explosão de energia que tinha. Era meu irmão. Foi, entre todos os meus grandes amigos, se é que tive tantos, um dos mais queridos." 

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  • Marco Antonio Cavalvalcanti/UOL

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